Nas grandes cidades brasileiras a população vive o drama do transporte público lotado | Crédito: Divulgação

Até agora, a medida mais eficaz de combate e controle da pandemia é o isolamento social. Ficar em casa – enquanto não surge uma vacina ou um remédio contra a infecção – é a recomendação das autoridades mundiais em saúde.

Para dar contornos ainda mais graves ao cenário, a expectativa é de que a crise sanitária se prolongue por, pelo menos, os dois próximos anos, gerando outros períodos de maior isolamento e, consequentemente, colapso das economias.

Entre o ideal e o possível, porém, se impõe a realidade e parte significativa da população simplesmente não pode ficar em casa seja pela natureza do trabalho que realiza, pelas condições sociais às quais é submetida ou por questões cotidianas específicas, como a necessidade de levar alguém ao médico ou fazer compras de supermercado.

Nas grandes cidades a população vive o dilema entre o transporte público lotado e a incapacidade financeira de optar por outro meio de transporte. Escolher o transporte individual por aplicativo ou táxi também não parece a ideal diante dos preços cobrados e da falta de garantia quanto aos procedimentos de higiene. Os longos e inseguros trajetos são, na maioria das vezes, impeditivos para quem pretende percorrê-los a pé ou por meios não motorizados.

Revés – O estudo “Covid-19 and the automotive consumer – How can automotive organizations re-engage consumers and reignite demand?” (em tradução livre, “Covid-19 e o consumidor automotivo – como as organizações automotivas podem engajar os clientes e reacender a demanda?”), do Capgemini Research Institute, realizado na Europa e na Ásia – territórios que viveram a pandemia antes do continente Americano -, mostra que a sociedade do uso que vinha, aos poucos, substituindo a sociedade do ter, pode sofrer um revés.

Se a posse estava sendo substituída pelo uso compartilhado – prática que tem, justamente, nos aplicativos de mobilidade o seu maior símbolo, o desejo agora é ter um carro para “chamar de seu” e ter a certeza que ele recebeu as várias doses de álcool em gel necessárias por dia.

Em boa medida, acredita a consultoria, que os números apurados podem servir para apontar as tendências também do mercado brasileiro: uso de automóveis em detrimento do transporte público por questões sanitárias é um fator em comum. Também o são, pela mesma razão, a posse de veículos em vez do seu uso como serviço e a busca por canais digitais para interação com rede de concessionários.

Os dados levantados pelo estudo mostram: 44% dos 11 mil entrevistados afirmaram que preferem, agora, o automóvel ao transporte público. 40% disseram que reduzirão o uso de serviços de carona e de compartilhamento de veículos. 46% dos consumidores desejam minimizar a presença em concessionárias.

Segundo o gerente de desenvolvimento de negócios da Jatos do Brasil, Milad Kalume Neto, o grande problema da indústria automotiva no momento é a falta de compradores na ponta, impactados pelos efeitos econômicos da crise, incluindo o desemprego. No pós-pandemia o desafio será atender às novas necessidades dos consumidores e que terão menos dinheiro para gastar.

“Ninguém quer uma dívida de longo prazo em um cenário de tantas incertezas e o brasileiro médio compra carro financiado. Sob esse ponto de vista, a crise vai demorar a passar. Não acredito em crescimento sustentado da indústria antes de 2022. A indústria poderia ser reaquecida pelo medo do contágio, mas o Brasil tem renda média baixa. Com as taxas de juros mais altas pelo risco, é mais provável que o mercado de carros usados se sobressaia”, avalia Kalume Neto.

Motos e bicicletas – Por este viés, do outro lado, a cadeia produtiva ligada à fabricação de motos e bicicletas tem na crise uma oportunidade de renascer. Dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo) revelam que, ainda afetada pela pandemia do Covid-19, a produção de bicicletas no Polo Industrial de Manaus (PIM) totalizou 21.587 unidades em maio.

Este volume representa uma alta de 114,3% em relação a abril do presente ano (10.071 unidades), porém naquele mês mais fábricas estavam paralisadas. Já na comparação com maio do ano passado (73.299 unidades), houve uma queda de 70,5%.

No acumulado dos cinco primeiros meses de 2020, a produção totalizou 202.581 bicicletas, correspondendo a uma retração de 39,1% na comparação com o mesmo período do ano passado (332.721 unidades).

