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Itapecerica resiste: empreendedores locais lideram a retomada da Lagoinha

De antiquários a confeitarias, comerciantes que nunca saíram e jovens que apostaram na rua mostram como o empreendedorismo transforma territórios esquecidos
Itapecerica resiste: empreendedores locais lideram a retomada da Lagoinha
"Adquiri casa, adquiri imóvel, tudo pelo comércio desta maravilhosa rua. A Itapecerica é minha segunda mãe." Manoel Aparecida de Almeida e Erenice da Costa, donos do Móveis Cupim, na Rua Itapecerica desde 1971" | Foto: Diário do Comércio/Leonardo Morais

A rua Itapecerica já foi o coração boêmio de Belo Horizonte. Berço de sambistas, compositores e imigrantes que ajudaram a construir a Capital, a Lagoinha carrega no asfalto mais de um século de história, identidade e esquecimento. Décadas de abandono, obras que demoliram parte do bairro e um estigma forjado no imaginário coletivo foram apagando, tijolo por tijolo, o que um dia foi pulsante. Mas há coisas que o tempo não consegue demolir.

Demoliu o Cinema Lafaiete, demoliu a Praça Vaz de Melo, demoliu a Feira do Produtor, mas não demoliu as pessoas que ficaram. É delas esta reportagem: dos comerciantes que resistiram por décadas sem saber se valia a pena, dos jovens que apostaram no que a cidade insistia em ignorar e de um movimento, o Viva Lagoinha, que, com o apoio do Sebrae Minas, trabalha para provar que requalificar um bairro começa por respeitar quem nunca foi embora.

Esta é uma reportagem sobre memória, resistência e recomeço. Sobre o que se perde quando uma cidade abandona seus bairros e o que sobrevive quando as pessoas decidem ficar.

Entre memória e recomeço, a força da rua Itapecerica

A rua Itapecerica, espinha dorsal da Lagoinha, em Belo Horizonte, guarda o que o tempo insiste em levar. Na memória dos comerciantes que resistiram, as lembranças de uma rua que um dia foi pulsante. Nos novos negócios que chegam, a aposta é no potencial que a cidade ainda não descobriu.

A articulação começa a ganhar forma com movimentos de requalificação que pretendem mostrar a Itapecerica e a Lagoinha como um território que une arte, música e empreendedorismo. Afinal, a região abriga casarões históricos e é berço de compositores, pianistas, sambistas e trabalhadores que ajudaram a construir a Capital.

É nesse cenário que o casal de comerciantes Manoel Aparecida de Almeida e Erenice da Costa resistem em uma loja de móveis e antiguidades desde 1971, a Móveis Cupim. Entre mobiliários de herança, poltronas de cinema e objetos históricos, o casal guarda parte da memória da rua Itapecerica, em fotos antigas e recortes de jornais de diferentes épocas, do comércio pujante até o início dos anos 1980 aos desafios enfrentados pela construção do complexo da Lagoinha, que demoliu parte da região e afastou clientes.

“Quando eu cheguei aqui, em 1971, uma parte da Rua Itapecerica ainda era usada como zona boêmia. Nas proximidades havia o Cinema Lafaiete e, do outro lado, o São Geraldo. Também havia o Mercado da Lagoinha”, relembra Almeida.

Apesar dos altos e baixos, o comércio rendeu frutos que transformaram o futuro da família e garantiram o estudo dos filhos. “Adquiri casa, adquiri imóvel, tudo pelo comércio desta maravilhosa rua. E, até hoje, a gente luta por ela. Eu costumo dizer que a Itapecerica é minha segunda mãe, porque trouxe muitas coisas para a minha família”, acrescenta o comerciante.

Uma parte do sucesso do negócio até os dias atuais é resultado de uma fidelidade de décadas da clientela que não abandonou a região, aliada à atração de novos públicos. Erenice da Costa comenta que o interesse de jovens por antiguidades vem aumentando, especialmente entre arquitetos e artistas de cinema e teatro, um público fiel da Móveis Cupim.

