Pássaro Verde admite frota com idade média de 10 anos e diz que transporte clandestino contribui para piora do serviço

Empresa reconheceu falhas no serviço intermunicipal em Minas Gerais e anunciou a incorporação de novos ônibus; DER-MG contabiliza 384 autos de infração contra a viação em 2026

Em uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a Viação Pássaro Verde reconheceu que a idade média de sua frota de ônibus chegou a dez anos. Além disso, a empresa atribuiu a deterioração das condições operacionais aos efeitos da pandemia e à concorrência com o transporte clandestino. A empresa também admitiu falhas na prestação do serviço intermunicipal em Minas Gerais e informou que está incorporando novos veículos para renovar a frota.

O reconhecimento foi feito pela procuradora da empresa, Rejane Suely de Sena Luberiaga, durante audiência pública, realizada nessa quarta-feira (28), para discutir reclamações de passageiros. Entre as queixas principais estão: atrasos, falta de manutenção, sujeira e condições de segurança dos ônibus. A concessionária atende dezenas de municípios mineiros, incluindo Belo Horizonte, Ouro Preto, Ponte Nova, Viçosa e Diamantina.

“Fazemos mea-culpa e estamos constrangidos, mas também temos elementos que resultaram nisso”, explicou a procuradora, ao mencionar a pandemia e a concorrência com operadores clandestinos.

Segundo Rejane, o transporte regular está sujeito a custos e exigências operacionais que não são observados pelo serviço clandestino. Na avaliação dela, a perda de passageiros compromete a capacidade de investimento das empresas concessionárias. Sem o enfrentamento da atividade irregular, argumentou, as multas aplicadas pelo Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG) não resolvem o problema da renovação dos veículos. “Pois não se tem dinheiro para comprar outro (ônibus)”, disse.

A procuradora informou que a Pássaro Verde opera com uma frota de cem ônibus. Quatro veículos novos foram incorporados recentemente ao atendimento da região de Ouro Preto, e outros nove devem ser remanejados de empresas do mesmo grupo econômico. Além disso, dez ônibus estão em fase de encarroçamento, etapa de montagem da carroceria, para futura incorporação à frota.

Rejane também reforçou que a empresa não está em recuperação judicial.

DER-MG contabiliza 384 autos de infração

A fiscalização estadual reconheceu problemas no sistema de transporte intermunicipal e informou que a Pássaro Verde acumulava 384 autos de infração em 2026 até 20 de outubro.

“De fato, o sistema de transporte está em colapso”, afirmou o gerente de Fiscalização de Transporte e Trânsito do DER-MG, Eriênio Jaderson de Souza. Segundo ele, o órgão intensificou as operações contra o transporte clandestino, mas o crescimento da atividade supera a capacidade de fiscalização.

O representante da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade (Seinfra), Diovane de Sá Leopoldino, também apontou dificuldades na gestão do transporte em Minas Gerais, que possui 853 municípios. Ele defendeu a revisão das regras do sistema de transporte concedido, cujo regulamento, segundo ele, data de 2007.

Passageiros relatam atrasos, falhas de segurança e perda de confiança

Durante a audiência, usuários relataram problemas recorrentes nas viagens operadas pela Pássaro Verde. Os consumidores ouvidos também mencionaram casos de venda de passagens acima da capacidade de assentos e de crianças transportadas sem poltronas disponíveis.

O advogado Ezequiel Geraldo de Magela afirmou que foram registradas cerca de 200 reclamações de passageiros nos 15 dias anteriores à audiência. Os relatos incluíam transtornos em linhas que atendem municípios da região da Serra do Caraça, como Catas Altas e Santa Bárbara, na região Central de Minas Gerais.

Outro passageiro, o advogado Rogério Fernandes, afirmou que percebeu melhora nas viagens entre Ouro Preto e Belo Horizonte nas três semanas anteriores à audiência, com veículos novos e cumprimento dos horários. Ele, no entanto, atribuiu a mudança à mobilização em torno da reunião na Assembleia.

Fernandes relatou que, em 19 de junho, embarcou em Belo Horizonte em um ônibus que chegou com 50 minutos de atraso e apresentou problemas durante o trajeto. Na Serra de Itabirito, o compartimento de bagagem se abriu, espalhando malas pela estrada.

“Estava em Belo Horizonte indo para Ouro Preto. Com 50 minutos de atraso chegou um ônibus, uma verdadeira sucata. Na Serra de Itabirito o porta-malas abriu e a bagagem se espalhou pela estrada, para desespero do motorista, e numa estrada extremamente perigosa”, contou.

Representantes de municípios atendidos pela empresa também cobraram melhorias. O vereador João Ronaldo Gomes, de Catas Altas, relacionou o avanço do transporte clandestino às dificuldades das empresas regulares para atender à demanda. Já Ailda Anacleto, presidenta do Conselho Municipal de Saúde de Mariana, destacou a vulnerabilidade dos passageiros, sobretudo das mulheres, quando os ônibus quebram ou param nas estradas. Ela defendeu o retorno dos auxiliares de viagem e o reforço da fiscalização.

Comissão fará visita à garagem da empresa

Diante das reclamações, a Comissão de Assuntos Municipais e Regionalização da ALMG fará uma visita à garagem da Pássaro Verde em 9 de novembro, conforme requerimento aprovado durante a reunião. O objetivo é verificar as instalações e as condições da frota. Uma nova audiência deverá discutir as providências adotadas para corrigir os problemas.

Em nota, a Viação Pássaro Verde reconheceu os transtornos causados aos passageiros das linhas Belo Horizonte-Ouro Preto e Belo Horizonte-Mariana. Veja a nota na íntegra:

“A empresa esclarece que os desafios operacionais estão relacionados a fatores que, nos últimos anos, comprometeram sua capacidade de investimento, entre eles o impacto econômico da pandemia, a concorrência desleal do transporte clandestino além dos custos de gratuidades legais sem compensação financeira integral.

Outro fator relevante é o aumento do fluxo de veículos na BR-356, agravado pelas obras, interdições e pelo deslocamento de parte do tráfego pesado da BR-381. Essas condições ampliaram o tempo de percurso e impactaram a pontualidade dos horários atualmente autorizados.

Como parte das medidas de melhoria, a empresa já incorporou 12 veículos à operação, sendo quatro ônibus zero-quilômetro destinados à linha Belo Horizonte–Ouro Preto, seis veículos remanejados de outras operações do grupo e dois integralmente reformados. Também intensificou os procedimentos de manutenção preventiva e corretiva, buscando maior confiabilidade e segurança.

No primeiro semestre deste ano, a empresa transportou 126.617 passageiros na região e registrou cerca de 82 reclamações no SAC, o equivalente a aproximadamente 0,06% do total de usuários transportados, ou seja, cerca de uma ocorrência a cada 1.544 passageiros. Embora esse índice represente uma parcela reduzida diante do volume de viagens realizadas, a empresa reforça que todas as reclamações são acompanhadas e tratadas e que, mesmo nos episódios de falhas operacionais, mantém assistência aos passageiros.

A Viação Pássaro Verde reitera que reconhece os transtornos, reafirma o respeito aos passageiros e destaca que continuará investindo em melhorias e colaborando com o poder público para oferecer um transporte cada vez mais seguro, regular e eficiente”.

Sobre o autor

Ana Luisa Sales

Repórter do Diário do Comércio desde 2025, graduada em jornalismo pela UFMG e especialista em ESG e sustentabilidade corporativa pela FGV.