Ouro mantém força como proteção patrimonial e pode atingir US$ 6 mil por onça
Mesmo após anos de forte valorização e de uma recente correção nos preços, o ouro continua sendo visto pelo mercado como um dos principais ativos de proteção em um cenário de incertezas econômicas e geopolíticas. Especialistas avaliam que o metal precioso deixou de desempenhar apenas o papel tradicional de proteção contra a inflação e passou a ocupar uma posição estratégica na composição das reservas internacionais e na preservação patrimonial dos investidores.
Embora o consenso entre os especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio seja de que o cenário de longo prazo permanece favorável, as projeções para uma eventual cotação de US$ 6 mil por onça este ano, ainda dependem da combinação de fatores como cortes de juros nos Estados Unidos, continuidade das compras pelos bancos centrais e manutenção das tensões geopolíticas.
Para o sócio da Valor Investimentos, Gabriel Cecco, a tese de valorização do ouro ganhou um novo componente. Segundo ele, o mercado passou a equilibrar duas forças opostas: de um lado, os juros reais elevados nos Estados Unidos reduzem a atratividade de um ativo que não gera rendimento; de outro, a demanda por proteção permanece forte diante das compras recordes de bancos centrais, da diversificação das reservas internacionais e das incertezas geopolíticas.
Na avaliação de Cecco, a possibilidade do ouro superar os US$ 6 mil por onça deixou de ser uma hipótese remota, embora ainda não seja o cenário-base. O especialista observa que grandes instituições financeiras internacionais já trabalham com projeções próximas desse patamar entre o fim de 2026 e 2027, desde que ocorram cortes consistentes dos juros americanos, continuidade das aquisições pelos bancos centrais e um ambiente de incerteza internacional ainda relevante.
“O ouro não precisa mais de uma grande crise para continuar valorizando. Mesmo em um ambiente de inflação controlada, crescimento moderado e redução gradual dos juros, o custo de oportunidade de carregar o metal diminui, favorecendo novas altas”, afirma.
O especialista também destaca uma mudança importante no comportamento dos bancos centrais. “Hoje eles não compram ouro apenas por receio da inflação, mas também para reduzir a dependência do dólar como principal reserva internacional”, ressalta.
O especialista da Ourominas, Mauriciano Cavalcante, compartilha avaliação semelhante. Para ele, mesmo após oscilações recentes, a cotação acima de US$ 4,1 mil por onça demonstra que o ouro passou a refletir uma transformação na percepção de risco global.
Segundo Cavalcante, três fatores sustentam o atual ciclo do metal: a política monetária americana, o aumento das tensões geopolíticas, especialmente no Oriente Médio, e as compras realizadas por bancos centrais que buscam ampliar sua exposição a ativos reais.

Na avaliação dele, a marca de US$ 6 mil é factível, mas dependerá de um cenário de deterioração da confiança na economia americana, inflação persistente, queda dos juros reais, enfraquecimento do dólar e continuidade da demanda institucional.
“O prazo mais plausível seria entre o fim de 2026 e 2027. Não vejo esse patamar como exagerado em um ambiente de tensão fiscal nos Estados Unidos, risco geopolítico prolongado e busca global por proteção”, afirma.
Cavalcante pondera, entretanto, que o investidor deve estar preparado para períodos de volatilidade no curto prazo. Segundo ele, altas do dólar e dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano podem provocar correções temporárias, sem alterar a tendência de valorização.
Para o investidor brasileiro, o ouro oferece ainda um benefício adicional por combinar proteção internacional com exposição cambial, funcionando como instrumento de preservação patrimonial em momentos de desvalorização do real.
Já o CEO da iHub Investimentos, Paulo Cunha, adota uma visão mais cautelosa para o curto prazo. Segundo ele, o ouro atravessa um movimento natural de realização de lucros após a forte valorização registrada anteriormente. O metal, que atingiu cerca de US$ 5.350 por onça em fevereiro, recuou para aproximadamente US$ 4.150, acumulando perda de cerca de 25% em relação ao pico.
De acordo com Cunha, a melhora nas perspectivas para a inflação e os resultados positivos das empresas têm levado investidores a migrarem parte dos recursos para outros ativos, especialmente ações de tecnologia e de setores com desempenho mais robusto.
Na avaliação do executivo, para que o ouro ultrapasse US$ 6 mil seria necessário um novo ciclo intenso de busca por proteção, impulsionado por uma retomada da inflação, aumento das preocupações com o mercado acionário e maior percepção de risco envolvendo dívidas corporativas. “Por enquanto, esse não é o cenário, porque seria preciso uma alta significativa da demanda pelo metal”, observa.
Dessa forma, parte do mercado acredita que novas máximas históricas podem ser alcançadas até 2027, no entanto, a velocidade desse movimento dependerá, principalmente, da evolução da política monetária americana, do comportamento dos bancos centrais e do nível de incerteza da economia global.
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