Mulheres que abrem caminhos para outras brasileiras
Laís Souza, técnica ambiental de 35 anos; Dolores Bertila, 56 anos, gestora e mobilizadora de recursos e parceiras no Terceiro Setor; e Virgínia Campos, engenheira e presidente da Sociedade Mineira de Engenheiros. Gerações, formações e visões diferentes de mundo. Em comum? O compromisso de usar suas carreiras para fortalecer outras brasileiras.
A preocupação tem base nos dados. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres ocupadas no País aumentaram consideravelmente ao longo dos anos, chegando a cerca de 44,6 milhões, crescimento de mais de 6,7 milhões desde 2016 até 2025. Apesar de, no ano passado, a participação das mulheres no mercado de trabalho seguir crescendo, ainda há muita desigualdade na remuneração e nas oportunidades. Isso sem falar que as mulheres destinam outras 20 horas semanais para trabalhos domésticos e de cuidado não remunerados, o que representa metade de uma jornada de trabalho de 40 horas semanais, mostram dados do Relatório Luz de 2025, organizado pelo GT Agenda 2030.
A técnica em meio ambiente e estudante de engenharia ambiental Laís Souza, de 35 anos, escolheu cuidar do meio ambiente e das pessoas. Em uma carreira predominantemente masculina, é a única mulher da equipe do Consórcio Pampulha Viva, formado por empresas contratadas pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Laís Souza conta que tem em suas mãos a tarefa de cuidar da despoluição da Lagoa da Pampulha e abrir mais espaços para que outras jovens consigam construir suas carreiras no meio ambiente.
“Percebo que, ao ser agente da despoluição da Pampulha, ao longo desses anos, tenho o privilégio de abrir caminho para outras mulheres e cumpro meu propósito com a natureza. Minha carreira me dá a chance de atuar em duas causas ao mesmo tempo: a feminina e a do desenvolvimento sustentável”, revela.
Já no Sistema Divina Providência, mais de 70% dos mais de 700 funcionários são mulheres, e 80% delas ocupam cargos de liderança. A estratégia de formar gestoras, especialmente aquelas que foram assistidas pela instituição, é uma política da gestão da mobilizadora de recursos para o Terceiro Setor e superintendente do SDP, de Dolores Bertila. Há mais de 30 anos trabalhando com instituições, ela sabe que, apesar de as mulheres serem maioria, os cargos mais altos ainda ficam com os homens.
“Sabemos que ter maioria no quadro de profissionais não basta se não houver equidade nos espaços de decisão. Essa é uma realidade que também aparece no Brasil: segundo o Mapa das Organizações da Sociedade Civil (OSCs), embora as mulheres componham cerca de 65% das equipes, apenas 46% dos cargos de liderança nessas organizações são ocupados por mulheres. É exatamente por isso que uso minha carreira para colaborar com trajetórias e abrir caminhos reais para que mais mulheres cheguem a posições de liderança e tomem decisões que impactam vidas”.
Dolores Bertila comenta que será homenageada no mês da mulher com o título de Cidadã Honorária pela Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) pelas contribuições à sociedade, inclusive às mulheres.
Engenheira civil com trajetória consolidada na área ambiental e presidente da Sociedade Mineira de Engenheiros, Virgínia Campos, 69 anos, transformou sua experiência técnica em uma plataforma de mobilização pela equidade de gênero nas áreas Steam. À frente da Sociedade Mineira de Engenharia (SME), atua como voluntária de uma das mais tradicionais entidades da engenharia em Minas Gerais e tem defendido políticas de incentivo à formação científica de meninas, o fortalecimento de redes femininas e a ampliação da presença de mulheres em cargos técnicos e estratégicos.
Sua atuação mostra que liderar, para além da gestão institucional, é criar pontes para que outras mulheres avancem com mais segurança, visibilidade e oportunidades.
“Está claro para mim que, quando uma mulher escolhe a engenharia, a tecnologia ou a ciência, ela amplia o futuro do País. E, quando chega à liderança, tem o dever de olhar para trás e estender a mão para outras. A presença feminina nas áreas Steam é uma pauta de desenvolvimento. Precisamos garantir que meninas saibam que pertencem a esses lugares e que terão apoio para permanecer, crescer e liderar”.
Virgínia Campos destaca ainda que a SME promoverá no dia 26 de março, o SteamWomen Day, evento internacional dedicado às mulheres nas ciências exatas.
Diante de histórias tão transformadoras, é preciso tomar cuidado para não entender o avanço dos direitos das mulheres como mérito individual. Trata-se de mudanças estruturais na sociedade, nas organizações e na cultura corporativa. É nesse contexto que a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos de Minas Gerais (ABRH/MG), Renata Santana, aponta a urgência da pauta feminina e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente do ODS 5 – Igualdade de Gênero, cuja meta é alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas, uma responsabilidade coletiva.
“Embora as mulheres representem mais da metade da população brasileira e apresentem, em média, maior nível de escolaridade, ainda não alcançaram a equidade plena no mercado de trabalho. Persistem barreiras estruturais que limitam sua presença em posições estratégicas e perpetuam, em algumas organizações, desigualdades salariais, um cenário que revela não apenas um desafio social, mas também uma perda concreta de potencial competitivo para as organizações”.
Renata Santana destaca ainda que a equidade de gênero não pode ser tratada como pauta periférica ou simbólica nos negócios, pois é uma agenda estratégica que exige compromisso institucional, revisão de práticas e transformação cultural profunda.
A especialista reforça que a união feminina é parte essencial desse movimento, mas a verdadeira mudança só acontecerá quando os homens também assumirem protagonismo na construção de ambientes mais justos, diversos e sustentáveis.
Conheça as principais metas do ODS 5 – Igualdade de Gênero
• Eliminar todas as formas de discriminação contra mulheres e meninas;
• Acabar com todas as formas de violência de gênero;
• Garantir participação plena e efetiva das mulheres na liderança e na tomada de decisões;
• Assegurar acesso igualitário à educação, saúde e oportunidades econômicas;
• Reconhecer e valorizar o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado;
• Garantir igualdade de direitos aos recursos econômicos e à propriedade.
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