Economia e bem-estar: Maria Homem propõe nova liderança para um mundo em transformação

Obra "Procura-se uma Nova Liderança para um Novo Tempo” aborda a atual forma de liderar
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Economia e bem-estar: Maria Homem propõe nova liderança para um mundo em transformação
Foto: Divulgação Maressa Andriolli

Em tempos marcados por crises de todas as naturezas, agravadas pelos extremos climáticos severos, pela instabilidade geopolítica e por uma revolução tecnológica acelerada pela inteligência artificial, a figura do líder tradicional sucumbiu frente ao adoecimento mental da nossa época. É o que defende a psicanalista, pesquisadora e escritora Maria Homem, que esteve recentemente em Belo Horizonte para o lançamento de seu novo livro, “Procura-se uma Nova Liderança para um Novo Tempo”.

Reconhecida nacionalmente por articular a psicanálise às grandes questões culturais da atualidade, Maria Homem traz nessa nova obra a constatação de que o processo paradigma mental é outro e isso já impacta a forma de liderar hoje.

Em entrevista exclusiva à página do Movimento Minas 2032 (MM2032) – iniciativa abrigada no Diário do Comércio dedicada a articular primeiro, segundo e terceiro setores em torno da Agenda 2030 -, Maria Homem defende que os desafios socioambientais e a saúde mental deixaram de ser pautas periféricas de responsabilidade social corporativa. Ao contrário: tornaram-se o núcleo central da viabilidade estratégica dos negócios e da sobrevivência institucional.

Ao debatermos a Agenda 2030 e o desenvolvimento sustentável com as lideranças empresariais, percebemos que ainda é difícil engajar. Diante do seu novo livro, fica o questionamento: quando falamos que “procura-se uma nova liderança para um novo tempo”, quem de fato está procurando? É o mercado, são as pessoas ou as instituições?

Camadas conscientes e inconscientes da nossa cultura estão pedindo isso em todos os agenciamentos: as pessoas, as famílias, as instituições e os mercados. Os governos e as estruturas do Estado apresentam vários pontos de sofrimento, adoecimento, angústia, erro, esgotamento e crise. Vários autores chamam isso de policrise ou crises sistêmicas. Isso já vem à tona na cultura em várias instâncias. Por exemplo, discutir crise climática é uma obviedade.

No ano passado, a revista “Nature”, uma das maiores do mundo em ciência, cunhou o conceito de eco-anxiety, a ecoansiedade: pessoas que realmente ficam mal ou se tornam menos produtivas porque enfrentam crises de depressão, ansiedade, TDAH e angústia pela sensação de que o planeta pode se destruir, de que a casa onde habitamos (oikos, ecologia) não é sustentável. Vivemos secas, enchentes históricas, o fenômeno El Niño com intensidade inédita, extremos climáticos que atingem da Argentina ao Rio Grande do Sul e chegam ao Sudeste. Essa sensação de descontrole da natureza se espelha nas organizações. Enfrentamos crises nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de questionamentos profundos no setor bancário e nas corporações. A própria perda da previsibilidade e do império da lei (rule of law) gera angústia global. Trata-se de um pacto social em erosão. Se descermos das escalas do planeta e das instituições até a escala individual, como abordo nas espirais ascendentes de outro livro meu, “A Lupa da Alma”, vemos o indivíduo, os afetos e a família em ebulição.

Há questionamentos profundos sobre relações, casamentos e modelos tradicionais, ao mesmo tempo em que convivemos com recordes históricos de adoecimento psíquico. Ansiedade, depressão, bipolaridade, borderline e narcisismo não são etiquetas vazias: são formas pelas quais o contemporâneo escancara suas fissuras. O velho paradigma tornou-se insustentável. Vivemos um momento de repactuação profunda sobre como convivemos nesta casa comum, exigindo também a incorporação de um novo paradigma pós-antropocêntrico e híbrido, diante da convivência com inteligências artificiais e novas realidades ecológicas. Sem autoconhecimento e coragem de rever nosso lugar no mundo, apenas nos afundaremos em autoenganos.

Observando o ambiente corporativo, a liderança tradicional sempre foi educada para reprimir a subjetividade e os afetos. Esse líder está de fato procurando essa transformação em si mesmo ou essa busca muitas vezes ainda é uma resposta externa e utilitária às regulações, como a nova NR-1 e os riscos psicossociais?

