As startups perceberam que era preciso se movimentar, disse Muritiba | Crédito: Divulgação

Em meados de março, quando o Covid-19 levou para os hospitais os primeiros pacientes infectados no Brasil e as medidas de isolamento social começaram a ser adotadas, o pânico se instaurou em diversos setores, e a única certeza que surgiu era de que, se havia uma salvação, ela estava na tecnologia.

Diante disso, a digitalização se tornou a panaceia para todos os males e, de uma hora para outra, projetos postergados ganharam prioridade e empresas dos mais variados perfis se viram no limiar da inovação.

O cenário, embora perturbador por este aspecto, não era difícil de entender. A transformação digital acelerada marca essa fase aguda da crise e determina quem chegará ao “novo normal” que se anuncia com maior capacidade competitiva. As novas necessidades e novos hábitos dos consumidores já formatam tendências e modelos de negócios.

Ao traçar essa realidade, um setor – marcado no berço pela inovação e pelo uso da tecnologia – deveria ter nessa crise a sua grande chance. As startups, porém, não passaram imunes pela pandemia causada pelo novo coronavírus. Boa parte reduziu investimentos, demitiu colaboradores e viu investidores desaparecerem.

A pesquisa “Startups e os desafios da pandemia: adaptações e reinvenções no ecossistema”, realizada pela Fundação Dom Cabral (FDC) e o Orbi Conecta, com o apoio da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), que cobriu mais de 30 segmentos de negócios (tecnologia, serviços, fintechs e edtechs, entre outras), mostrou que 53,2% sofreram impactos negativos, enquanto outros 30,9% foram positivamente afetados. O grupo não afetado engloba apenas 4,2% dos participantes da pesquisa. Uma parcela de cerca de 11,7% não consegue identificar, ainda, os impactos nos negócios.

Se reinvenção é palavra de ordem para a economia tradicional, também é para as startups e todo sistema de inovação. A receita, que passa por um fino entendimento dos novos hábitos do consumidor, proteção do caixa e controle e gastos, prospecção de novas parcerias e mercados, e lançamento novos modelos de negócios, parece óbvia, mas nem por isso é fácil.

A boa notícia trazida pelo estudo é a de que, de maneira geral, os resultados apontam para uma postura ativa das startups na reestruturação e reinvenção de seus negócios: quase 60% dos respondentes da pesquisa concordaram com este ponto, em grau 4 ou 5, os mais elevados do ranking.

Hoje, o jornal DIÁRIO DO COMÉRCIO busca entender o “novo normal” do setor onde o “novo” já é hoje.

Crise oferece oportunidade de integração

A surpresa para as startups foi a demanda de clientes, avaliou Arruda | Crédito: Divulgação

A pesquisa “Startups e os desafios da pandemia: adaptações e reinvenções no ecossistema”, realizada pela Fundação Dom Cabral (FDC) e o Orbi Conecta, com o apoio da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), destacou a reação das startups ao cenário específico da pandemia. Parte significativa das empresas entendeu que a doença exige, de um lado, responsabilidade e engajamento e, de outro, oferece uma oportunidade de desenvolvimento e integração.

Com relação à adoção do desenvolvimento ou da adaptação de produtos para contribuir com o combate ao Covid-19, 33% apontaram intensidade máxima na adoção desta estratégia. Já 29,5% dos envolvidos apontou a adoção da busca por novas parcerias com grandes empresas como estratégia utilizada com intensidade máxima.

De acordo com o diretor-executivo da Abstartups, José Muritiba, impactadas logo de cara, assim como as empresas mais tradicionais, as startups perceberam rapidamente que era preciso se movimentar, entrando em contato ativo com os clientes, entendendo suas necessidades e pensando em novas formas de entrega dos seus produtos ou serviços.

“As grandes empresas, por serem mais robustas e lentas, têm mais dificuldades em promover a inovação e, a exemplo de muitas que já tinham trilhado esse caminho, perceberam que as startups poderiam dar a velocidade aos processos que elas precisam agora durante a crise. Já registramos um aumento de mais de 10 vezes no número de programas para startups dentro de grandes empresas. Hoje, dizemos que quem acelerou a inovação não foi o diretor de novos projetos ou inovação, mas o Covid-19”, afirma Muritiba.

Avaliação parecida faz o diretor do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da FDC e responsável pela pesquisa, Carlos Arruda. Para ele, a demanda por novos projetos é a grande surpresa do estudo e deve ser aproveitada pelos empreendedores. É hora de mais do que vender produtos e serviços, é a oportunidade de vender expertise.

