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Ouro impulsiona exportações de Minas Gerais no 1º semestre com valorização histórica

Valorização histórica e retomada de operações disparam vendas do metal precioso, consolidando-o como destaque na balança comercial mineira
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Ouro impulsiona exportações de Minas Gerais no 1º semestre com valorização histórica
Minas Gerais responde atualmente por cerca de metade do valor das vendas externas brasileiras de ouro, metal que registrou preços recordes neste ano | Foto: Reprodução Adobe Stock / IA

O ouro assumiu o protagonismo da pauta exportadora de Minas Gerais em 2026. Em meio à valorização histórica do metal no mercado internacional e à retomada de operações de mineradoras no Estado, as exportações do produto dispararam 64,5% no primeiro semestre, consolidando-se como o principal destaque da balança comercial mineira.

Minas Gerais exportou US$ 21,9 bilhões entre janeiro e junho deste ano, mantendo-se como o terceiro maior exportador do País, responsável por quase 12% das vendas externas brasileiras. No período, registrou superávit de US$ 12,28 bilhões e movimentação de comércio de US$ 31,6 bilhões. Entre todos os produtos embarcados, o ouro foi o que apresentou o maior avanço frente ao mesmo período de 2025.

Embora o desempenho seja reforçado pelo avanço de projetos minerários, especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio avaliam que o principal motor dessa expansão continua sendo a forte valorização do metal no mercado internacional, impulsionada pela busca global por ativos considerados mais seguros em um cenário marcado por conflitos geopolíticos, inflação persistente e incertezas econômicas.

O analista de negócios internacionais da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Felipe Ramon de Britto, explica a alta demanda internacional. “Em momentos de incertezas globais, como as guerras entre Ucrânia e Rússia, os conflitos no Oriente Médio, a guerra comercial entre China e Estados Unidos e até riscos de interrupções em importantes rotas comerciais, os investidores costumam procurar o ativo mais seguro que conhecemos: o ouro”, afirma.

Segundo ele, Minas Gerais responde atualmente por cerca de metade do valor das vendas externas brasileiras de ouro. E ressalta que os municípios de Paracatu, no Noroeste do Estado, e Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, permanecem como os dois maiores municípios exportadores do metal no País.

Apesar do peso do cenário internacional, Britto destaca que houve reforço da oferta mineira com a retomada de operações antes paralisadas. Um dos exemplos é a Jaguar Mining, que voltou a produzir na mina Turmalina, em Conceição do Pará, na região Centro-Oeste do Estado, cujas exportações começaram em maio e ganharam força em junho. A empresa também trabalha para reabrir a mina de Caeté até o fim deste ano.

Já a AngloGold Ashanti avalia retomar as operações do complexo Córrego do Sítio, em Santa Bárbara (região Central), ampliando a capacidade produtiva da companhia em Minas Gerais.

Os dois movimentos já haviam sido antecipados em reportagens recentes do Diário do Comércio e indicam uma perspectiva de expansão gradual da produção estadual nos próximos anos.

Valor exportado cresce mais que produção

Na avaliação do sócio da Valor Investimentos, Gabriel Cecco, o crescimento das exportações exige uma interpretação cuidadosa. Segundo ele, o aumento registrado pelo comércio exterior refere-se ao valor financeiro das vendas e não necessariamente ao volume físico de ouro extraído. “O ouro foi a mercadoria com maior crescimento nas exportações mineiras neste ano, mas isso representa principalmente um aumento do valor exportado. Quando o preço internacional sobe fortemente, como ocorreu nos últimos meses, o faturamento das exportações dispara mesmo que a produção permaneça praticamente estável”, explica.

Cecco ressalta que a forte valorização do metal ocorreu ao longo dos últimos 12 meses, culminando em preços recordes no início de 2026. Desde então, houve uma correção das cotações, mas elas continuam significativamente superiores às registradas no ano passado.

Entre os fatores que impulsionaram esse movimento estão a intensificação dos conflitos geopolíticos, a inflação global, o elevado endividamento dos governos e, principalmente, o aumento das compras de ouro pelos bancos centrais ao redor do mundo, como estratégia para diversificar reservas internacionais e reduzir a dependência do dólar.

Ao mesmo tempo, a oferta mundial cresce lentamente, já que a abertura de novas minas exige elevados investimentos e longos períodos de maturação. Para o especialista, ao analisar o desempenho das exportações é preciso separar cinco fatores: o crescimento do valor exportado, a quantidade efetivamente embarcada, o impacto do preço internacional, a influência do câmbio e a eventual expansão da produção mineral. “O aumento do valor exportado não significa, necessariamente, que Minas Gerais produziu mais ouro. Muitas vezes significa apenas que o metal ficou mais caro no mercado internacional”, observa.

No entanto, dados do Comexsat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostram que as exportações cresceram tanto em volume quanto em valor. De acordo com as informações, enquanto no primeiro semestre de 2025, foram embarcados 18,5 mil quilos, movimentando US$ 1,37 bilhão, em 2026, foram 19,4 mil quilos e movimentação de US$ 2,27 bilhões.

Ele acrescenta que o desempenho beneficia a atividade econômica, amplia a arrecadação de royalties e movimenta a cadeia produtiva da mineração. Entretanto, o impacto sobre a economia local depende do nível de investimentos, dos custos de produção, da estrutura tributária e da permanência dessa riqueza nas regiões produtoras.

Mercado internacional explica desempenho

Para o doutor e consultor em políticas públicas Diogo Prosdocimi, o avanço das exportações mineiras decorre quase exclusivamente das condições do mercado internacional, e não de políticas industriais implementadas no Estado.

Segundo ele, o ouro acumulou valorização superior a 90% em doze meses ao atingir níveis recordes em 2026, impulsionado pela migração global de capitais para ativos considerados mais seguros, movimento intensificado recentemente pelo aumento das tensões entre Estados Unidos e Irã.

Diogo Prosdocimi
Prosdocimi destaca valorização de 90% do ouro em 12 meses | Foto: Divulgação Diogo Prosdocimi

“O crescimento das exportações de ouro em Minas Gerais é reflexo direto do mercado internacional. É o mecanismo de preços funcionando, com o capital migrando para ativos que oferecem maior proteção em momentos de incerteza”, afirma.

Prosdocimi alerta, contudo, para um debate que avança no Congresso Nacional sobre o aumento da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem) incidente sobre o ouro, atualmente de 1,5%.

Na avaliação dele, elevar a alíquota justamente em um momento de alta rentabilidade do setor pode comprometer novos investimentos. “Projetos de mineração levam entre dez e quinze anos para gerar retorno. Aumentar a tributação em um momento de bonança desestimula a abertura de novas minas. O combate ao garimpo ilegal passa mais por segurança jurídica e rastreabilidade da produção do que pelo aumento de impostos”, conclui.

Sobre o autor

Juliana Sodré

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, com especialização em Imagens e Culturas Midiáticas pela UFMG.

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