Dez anos da Pampulha Patrimônio da Humanidade: despoluição estratégica para o futuro de BH
Neste 17 de julho de 2026, Belo Horizonte celebra os dez anos do reconhecimento do Conjunto Moderno da Pampulha como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. O título consagrou um dos maiores ícones da arquitetura moderna mundial e projetou a capital mineira no cenário internacional do turismo cultural. Mais do que uma data comemorativa, este aniversário convida a refletir sobre um aspecto essencial para a preservação desse patrimônio: a qualidade ambiental da Lagoa da Pampulha.
Quando a Unesco concedeu o reconhecimento, não homenageou apenas edifícios, jardins ou obras de arte. O valor universal excepcional do conjunto está na integração entre arquitetura, paisagem e espelho d’água, concebida por Oscar Niemeyer, Roberto Burle Marx, Cândido Portinari e Juscelino Kubitschek. Preservar a Pampulha sempre significou preservar também
sua lagoa.
Ao longo das décadas, a urbanização acelerada da bacia hidrográfica trouxe desafios como o lançamento de esgoto, o assoreamento e o excesso de nutrientes, especialmente fósforo, favorecendo a proliferação de algas e cianobactérias. Esse processo comprometeu a qualidade da água, reduziu o potencial turístico e enfraqueceu a percepção pública sobre um dos principais símbolos de Belo Horizonte.
Esse cenário começou a mudar há mais de uma década com a atuação do Consórcio Pampulha Viva. A Hydroscience, integrante do consórcio e responsável pela aplicação da principal tecnologia utilizada no Brasil para a reversão da eutrofização de lagos e reservatórios, passou a conduzir o controle do fósforo – principal combustível das florações algais – e das cianobactérias. O resultado foi uma transformação consistente dos indicadores ambientais, permitindo a recuperação gradual da qualidade da água e a retomada da navegabilidade da lagoa.
Hoje, se a Pampulha celebra dez anos como Patrimônio Cultural da Humanidade e se prepara para novos modelos de gestão, incluindo parcerias público-privadas voltadas à ampliação das atividades turísticas, culturais, esportivas e de lazer, isso se deve também aos avanços alcançados na despoluição. Mesmo diante do desafio permanente representado pelo lançamento de esgoto na bacia, os resultados obtidos demonstram a eficiência de uma gestão baseada em ciência, monitoramento e tecnologia. Esses avanços vêm sendo corroborados pelos próprios indicadores da Copasa, que passaram a classificar, em diferentes períodos de
monitoramento, a condição da água da lagoa entre boa e ótima, confirmando a evolução da qualidade ambiental.

Como biólogo, tive a satisfação de participar diretamente desse processo e de acompanhar seus resultados ao longo dos anos. A experiência acumulada em mais de 60 projetos de recuperação de lagos e reservatórios em diferentes regiões do Brasil reforça uma convicção: recuperar ambientes aquáticos não é apenas uma agenda ambiental, mas uma estratégia de desenvolvimento. Água de qualidade gera benefícios que vão muito além da paisagem. Ela fortalece o turismo, valoriza os imóveis, amplia o uso qualificado dos espaços públicos, impulsiona a economia local e cria condições para novos investimentos. Não existe complexo turístico sustentável nem patrimônio urbano plenamente valorizado sem um corpo hídrico ambientalmente saudável.
A experiência da Pampulha confirma essa realidade e não é um caso isolado. Projetos conduzidos pela Hydroscience em diferentes regiões brasileiras demonstram que a recuperação da qualidade da água produz impactos permanentes. Na barragem da Estação de
Tratamento do Guandu, no Rio de Janeiro, a atuação contribuiu para enfrentar uma grave crise provocada pela proliferação de cianobactérias em um sistema que abastece milhões de pessoas. No Reservatório Joanes I, em Salvador, a redução superior a 85% do fósforo fortaleceu a segurança hídrica de um manancial responsável por cerca de metade do abastecimento da região metropolitana. Em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, o controle contínuo dos nutrientes mantém, desde 2014, a qualidade do principal manancial de abastecimento do município, demonstrando que prevenir a eutrofização é muito mais
eficiente do que administrar crises.
Esses resultados evidenciam que investir em ciência, inovação e gestão contínua dos recursos hídricos protege patrimônios, fortalece economias locais, amplia a segurança hídrica e melhora a qualidade de vida da população.
Ao celebrar os dez anos da Pampulha como Patrimônio Cultural da Humanidade, celebramos também uma certeza construída pela experiência: cidades que cuidam de suas águas cuidam do seu patrimônio, da sua economia e do seu futuro.
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