De acordo com o presidente da Abraciclo, Marcos Fermanian, a cadeia produtiva está sofrendo com o clima de insegurança gerado pela crise e vivendo “um dia de cada vez”. Ter grande parte da indústria instalada em Manaus (AM), uma das cidades que mais sofreu com a primeira onda de contágio no Brasil, caiu como uma bomba sobre o setor.

“Concretamente as fábricas estavam paradas desde fevereiro porque não recebiam material da China e agora voltaram apenas com 50% da carga por uma questão de segurança sanitária. Vemos a retomada das atividades econômica como uma grande oportunidade porque a pandemia mostrou a relevância social das motos como uma alternativa ao desemprego. A demanda por crédito para compra de motos no Brasil não caiu durante esse período”, destaca Fermanian.

Os consórcios, aliás, uma invenção brasileira, devem sair fortalecidos no “novo normal” dos transportes no Brasil, na avaliação da Head de Negócios do UP Consórcios (fintech do grupo Embracon), Lorelay Lopes. “O consórcio, apesar de antigo, é muito moderno. Não há nada mais fora de moda que pagar juros e taxas. É um sistema que o brasileiro confia”, analisa Lorelay Lopes.

“O cenário atual é muito negativo com a perda de renda da população. 70% da venda é através de crédito e consórcio. O consumidor só vai comprar se achar que vai conseguir honrar o compromisso. O papel do governo é contribuir para controlar a epidemia. Já vínhamos em processo de recuperação e a cadeia produtiva vem se esforçando. A contribuição de linhas de crédito para salvaguardar pequenos e médios negócios e o auxílio a população mais carente. Isso já vai ajudar muito o setor indiretamente”, completa o presidente da Abraciclo.

Apps de transporte precisam garantir segurança

Entre as medidas de segurança adotadas, o aplicativo Cabify instalou uma película protetora dentro do veículo | Crédito: Divulgação

Símbolo da “revolução” na mobilidade urbana na última década, os aplicativos de transporte individual, embora tão jovens, deverão passar pela sua primeira grande crise e grande transformação.

A ideia de andar em veículos sanitariamente inseguros e a popularização do home office, especialmente no Brasil, já afastaram parte dos consumidores e a possibilidade de que isso continue por muito tempo é grande.

Para o Country Manager da Cabify Brasil, Luís Saicali, garantir a segurança de motoristas e passageiros é a missão mais urgente das empresas, mas isso não basta. É preciso também comunicar de maneira eficiente todo esse esforço.

Dados de uma pesquisa interna realizada pelo aplicativo mostram que 38% dos passageiros evitam sair por medo de contágio, 76% deles disseram que vão evitar o transporte público e 38% afirmaram que vão utilizar, de preferência, o carro particular.

A plataforma adotou medidas de segurança com kits de máscaras e álcool em gel, além do projeto EPI – que instala uma película protetora dentro do veículo e que permite higienização a cada viagem, com durabilidade de seis meses. Além disso, ela desenvolveu um serviço de corridas compartilhadas – seguindo todas as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) – para funcionários de uma mesma empresa.

“Estamos vivendo em um cenário jamais previsto. No ano passado, a Cabify deu uma guinada para a sustentabilidade do negócio e entramos em 2020 muito bem. Isso nos permitiu ter menos desespero e olhar de forma mais estratégica para tudo que está acontecendo. Ter a sede em Madri (Espanha) também permitiu que a unidade brasileira tivesse um exemplo no qual se mirar na Europa. O motivo das viagens mudou muito, estamos todos com medo. Então nosso foco precisa ser a segurança das pessoas”, afirma Saicali.

A quase extinção das corridas voltadas para o lazer fez com que os resultados dos finais de semana sofressem o maior impacto. A expectativa é de que no cenário pós-pandemia os trajetos médios se tornem mais curtos do que os praticados até março passado. A opção por meios de transportes alternativos, como bicicletas e patinetes elétricos, pode fazer efeito em algumas cidades.

“Dois quesitos principais são levados em conta na escolha do transporte por aplicativo: segurança e preço. Nas crises o preço ganha peso nessa escolha, mas dessa vez a segurança é a protagonista. Temos nos empenhado muito em divulgar esse tipo de conteúdo para nossa base e temos tido uma ótima recepção. Nosso principal fiscal para saber se as determinações estão sendo cumpridas é o próprio usuário, que nos dá feedback pelo próprio aplicativo. Como uma plataforma digital conseguirmos coletar esses dados e aplicar inteligência sobre eles”, explica o Country Manager da Cabify Brasil.