Para atender às necessidades da nova geração, a comerciante pontua que o estabelecimento adotou o modelo de aluguel, atendendo estúdios culturais e festas com temática vintage. As vendas, segundo ela, embora mais de 70% sejam feitas de forma física, são impulsionadas pela divulgação dos produtos nas redes sociais, com destaque para o Instagram e Facebook.

Outra força da Rua Itapecerica é o espírito de colaboração entre os comerciantes. “Aqui não existe concorrência, existe amizade. Os lojistas se ajudam, assim como os carreteiros e os novos empreendedores que chegam à região. Quem permaneceu está ajudando a preservar a rua”, comenta Erenice da Costa.

Enquanto muitos fecham, outros resistem

João das Bananas
“Vai melhorar, porque não tem como piorar. Uma pena que não vou alcançar isso.” João Ambrósio Siqueira, o João das Bananas chegou à Lagoinha como feirante e fincou raízes na Rua Itapecerica, onde hoje toca sua mercearia | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

Nem todos que ficaram na Itapecerica fizeram isso por acreditar no futuro da rua. Alguns simplesmente não foram embora. É o caso de João Ambrósio Siqueira, o “João das Bananas”.

A história dele começa antes da Itapecerica, em um tempo em que a ferrovia ainda pulsava e uma feira colorida tomava conta de suas margens. Era lá, entre pencas de banana e o cheiro de fruta madura, que o menino do interior de Minas aprendeu o que era o comércio. A Feira do Produtor era o seu mundo. Quando ela acabou, levada pelo progresso que trouxe o metrô e apagou a paisagem que ele conhecia, João das Bananas não procurou outro rumo: comprou um ponto na Itapecerica e ficou com o que sempre teve, as frutas e o ofício.

Hoje, a mercearia é mais variada do que nos tempos da barraca, mas o princípio é o mesmo: vender o que o vizinho precisa sem que ele precise se deslocar. Embora se sinta parado no tempo, o feirante se orgulha da trajetória na rua Itapecerica, que o ajudou a dar estudo aos filhos e comprar imóveis.

A queda na clientela da Lagoinha levou “João das Bananas” a ampliar a oferta de produtos, como queijo, cachaça e itens de limpeza. Nos períodos de menor movimento, o feirante também investe no que chama de miudezas, como suco, macarrão instantâneo e doces. Os pequenos itens sustentam o caixa. “Quando a situação está ruim, invisto nisso. Quem não quer se deslocar acaba comprando”, explica.

A situação, segundo ele, está ruim há um bom tempo. O movimento caiu cerca de 70% em relação aos anos de maior pujança. A presença de usuários de drogas nas proximidades afasta parte do público que vem de fora, embora, para quem é do bairro, isso não seja novidade nem motivo de medo. “Aqui não é tão violento quanto parece para quem não conhece. Quem é daqui sabe disso”, pondera. Para o futuro, João Ambrósio é honesto. Acredita que a rua vai melhorar, mas não romantiza. “O comércio está ruim, como em todo lugar. Mas vai melhorar, porque não tem como piorar. Uma pena que não vou alcançar isso”, enfatiza.

Nova geração aposta na rua onde cresceu

Stephânia Lucas
Eu vi que a rua está crescendo e acredito no potencial que tem aqui. Stephânia Lucas criou o Empório Vó Iracema em homenagem à avó, e no cantinho da loja, uma fotografia dela ocupa o lugar de honra entre os temperos e os doces artesanais | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

Se os que ficaram sustentaram a Itapecerica em décadas de esvaziamento, os que chegam agora estão redesenhando o que a rua pode ser. E, em muitos casos, “os que chegam” são, na verdade, os que nunca foram embora: a nova geração, que “nasceu”, cresceu e acredita que dá certo empreender na região.

A empreendedora Stephânia Lucas é uma delas. Filha e neta de comerciantes, ela “nasceu” na rua Itapecerica e abriu o empório Vó Iracema a partir de uma lacuna identificada na Lagoinha: a ausência de espaços dedicados à venda de temperos, queijos, doces no quilo e café moído na hora.

