Em Minas, 85,7% das empresas ainda não calcularam o efeito da reforma tributária no caixa

Maioria das empresas mineiras prioriza a atualização do sistema de gestão
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Em Minas, 85,7% das empresas ainda não calcularam o efeito da reforma tributária no caixa
Foto: Reprodução Adobe Stock

A menos de três meses de 2027, ano em que a reforma tributária começa a valer de fato para as empresas, a maior parte das médias empresas mineiras escolheu começar a adaptação pela frente mais visível, a tecnologia. Atualizar o sistema de gestão (ERP) é a única área em que a maioria já se mexeu. A pergunta sobre quanto a mudança vai pesar no caixa continua sem resposta em quase nove de cada dez empresas do Estado.

O retrato está no estudo “Data Tax: Raio-X de preparação das empresas para a reforma tributária”, divulgado neste ano pelo Tax Group, consultoria tributária com mais de 350 escritórios no país. Foram ouvidos 331 executivos, entre CEOs, CFOs e diretores, de empresas com faturamento entre R$ 15 milhões e mais de R$ 1 bilhão. Do total, 93 empresas são de Minas Gerais. O Estado registrou Índice de Prontidão de 24,3%, o sexto melhor resultado nacional.

O levantamento não perguntou aos gestores se conhecem a reforma. Mediu o que já foi feito em cinco frentes: ERP, fluxo de caixa, contratos, compras e preços. Entre as mineiras, 57,2% já concluíram ou estão em processo de adequação do sistema. Nas outras quatro áreas a situação se inverte. Ao todo, 85,7% não iniciaram estudos sobre o impacto no fluxo de caixa, 64,3% não revisaram contratos e 57,1% não ajustaram compras e preços. A amostra estadual não permite identificar quais setores estão mais atrasados.

No recorte nacional, cerca de 65% das ações consideradas críticas ainda não saíram do papel, e apenas 10% foram concluídas.

Para o CEO do Tax Group, Luis Wulff, a dificuldade não está na falta de informação nem de sistemas. “O problema é essencialmente de planejamento financeiro estratégico, tratado no estudo como ‘cegueira financeira'”, afirma. “Ironicamente, os sistemas adequados (tecnologia/ERP) são o único pilar em que a maioria já saiu da inércia”, diz. “A falha está na falta de visão sobre os impactos no caixa”, ressalta.

Segundo Wulff, o erro mais comum das médias empresas hoje é justamente esse, tratar a mudança “apenas como um assunto tecnológico/de TI (onde já avançam bem), mas esquecendo de proteger o caixa do negócio”.

Por que as médias ficam para trás

O estudo, na forma como foi apresentado pela consultoria, não traz uma comparação direta entre médias e grandes companhias. A explicação de Wulff para o atraso das médias é de mercado: essas empresas têm menos recursos sobrando que as grandes corporações para tocar projetos preventivos de porte.

A principal dificuldade apontada por ele é a gestão da liquidez e do capital de giro. Na sequência vêm a renegociação de contratos de longo prazo, a revisão da política de compras e o recálculo das tabelas de venda.

 Luis Wulff
O CEO do Tax Group, Luis Wulff, alerta para a falta de visão sobre os impactos da reforma tributária no caixa das empresas | Foto: Divulgação Tax Group

A pressão sobre os preços tende a ser forte. “A alíquota de referência poderá superar 28%, o que altera toda a lógica de formação de preços e repartição de custos na cadeia”, afirma o executivo. Pelos dados do estudo, sofrem mais os negócios com pouca margem para repassar preços e os que hoje dependem de regimes especiais. Na avaliação de Wulff, o setor de serviços deve ser o mais afetado na reprecificação, enquanto a indústria deve sentir o impacto principalmente no fluxo de caixa e no capital de giro.

Há também uma mudança a favor do contribuinte. A Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços ( IBS) seguem o modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) não cumulativo pleno, com direito a crédito sobre quase todas as aquisições ligadas à atividade da empresa, o que elimina boa parte das restrições que existem hoje no Programa de Integração Social (PIS), na Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS).

O risco do cadastro

Quem chegar a 2027 sem adaptar sistemas e regras fiscais, diz Wulff, enfrentará um “caos cadastral”, com “rejeição de notas fiscais, travamento operacional severo e paralisia de faturamento”. A falta de parametrização gera inconsistências que viram passivos ocultos e, mais adiante, autos de infração.

A recomendação é começar pela base de dados de produtos, clientes e fornecedores: eliminar itens duplicados, corrigir descrições, padronizar informações e validar as regras antes de configurar o sistema para os novos tributos. Na visão do executivo, na maioria dos casos não é preciso trocar de ERP, apenas ajustá-lo.

Outro ponto levantado pela consultoria são os créditos de PIS e Cofins que as empresas ainda não aproveitaram. Wulff cita estimativa do governo de R$ 140 bilhões parados no país. A recuperação considera os últimos cinco anos e pode, segundo ele, ajudar a financiar a adaptação. A transição vai até 2033, período em que as empresas vão conviver com os dois sistemas.

O que fazer agora

Para quem ainda não começou, a orientação de Wulff é atacar as cinco frentes ao mesmo tempo: ajustar o ERP, fazer já um estudo de impacto no fluxo de caixa, revisar e repactuar contratos em vigor, rever a política de compras e, principalmente, refazer as tabelas de preços. Na divisão de papéis, a diretoria deve se concentrar em margens e preços.

Na avaliação dele, ainda há tempo, desde que as correções sejam feitas antes de a reforma começar a valer em 2027.

Sobre o autor

Luciana Montes

Editora Executiva do Diário do Comércio desde 2019. Atuou como repórter e editora de Economia e Negócios entre 2004 e 2018. Graduada em Comunicação Social pela Fafi-BH, com pós-graduação em Tecnologias da Informação e Marketing em Comunicação. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/luciana-montes


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