Ética pode se expressar pelo mandamento ‘ama o outro como a ti mesmo’, diz Lauretti - Crédito: Divulgação/IBGC

São Paulo*

O “Fator humano na governança corporativa: impactos da era digital” norteou as discussões do 20º Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que aconteceu em São Paulo, na segunda-feira e terça-feira.

Durante as mesas que compuseram uma intensa programação ao longo dos dois dias, a ética foi assunto recorrente independentemente do tema específico daquela discussão.

Fosse ela a governança corporativa no mercado de capitais, nas empresas familiares, o papel dos conselhos, regulação, responsabilidade ambiental e social, entre tantos outros.

Para o presidente do Conselho de Administração do IBGC, Henrique Luz, existe um novo perfil de consumidores e novas expectativas que precisam ser entendidos pelas organizações.

“Pela primeira vez na história da humanidade trabalhamos tantas gerações ao mesmo tempo, então temos que pensar na maneira de trabalhar e de nos relacionarmos. São mais pessoas vivendo mais e consumindo mais, porém de forma diferente, querendo atuar de forma colaborativa. Onde há investimento em educação e conhecimento essa transformação é mais rápida”, explicou Luz.

No mesmo sentido, o presidente da KPMG, Charles Krieck, durante o painel “Gestão de pessoas na era digital”, pontuou a mudança de comportamento dos novos trabalhadores e novos consumidores e como eles exigem um novo perfil de liderança dentro das companhias.

“As pessoas não vivem mais para trabalhar, elas trabalham enquanto vivem, por isso é tão importante poder ter o cabelo como quiserem ou levar o cachorro para o escritório. Elas não querem trabalhar e nem consumir de empresas sem propósito. Nesse cenário a liderança precisa estar preparada para trabalhar em estruturas não hierarquizadas e plataformas abertas, de forma cada vez mais participativa e ouvinte e não determinante. Nunca o comportamento humano foi tão importante na atração de talentos e convencimento dos consumidores”, destacou Krieck.

O fundador e instrutor do IBGC, Lélio Lauretti, trouxe o próprio conceito de ética para a discussão, destacando o que ela não é: “a ausência de corrupção”. E recorreu ao pensador italiano Umberto Eco para dizer “quando surge o outro, nasce a ética”, sendo ela um conjunto de princípios universais afirmativos e perenes. Para ele, além da economia, a ética terá papel fundamental na forma de fazer negócios do século 21.

“Isso é importante em uma época em que pessoas são confundidas com estatísticas. A ética pode se expressar pelo mandamento ‘ama o outro como a ti mesmo’. Então acredito que caminhamos para uma sociedade ética com o desenvolvimento de práticas como a governança, que exige transparência. Hoje está tudo sobre a mesa. A equidade, através da meritocracia. A prestação de contas, quem vota pode pedir prestação de contas. A responsabilidade corporativa, com o zelo pelos reflexos da atividade no meio ambiente”, enumerou Lauretti.

A coordenadora do Capítulo Minas Gerais do IBGC, Mônica Neves Cordeiro, recém-eleita, pontuou a participação dos mineiros no evento e o crescimento da governança corporativa no Estado.

“Temos aqui no Congresso empresas e empresários importantes do Estado, cerca de 40 pessoas. O que queremos a partir de agora é fortalecer a atuação do IBGC em Minas Gerais. Vamos, ainda este ano, promover jornadas de conhecimento e levar nossa atuação também para o interior”, antecipou Mônica Cordeiro.

Brasil ainda engatinha no quesito governança

No primeiro dia do 20º Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, que aconteceu em São Paulo, logo pela manhã, em programação paralela, foram anunciados os resultados do projeto “Métrica de governança corporativa – os caminhos trilhados pelas empresas de capital fechado”, pelo gerente de Pesquisa e Conteúdo do IBGC, Luiz Martha.

O projeto foi desenvolvido pelo Instituto para que as empresas de capital fechado possam fazer uma autoavaliação sobre seu grau de adoção das boas práticas de governança.

A conclusão do estudo diz que as empresas de capital fechado encontram-se no estágio inicial do desenvolvimento da governança corporativa. A pontuação de 34,6 na Métrica de Governança Corporativa (em um total de 100) revela que há um longo caminho a ser percorrido pelas empresas fechadas em busca da evolução sobre o tema.