“Eu vi que a rua está crescendo e acredito no potencial que tem aqui. Então decidi abrir justamente nesse ponto, que é perto da minha casa, é um lugar que eu gosto, onde me sinto segura”, destaca.

O nome do empório não surgiu por acaso. A avó de Stephânia Lucas era conhecida pelos temperos, doces e condimentos que preparava artesanalmente. A homenagem vai além da fachada: os clientes podem tomar café no “Cantinho Vó Iracema”, espaço que abriga uma fotografia dela e preserva sua memória.

Em pouco mais de seis meses de funcionamento, o empório vem conquistando moradores e visitantes da região. A empreendedora afirma que a receptividade tem sido muito positiva e atribui parte do movimento à localização estratégica, próxima ao Hospital Odilon Behrens, que gera um fluxo constante de pessoas na área.

“Fico muito feliz porque praticamente todo mundo que entra comenta que a região estava precisando de uma loja assim. Tenho recebido muitos elogios e uma ótima aceitação, tanto dos moradores quanto de quem visita o bairro”, afirma.

Paloma Svagera
Por mais que as pessoas falem que a confeitaria podia estar na Savassi, num bairro mais nobre — eu acredito muito no meu bairro. Paloma Svagera, criada na Lagoinha, formada em gastronomia e especializada em confeitaria, apostou na Rua Itapecerica para abrir o próprio negócio | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

A chegada do empório não foi um movimento isolado na rua Itapecerica. Ao redor, outros negócios novos foram se instalando em um curto espaço de tempo, incluindo uma confeitaria liderada pela chefe confeiteira Paloma Svagera, que cresceu e estudou na região.

A trajetória da empreendedora começou ainda no ensino médio, quando vendia doces para colegas da Escola Estadual Silviano Brandão, também na rua Itapecerica. Mais tarde, formou-se em Gastronomia e se especializou em confeitaria. Em 2018, abriu o primeiro negócio na Itapecerica. Fechou, mas não abandonou a rua: em 2024 voltou, em outro número, apostando no potencial do bairro como futuro polo gastronômico. “Por mais que as pessoas falem que a confeitaria podia estar na Savassi, em um bairro mais nobre, eu acredito muito na Lagoinha”, destaca.

Sobre o estigma que afasta investidores da região, como a presença de moradores de rua e usuários de drogas nas proximidades, a chefe confeiteira é direta. “Eles não me atrapalham em nada. Quem vier pode ter certeza de que vai ser muito bem acolhido.”

O currículo do estabelecimento é denso para uma loja nova: coxinha de morango, brigadeiros, tortas, bolos no pote e encomendas para festas. O carro-chefe é a coxinha de morango e o Festival de Fatias de Bolos, uma novidade na Lagoinha. “Na primeira edição, 108 fatias foram vendidas em uma hora e 20 minutos”, destaca Paloma Svagera.

Na função de empreendedora, a chefe confeiteira é quem faz a produção, as compras, o financeiro e o marketing nas redes sociais. As múltiplas habilidades, segundo ela, foram adquiridas em capacitações, como as oferecidas pelo Sebrae Minas. “O Sebrae tem ajudado muito. Fiz até uma consultoria financeira há pouco tempo, porque aqui não é só doce. Faço um pouco de tudo”, explica.

Empreendedorismo criativo descobre o que a cidade ignorou

A percepção das empreendedoras não é isolada. O movimento de novos negócios na rua Itapecerica ocorre em sintonia com um fenômeno que o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae Minas) tem acompanhado em diferentes bairros de Belo Horizonte: a descentralização do empreendedorismo criativo para regiões historicamente esquecidas pelo mercado.

Os números ajudam a entender melhor o cenário. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, mais de 20% dos negócios da Capital, cerca de 68 mil estabelecimentos, estão ligados à economia criativa, que abrange gastronomia, design, audiovisual, moda, tecnologia e produção cultural. Na Lagoinha, especificamente, levantamento da plataforma Applocal identifica cerca de 600 estabelecimentos comerciais e de serviços distribuídos em 32 ruas, de oficinas mecânicas e gráficas a bares, restaurantes e negócios ligados à alimentação.

