Amanda Cezário, Adriana Barbosa, Antônio Santos, Carlos Alberto Hilário e Grazi Mendes: oportunidades ainda acontecem dentro das mesmas bolhas

Cinquenta e seis por cento! Por si só esse número deveria justificar a importância desse grupo na economia nacional. Em 2019, pretos e pardos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), representavam 56% da população brasileira. Esse percentual “é o Brasil”, mas quando o assunto é desenvolvimento, capacidade de consumo e empreendedorismo parece que eles são “os outros”. Outros que pouco conhecemos e erroneamente subestimamos.

Os pretos ou pardos constituem, também, a maior parte da força de trabalho no País. Em 2018, correspondiam a 57,7 milhões de pessoas (54,9%) versus a população branca na força de trabalho, que totalizava 46,1 milhões (45,1%). Entretanto, em relação à população desocupada e à população subutilizada, que inclui também os subocupados e a força de trabalho potencial, pretos ou pardos formavam 64,2% dos desocupados e dos subutilizados (66,1%) na força de trabalho naquele ano.

Fonte: IBGE

Nesse contexto, a saída encontrada por muitos é o empreendedorismo. Muito mais por necessidade do que por desejo ou vocação, as iniciativas próprias surgem como única opção para a maioria. Negócios focados em serviços domésticos e atividades de baixo valor agregado formam a grande massa. Aos poucos, porém, negócios idealizados por e para esse público começam a surgir e a tirar consumidores de grandes empresas, obrigadas, então, a rever estratégias.

Em 2014, dos 24,9 milhões de empreendedores brasileiros, 51% se declararam negros. Entre 2001 e 2014, a participação relativa dos empreendedores negros cresceu 8%. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), na última década, houve expansão expressiva do número de pessoas que se autodeclaravam negras, superando a branca em termos absolutos, a partir de 2012.

O que se tem certeza é que a desigualdade ainda está longe de acabar e a economia é, ao mesmo tempo, reflexo e ferramenta na luta contra essa condição.

Empreendedorismo não pode ser panaceia

Nos últimos anos o verbo “empreender” ganhou, no Brasil, uma certa “aura” de “solução para todos os problemas”. Historicamente para os negros brasileiros, empreender restou como única opção de sobrevivência por não se conseguirem se colocar no mercado de trabalho formal.

Dados da pesquisa “Empreendedorismo Negro no Brasil 2019”, realizada pela PretaHub – aceleradora do empreendedorismo negro no Brasil – em parceria com a Plano CDE e a J.P. Morgan, revelam que existem mais de 14 milhões de empreendedores brasileiros que se declaram afrodescendentes. Dentro deste universo, 35% empreendem por vocação, 34% por necessidade, 22% por engajamento e 9% apresentam perfil misto.

Entre os que empreendem “por necessidade”, 46% empreenderam por falta de emprego. A decisão de iniciar o negócio passa pelo incentivo e parceria de familiares e amigos. A principal barreira é a falta de autopercepção como empreendedor.

Já entre aqueles que empreendem “por vocação”, 51% sempre quiseram empreender, 95% quer evoluir o seu negócio e ampliar a empresa em um ano e 85% viu sua vida evoluir.

Para a analista do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae Minas), Amanda Cezário, embora, a priori, nada impede que empreendedores por necessidade se tornem um grande sucesso, essa característica já demarca um começo em desvantagem para os empreendedores negros em relação aos brancos.

“A gente já vê uma diferença muito grande no que é oferecido pelos empreendedores negros. Eles se formalizam para aumentar os ganhos, ter acesso aos benefícios da Previdência Social, mas não com um pensamento empreendedor. É a formalização do que antes era chamado de ‘bico’, explica Amanda Cezário.

“O perfil por necessidade ainda é maioria porque é uma construção histórica desde o fim da escravidão. Hoje está na pauta falar dos negros e, sobretudo, devemos falar sobre as mulheres negras. São mulheres que têm um certo grau de escolaridade e que empreendem mesmo com formação acadêmica porque não conseguem se inserir no mercado de trabalho. Modificar a condição da mulher negra é modificar toda a sociedade porque elas estão na base da pirâmide”, pontua a presidente da PretaHub, Adriana Barbosa.