“A surpresa foi a demanda de clientes em busca de produtos e soluções ajustados para as suas necessidades urgentes. Muitas startups desafiadas a desenvolver soluções de diagnóstico, atendimento ao cliente, e-commerce, varejo e logística. Esses foram os segmentos mais requisitados pela própria natureza da crise desencadeada por uma questão sanitária e que limitou o deslocamento das pessoas”, explica Arruda.

Para ilustrar a busca quase desenfreada por soluções digitais, um bom indicador pode ser a valorização dos profissionais que desenvolvem sistemas. De acordo com um relatório feito pelo GetNinjas – maior aplicativo de contratação de serviços da América Latina – a procura por desenvolvedores de aplicativos cresceu 92% entre os dias 29 de março e 4 de abril.

Os principais impactos da pandemia sobre as startups cujas atividades foram negativamente afetadas são: perda de receita; prejuízo à dedicação das equipes e uso de espaços. Para aquelas cujas atividades foram positivamente afetadas, os impactos são: demanda de novos clientes; demanda por novos produtos e crescimento da receita.

Também há impactos comuns aos dois grupos, que são: pressão para resolver problemas de curto prazo, mudança nas prioridades estratégicas das empresas e alteração das expectativas de faturamento para os próximos anos.

Com relação à adoção do desenvolvimento ou da adaptação de produtos para contribuir com o combate ao Covid-19, 33% apontaram intensidade máxima na adoção desta estratégia. Perfil parecido foi observado na adoção da busca por novas parcerias com grandes empresas: de um lado, 29,5% dos envolvidos responderam ser essa uma estratégia adotada em intensidade máxima, enquanto, do outro, 26,1% atribuíram a ela intensidade mínima.

Quem vai e quem fica – “Os números ainda mostram um saldo negativo. Empresas que estavam ‘na hora certa e no lugar certo’, como as fintechs, edtechs, soluções diagnósticas, meios de pagamento, entre outras, vão se sair bem, mas vamos assistir, infelizmente, um aumento na taxa de mortalidade de startups porque elas não têm fôlego financeiro para suportar uma crise tão intensa e longa. Na outra ponta, temos, em compensação, oportunidades e mercados se revelando, como o entretenimento on-line e plataformas de vídeo, que crescem com as lives e outros serviços como os cursos a distância”, aponta o professor da FDC.

Com relação às expectativas quanto ao futuro dos negócios pós-pandemia, os fatores mais mencionados por ordem de relevância foram: (1) vamos aproveitar a crise para promover mudanças significativas na empresa; (2) vemos a situação como temporária, e as atividades serão restabelecidas ao mesmo patamar que antes da crise até o final de 2021; (3) vemos a situação como temporária, e as atividades serão restabelecidas ao mesmo patamar que antes da crise até o final de 2020; (4) as atividades sofrerão bastante com a crise, serão reduzidas e não se restabelecerão antes do final de 2021.

Segundo o Startupbase, o ecossistema brasileiro conta com 13.087 startups mapeadas. Nos últimos anos, houve crescimento significativo desse número de, em média, 26,5% ao ano. Em 2019, a economia global de startups foi avaliada em US$ 2,8 trilhões e cresceu mais de 10% ao ano, cerca de três a quatro vezes mais rápido que o resto da economia.

“Acredito na expansão do mercado em um futuro próximo. Antes da pandemia vivíamos o melhor cenário no País. 2019 foi o ano que mais criamos unicórnios. Ficamos empatados com a Alemanha, atrás apenas de Estados Unidos e China. Começamos 2020 de maneira muito importante, com um novo unicórnio em janeiro. Isso tudo alimenta a base, atrai investimentos internacionais. Agora o alicerce ainda é sólido. Os players de fomento, academia e governo, se interessam em desenvolver o ecossistema. É nesse cenário que ficaremos mais maduros, entendendo como é importante a gestão financeira e a mudança de alguns comportamentos”, destaca o diretor-executivo da Abstartups.

Para Filizzola, esse é o momento em que é preciso acelerar a inovação | Crédito: Divulgação

Para o CMO da Samba Tech, Pedro Filizzola, parte do segredo está na adequação dos modelos de entrega para fazer com que o cliente aproveite da melhor forma a experiência. Outro grande aprendizado dessa fase aguda da crise é que “o caixa é rei”, impondo às empresas de base tecnológica mais rigor na gestão.

“Esse é o momento em que todos precisam acelerar a inovação e as startups saem na frente porque têm isso na sua cultura. Os negócios querem ter seus problemas resolvidos com agilidade e preço competitivo. As startups já nascem digitais e as empresas tradicionais estão vendo isso. De outro lado também é importante olhar para a sua base de clientes. Os novos negócios podem estar bem próximos, com antigos parceiros”, analisa Filizzola.