Há uma resposta dupla. Essa demanda aparece explicitamente para aqueles que já estão em um caminho de maior expansão da consciência, mas também surge impulsionada pela dor: líderes perdidos, em sofrimento agudo, que pedem socorro. O que escuto frequentemente desses gestores? Primeiro, a solidão do poder: aquele que comanda não encontra pares com quem partilhar suas reais angústias.

Segundo o conflito relacional: a incapacidade de gerir figuras disfuncionais na equipe e o despreparo em competências socioemocionais. Os riscos psicossociais atingem todos os andares da hierarquia. A liderança corporativa já intui, ou está sendo forçada a constatar, que o modelo faliu. O reflexo aparece no absenteísmo elevado, na perda de produtividade e no alto turnover. No frigir dos ovos, o mercado sempre contratou pelo currículo técnico (hard skills) e continua demitindo pela falta de inteligência emocional e relacional (soft skills).

Em uma era na qual a inteligência artificial executa tarefas técnicas com maestria incomparável, qual é o diferencial estritamente humano? Maturidade psíquica, criatividade, habilidade no trato interpessoal e capacidade de sustentação coletiva. A necessidade de mensurar saúde mental na legislação existe porque chegamos ao limite do adoecimento. Aqueles que compreenderem essa virada antes dos demais terão a visão sistêmica (overview) indispensável para atravessar a década altamente disruptiva que temos pela frente. Trata-se de uma urgência de reinvenção da própria mente humana.

Ao analisar o protagonismo nessa virada de chave, você identifica um papel de destaque para as mulheres e a liderança feminina na condução dessa nova cultura de gestão?

Sem dúvida. A ponta dessa transformação de mentalidade é e será predominantemente feminina. No meu trabalho de advising, atendo tanto homens quanto mulheres, mas são elas que historicamente acumulam maior repertório de escuta, autoconhecimento, busca por análise e coragem de sustentar a vulnerabilidade como força transformadora. Enquanto muitos homens ainda chegam à mesa após rupturas somáticas severas, crises de pânico, explosões emocionais ou dependência de ansiolíticos, as mulheres já trazem um lastro de diálogo e reflexão sobre si e sobre o outro.

Essa onda de renovação não é uma abstração: ela já possui materialidade no mundo real. Revela-se no cotidiano das organizações, em novos arranjos de projetos e na exigência irrevogável de dar nome ao que nos adoece. É preciso sentar à mesa, realizar rodas de conversa francas e construir pactos verdadeiros. A enorme identificação do público com as discussões do livro demonstra que a sociedade não aceita mais fingir normalidade diante da crise. O desconforto generalizado é, em si, o primeiro passo para repensarmos quem somos e para refundarmos a forma como lideramos o desenvolvimento.

Como as lideranças corporativas devem enxergar os conflitos geracionais e as diferenças de gênero, raça ou origem dentro das organizações?

Em vez de serem tratados como um fardo ou um problema a ser evitado, esses conflitos e diferenças devem ser encarados como uma oportunidade e um convite direto à alteridade e à diversidade. O atrito gerado pelo contato com realidades fora da nossa bolha, seja aprendendo com os mais velhos, os mais jovens ou com pessoas de origens periféricas, urbanas ou rurais, é justamente o que desperta novos insights, alimenta a inovação e permite a criação de novos produtos e processos.

Para além das metas operacionais imediatas, quais são as condições fundamentais para sustentar essa nova cultura de gestão e qual deve ser o seu princípio ético norteador?

A primeira condição essencial é substituir a urgência cega pelo tempo de contato e escuta real, permitindo a elaboração psíquica, o autoconhecimento e o aprendizado genuíno, em vez de se limitar a uma rotina de tarefas e planilhas. Já o princípio ético norteador (ethos) não pode ser o lucro pelo lucro, pois a concentração excessiva de dinheiro comprovadamente não garante saúde mental ou qualidade de vida. A nova equação deve focar na saúde do ecossistema social e mental, buscando distribuir riquezas para gerar o máximo de bem-estar para o maior número de pessoas.

Sobre o autor

Élida Ramirez


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