O analista do Sebrae Minas, Renato Lana, explica que o que ocorre na Itapecerica tem uma lógica clara. A convivência entre negócios criativos novos e comércio tradicional consolidado cria um ambiente que atrai um perfil específico de consumidor.
“Negócios criativos bem montados chamam atenção e isso reverbera como marketing para o empreendedor. Consumidores ligados à cultura e à diversidade também acabam gerando movimento para toda a região”, destaca.

Lana chama atenção para o desafio do domínio do digital sem abrir mão da identidade local, tanto para negócios tradicionais quanto novos. Segundo ele, a experiência do cliente começa quando ele vai buscar informações nas redes sociais. “O negócio precisa estar presente antes, durante e depois da venda”, orienta Lana.

Ferramentas como WhatsApp, Instagram e plataformas de entrega são o caminho inicial para empreendedores. O analista também destaca a atuação de entidades, como o Sebrae Minas, na região, com trilhas de capacitação e projetos no âmbito do programa de territórios de cidades criativas, com foco em gastronomia e cultura local.

Além da Lagoinha, outros bairros de Belo Horizonte, como Santa Teresa, Pompéia, Vera Cruz e Padre Eustáquio, passam por processos semelhantes ligados à requalificação de espaços e ao fomento ao empreendedorismo, cada um com a própria particularidade. “A Lagoinha, por exemplo, concentra o maior volume de imóveis tombados da Capital: 70% das edificações têm proteção patrimonial. Há uma preservação da cultura do interior nesse bairro, e esse perfil sociodemográfico tem atraído novos empreendedores”, argumenta.

Apagamento histórico cobra preço alto da Lagoinha

Recorte de jornal da Lagoinha
Recorte de jornal guardado por Manoel Aparecida de Almeida registra os desafios enfrentados pelo comércio da Rua Itapecerica em décadas passadas, uma memória viva de uma rua que resistiu ao que o tempo insistiu em levar | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

O potencial da rua Itapecerica, porém, convive com um passado de abandono que o mercado sozinho não explica. O professor, diretor e produtor audiovisual Melquíades Lima contextualiza a história do território, que já foi o principal trajeto de ligação do centro de Belo Horizonte à Pampulha.

Antes da construção da avenida Antônio Carlos, a rua Itapecerica era uma das principais portas de entrada para o centro de Belo Horizonte. Segundo ele, a via e seu entorno acolheram parte dos primeiros trabalhadores responsáveis pela construção da nova capital, incluindo imigrantes italianos, espanhóis, libaneses e turcos. Dessa ocupação nasceu a Lagoinha, considerada o primeiro bairro da cidade, formado antes mesmo da inauguração oficial de Belo Horizonte.

“A Lagoinha é a contraface da arquitetura de Belo Horizonte. Recusou-se a ser um modelo imposto pela nova capital. É resistência, mas pagou um preço muito alto por isso”, destaca o profissional, que dedicou anos pesquisando a história do bairro para os documentários “Lagoinha” e “Lagoinha, Ruínas da Memória”.

Ele explica que o preço tem endereço e data. A partir dos anos 1950, a boemia tomou espaço na mídia e instalou no imaginário coletivo a ideia de um bairro violento. Nos anos 1970 e 1980, a construção de viadutos degradou a região de forma física e simbólica.

O poder público, segundo Lima, tratou o abandono como política. “Não houve investimento em limpeza, fiscalização nem segurança adequada. O fim da Praça Vaz de Melo comprometeu a qualidade de vida das pessoas. Houve um apagamento histórico da Lagoinha”, complementa.

Para o professor, a solução passa por um esforço que nenhum agente consegue fazer sozinho. “Precisa de comércio, cultura, investimento e da garantia do poder público de que o espaço será cuidado e monitorado. É um esforço coletivo da comunidade, do poder público e da iniciativa privada”, pontua.