Crédito – O acesso ao crédito é uma das principais barreiras para negros e pardos. 32% dos empreendedores ouvidos já tiveram empréstimo negado sem qualquer explicação. Muitos contam só com a própria poupança ou de familiares para investir.

“Uma forma de melhorar isso é a criação de linhas de crédito específicas e que sejam menos burocráticas. Temos que lembrar que a própria relação dessas pessoas com os bancos é recente. Existe um caminho institucional a ser trilhado que ainda intimida”, pontua a analista do Sebrae.

O assessor de Desenvolvimento e Inovação do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Antônio Santos, pontua a necessidade de políticas públicas eficientes que mirem na equidade de oportunidades e o esforço do BDMG para trilhar esse caminho.

“O BDMG está começando esse diálogo. Não tem como falar em sustentação da economia sem falar de diversidade, por exemplo, para conquistar crédito mais barato. A sociedade precisa de ações concretas. Ninguém previa a pandemia e ela trouxe lições para sociedade. Precisamos fazer alguma coisa por quem está na periferia. Os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) estão dentro da nossa estratégia. O BDMG Digital, com acesso totalmente automatizado, permitiu que a gente pudesse atuar em todo o Estado. O mundo já mudou. Ações do mercado certamente farão a diferença, por exemplo, para obter capital. Em países em desenvolvimento o desafio é maior porque o cenário é mais incerto. É uma agenda que tem que ir além da moda, tem que ser permanente. Não dá mais para sermos o país do futuro”, analisa Santos.

Diversidade e inclusão é obrigação

O empreendedorismo negro é uma das portas para o desenvolvimento econômico dessa parcela da população, mas não pode ser a única. Crescer no mercado formal de trabalho, galgar posições na carreira e ser reconhecido pelo seu mérito profissional deve ser um caminho natural para qualquer trabalhador que a deseje.

Foi essa a trajetória que o diretor de Recursos Humanos (RH) da Anglo American, Carlos Alberto Hilário de Andrade, fez, oriundo de um bairro pobre em Vitória (ES) até se tornar um executivo internacional do setor de mineração. O estudo foi a chave-mestra para que hoje ele possa se colocar em posição de discutir inclusão dentro e fora da empresa.

“Tenho falado sobre diversidade e inclusão. Encontramos muito poucos negros em posições de liderança. Temos que colocar esse assunto na pauta. É uma desconstrução de crença cristalizada. A experiência de discriminação não é um conceito. A inclusão é, sim, algo que se pensa. Para entender isso é preciso ter empatia compassiva. Mais do que perguntar sobre, é conviver com a pessoa para que ela comece a expressar em profundidade essa experiência. Entrei no programa de trainee da primeira empresa que trabalhei porque mandei 12 cartas para o gerente porque eu não atendia os pré-requisitos. A diversidade existe e a exclusão é uma escolha. Incluir é mais que convidar para a festa, é tirar a pessoa para dançar”, afirma Andrade.

Potencial – Para a diretora da ThoughtWorks e ativista, Grazi Mendes, o quadro se radicaliza quando o estrato analisado é o das mulheres pretas. Mesmo compondo 28% da população total, elas ocupam apenas 0,4% dos cargos de liderança.

“Estamos falando sobre um potencial criativo desperdiçado e uma urgência humana que impede as mulheres de acessar e subir no mercado de trabalho. Tem alguns mitos importantes para serem quebrados: um deles é de que as pessoas não estão qualificadas. Pretos e pardos já são a maioria nas universidades. O problema é que as oportunidades ainda acontecem dentro das mesmas bolhas. As pessoas negras não estão nos grupos de indicação. As recomendações passam pelo conhecimento interno dos grupos. Daí a importância dos movimentos intencionais”, destaca Grazi Mendes.

Pesquisas mostram que ambientes mais diversos são alavancas de performance e que isso está conectado com inovação. Inovação e heterogeneidade caminham juntas. “Esse assunto não pode ocupar a agenda só quando sobrar tempo. Isso é responsabilidade das organizações e suas lideranças. Precisamos ir além das hashtags”, completa Grazi Mendes.