Se agrupadas por tipo de controlador, as estatais têm a melhor pontuação – 45,2. Estão à frente das empresas de controle familiar e das de capital compartilhado. Analisados separadamente, observa-se uma maior adoção das práticas de governança diretamente proporcional ao faturamento das companhias.

As de pequeno porte (até R$ 20 milhões/ano) com pontuação média de 19,1 pontos. Médias empresas (de R$ 20 milhões até R$ 100 milhões/ano), média 26,6 pontos. Médias-grandes empresas (de R$ 100 milhões até R$ 400 milhões), média 39,9 pontos. E grandes empresas (acima de R$ 400 milhões), 46,6 pontos.

“A explicação sobre o bom desempenho das estatais está, em grande parte, na existência da ‘Lei das Estatais’ (Lei 13.303/16), que exige uma série de normas com implementação de governança pública, compliance e melhor prestação de contas”, afirmou Martha.

A pontuação revela o estágio em que a empresa está. Até 20 pontos: embrionário. De 20,01 até 40: inicial. De 40,01 até 60: básico. De 60,01 até 80: sólido e de 80,01 até 100: avançado.

Para o próximo ano, a promessa é que serão feitos também recortes da pesquisa por setor produtivo e por região geográfica.

“A nota geral está muito aquém do que poderia estar e lança um desafio grande para o IBGC. Em geral as empresas estão no estágio inicial e o faturamento é um importante driver de aderência. A empresa vai ficando mais complexa ela tende a adotar o aprimoramento das práticas de governança. As empresas de capital fechado não têm uma cultura da transparência tão forte como as de capital aberto e estatais por serem menos exigidas pela legislação, mas, ao mesmo tempo, são elas as que mais têm procurado entender a governança corporativa. A governança pode ajudar a estruturar as decisões e aumentem a chance de perenidade da empresa. As práticas de governança ajudam a gerenciar melhor os riscos e tratar melhor os parceiros”, completou o gerente de Pesquisa e Conteúdo do IBGC.

Companhias abertas – Na tarde do dia 2 foi a vez dos resultados da pesquisa “Pratique ou explique – análise quantitativa dos informes das companhias abertas brasileiras (2019)”, modelo de ao nível de aderência às práticas recomendadas pelo “Código Brasileiro de Governança Corporativa – empresas abertas”.

A pesquisa aponta que companhias abertas adotam 51,1% das práticas recomendadas de governança corporativa. A taxa média de aderência das empresas do Novo Mercado é de 60%, ligeiramente abaixo das do Nível 2, com 62%.

De acordo com o gerente de Advocacy do IBGC, Danilo Gregório, a pesquisa evidenciou, ainda, a diversidade das companhias brasileiras quando o assunto é governança corporativa. A empresa de melhor desempenho cumpre 98% das recomendações e a e pior, 8,7%.

“No modelo Pratique ou Explique a empresa pode dizer se pratica ou explicar porque não pratica e, muitas vezes, o motivo pode ser melhor do que a prática para a realidade daquela empresa. O Código Brasileiro de Governança Corporativa – Companhias Abertas nasceu em 2016, depois de alguns anos de estudo. Verificamos que as companhias avançaram em todas as dimensões, mas ainda há um longo caminho a ser seguido. É fundamental que haja um plano de trabalho anual, multidisciplinar e com orçamento específico para que essa reflexão seja contínua seja institucionalizada”, explicou Gregório.

Entre as práticas recomendadas com maior taxa média de aderência, todas com mais de 86% foram:

As regras de governança da companhia devem zelar pela separação e definição clara de funções, papéis e responsabilidades associados aos mandatos de todos os agende de governança (86,1%);

O diretor-presidente não deve acumular o cargo de presidente do conselho de administração (89,1%);

Não deve existir reserva de cargos de diretoria ou posições gerenciais para indicação direta por acionistas (92,6%);

As atas devem permitir o pleno entendimento das discussões havidas na assembléia e trazer a identificação dos votos proferidos pelos acionistas (96,4%);

As atas de reunião do conselho devem ser redigidas com clareza e registrar as decisões tomadas, as pessoas presentes, os votos divergentes e as abstenções de votos (97,3%).

*A repórter viajou a convite do IBGC