O modelo que ele cita como referência é o do Dragão do Mar, em Fortaleza. O espaço foi requalificado e se tornou um dos principais territórios de bares, casas de show, áreas gastronômicas e artísticas do Ceará. “A Lagoinha, bem como a Itapecerica, tem tudo para ser isso. É um bairro que tem chances reais de melhorar”.

Projeto “Gente Fica” propõe requalificação com olhar coletivo

Projeto Viva Lagoinha
Projeto de requalificação articulado pelo “Viva Lagoinha” começa pela Passarela da Lagoinha e a rua Itapecerica | Foto: Divulgação Viva Lagoinha

Enquanto comerciantes resistem e novos negócios chegam, um movimento organizado trabalha para transformar resistência em projeto. O Viva Lagoinha, instituto que articula cultura, urbanismo e empreendedorismo no bairro, desenvolveu o Gente Fica: uma proposta de requalificação urbana que parte de um princípio diferente das revitalizações tradicionais.

“A requalificação só acontece de verdade com todo mundo dentro, sem expulsar quem já está”, diz Pedro Quintanilha, arquiteto e urbanista que coordena o núcleo de urbanismo e arquitetura do instituto.

A proposta do Gente Fica, segundo o fundador do projeto Viva Lagoinha, Filipe Thales, começa por intervenções artísticas e a instalação de mobiliário urbano que melhora a relação das pessoas com o espaço público, começando pela Passarela da Lagoinha e pela rua Itapecerica.

Utilizando a acupuntura urbana como premissa, a proposta transforma onde há abandono em um corredor de arte pública. “Onde havia silêncio, emerge presença humana. Onde havia apagamento, floresce identidade”, destaca o idealizador.

As principais ações do Gente Fica são:

• Portais da Lagoinha: transformar cerca de 80 portas de comércio fechado da rua Itapecerica em uma galeria a céu aberto;

• Rua Solar (iluminação humana): instalação de arandelas e catenárias no formato do Copo Lagoinha e iluminação RGB para valorizar a segurança, a leitura do espaço e as atividades noturnas;

• Lixeiras Lagoinha: instalação de lixeiras no formato do Copo Lagoinha que conecta a reciclagem à identidade local.

Filipe Thales e Pedro Quintanilha
A requalificação só acontece de verdade com todo mundo dentro, sem expulsar quem já está. Filipe Thales, fundador do Viva Lagoinha, e Pedro Quintanilha, arquiteto e urbanista responsáveis pelo Gente Fica | Foto Diário do Comércio / Leonardo Morais

Também estão previstas instalações e programações complementares, como a Passarela Boemia e Correria, uma intervenção imersiva criada por artistas locais para pedestres que circulam entre a Rodoviária e a Estação Lagoinha. O projeto também prevê o Portal da Lagoinha e a revitalização do Largo da Ita, com intervenções voltadas à valorização da memória, da identidade cultural e das raízes afro-brasileiras da região.

O horizonte vai além das pinturas nas portas. Pedro Quintanilha revela que quatro casarões históricos na Itapecerica, entre eles a Casa da Loba, símbolo da memória arquitetônica do bairro, estão no centro de um plano maior de retrofit que prevê um Museu da Lagoinha, um restaurante-escola e um centro cultural, que pode contar com participação do Sesc.

As articulações com entidades como Sindbares, Sindhotéis e Fecomércio já estão em andamento. “Acreditamos muito nas parcerias para desenvolver isso. São janelas de oportunidade que precisamos aproveitar”, reforça Quintanilha.

Enquanto os projetos ganham forma, quem está na rua continua fazendo o que sempre fez: abrindo a porta de manhã, fechando à noite e esperando que dias melhores virão. É a mesma Erenice da Costa que abre a Móveis Cupim desde 1971, a mesma que guarda nas gavetas as fotos de uma rua que o tempo quis apagar e que, mais de cinquenta anos depois, ainda acredita. “A gente sempre acredita que vai melhorar. Novos negócios vão chegar, outros empreendimentos vão surgir e a rua vai continuar se renovando. O futuro da Itapecerica é muito promissor. Tem espaço para todo mundo.”

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