Crédito: Pixabay

A necessidade de uma retomada econômica no pós-pandemia mais verde tem movimentado empresas de todos os portes e setores. Em busca do seu quinhão dentro de trilhões de dólares despejados no mercado global para a reconstrução da economia do planeta, um dos instrumentos mais assertivos será um comportamento efetivamente sustentável.

Apenas a União Europeia deve destinar dentro do seu pacote de retomada da economia US$ 250 bilhões exclusivamente para iniciativas sustentáveis. A esse volume se somam pacotes de cada país europeu individualmente e outros como Estados Unidos, Índia e China, destacando-se os mais importantes.

Para o coordenador de Projetos da Ramboll – empresa dinamarquesa de consultoria ambiental -, Marcos Gomes, a retomada deverá ser verde, porém não tão verde ou igualmente verde em todos os lugares. O Brasil deve enfrentar obstáculos próprios nessa mudança no modo de produzir e consumir.

“Nosso país é tão rico em recursos naturais que não estamos acostumados com a escassez. Temos muita dificuldade em entender o que é uma escassez de recursos em escala global. As mudanças climáticas já estão diminuindo a disponibilidade de recursos e não podemos mais contar com serviços ecossistêmicos. O planeta está perdendo a capacidade de autorregeneração e temos que atuar sobre essa nova condição. A pandemia nos trouxe um alerta sobre os efeitos da própria globalização. É um choque de realidade que aponta que precisamos nos abrir aos conhecimentos científicos disponíveis para ampliar e manter no longo prazo o nosso desempenho”, analisa Gomes.

No “novo normal”, a economia circular – uma das estratégias mais adotadas por empresas para reduzir os impactos ambientais – tende a ganhar destaque. Esse modelo reaproveita o que até então era descartado ou desperdiçado pelas indústrias, reutilizando os elementos da cadeia produtiva para outros fins. Segundo dados de estudo recente da consultoria Accenture, a transição para uma economia circular tem potencial para gerar até US$ 4,5 trilhões para a economia mundial nos próximos 10 anos.

Segundo o CEO da Allonda – empresa de engenharia com foco em soluções sustentáveis -, Leo Cesar Melo, nos últimos 10 anos a sustentabilidade deixou de ser pauta apenas nos departamentos dedicados e do marketing, para ganhar peso estratégico dentro das empresas. Consumidores e investidores mais atentos já vinham forçando essa mudança.

“A sustentabilidade pode minimizar custos. As oportunidades em um cenário de crise como o que estamos vivendo surgem quando o mercado busca soluções para diminuir custos e gerar valor compartilhado”, afirma Melo.

Tornar a sustentabilidade um pilar de desenvolvimento do negócio, porém, exige um grande esforço e, antes disso, uma forte determinação que precisa vir dos altos níveis de gestão das empresas. A implementação de projetos e ações demandam uma análise do grau de engajamento das lideranças.

“Atendemos demandas muitos simples, como o desenvolvimento de um aplicativo para treinamento de comportamento em situação de isolamento e segurança, até projetos complexos e robustos. É importante destacar que há sempre o que pode ser feito e ir além do que é exigido pela legislação. Também que quando a empresa consegue fazer caminhar em paralelo questões ambientais, sociais e de governança os resultados são melhores e que tudo isso depende, primordialmente, de um bom diagnóstico”, explica o coordenador de Projetos da Ramboll.

Potencial – Acostumada a trabalhar, inclusive, com alguns dos setores que causam grandes impactos ambientais como a mineração, por exemplo – a empresa atuou na remediação ambiental nos dois maiores acidentes ambientais brasileiros, causados pelo rompimento de barragens de mineração da Vale em Mariana (2015) e Brumadinho (2019) -, o executivo vê em Minas Gerais um grande potencial para o desenvolvimento de cadeias produtivas responsáveis e capazes de atraírem investimentos internacionais.

“Nosso papel é criar valor compartilhado para o cliente, fazendo do passivo dele um ativo para nós. Temos cada vez mais demanda em setores primários como óleo e gás e mineração, por exemplo. Percebemos que existe um grande esforço por parte dos setores para entender como podem se reinventar. Vejo uma camada crescente de empresários entendendo que a sustentabilidade vai trazer bons negócios. O nosso maior desafio é vencer um modelo mental ultrapassado”, aponta o CEO da Allonda.

Brasil deve enfrentar obstáculos nessa mudança, diz Gomes | Crédito: Divulgação

Organizações exigirão lideranças com propósito e legado

A expectativa de que todo o sofrimento trazido pela pandemia causada pelo novo coronavírus ao longo de 2020 traga aprendizados no sentido da construção de uma sociedade mais solidária e responsável com o planeta e as pessoas, faz com que lideranças empresariais, políticas, acadêmicas e da sociedade civil organizada se mobilizem.

Mesmo que a fase mais aguda da crise no Brasil ainda não tenha passado, em busca de um “novo normal” menos turbulento, iniciativas sustentáveis têm ganhado espaço dentro das estratégias. Neste concerto, um ator sempre presente, porém discreto, vem atraindo mais luz: os governos locais.

No Brasil, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que ratificou a autonomia de estados e municípios para decidir e aplicar a sua própria política de enfrentamento ao Covid-19, sem se submeter às diretrizes do governo federal, pode ser vista com um marco nesse novo momento.

Para o secretário-executivo para a América do Sul do Iclei (Governos Locais pela Sustentabilidade, traduzido do inglês “Local Governments for Sustainability”), Rodrigo de Oliveira Perpétuo, os municípios têm papel fundamental no surgimento de uma mentalidade mais responsável de produção e consumo já que são neles que as pessoas vivem.

“Já existia um senso de urgência que estava posto, mas que não chegava com vigor na atitude, na ação. Agora não tem mais jeito, todos precisam assumir suas responsabilidades. Governos locais podem atuar no campo da produção e do consumo. A prefeitura vai fazer uma compra, por exemplo, ela pode colocar entre os seus critérios aspectos sustentáveis. A população, da mesma forma. Vamos entrar no período eleitoral agora. É hora de avaliar o que já foi feito e o que está sendo prometido. Precisamos de planos-diretores harmonizados com essa consciência, isso precisa chegar na legislação”, defende Perpétuo.

Toda essa transformação, porém, deve trilhar um caminho com muitos obstáculos. Como toda mudança, o surgimento de uma economia mais verde enfrenta resistências poderosas, algumas personificadas em lideranças importantes como os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos. Aliado a isso, a ideia de um mundo multilateral, bastante discutida no início da pandemia parece vir perdendo forças.

“Vemos o mundo – para nossa surpresa negativa retornando a valores que imaginávamos superados. Partidos de extrema direita ocupando casas legislativas em todo o mundo, os EUA saindo da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e da OMS (Organização Mundial da Saúde), por exemplo, vão minando a perspectiva do multilateralismo que é fundamental para que esse ‘novo normal’ possa emergir. Se o mundo caminhar assim, teremos muito menos chance de avançar como comunidade global. Nesse cenário, os governos locais se tornam ainda mais importantes”, explica o secretário-executivo para a América do Sul do Iclei.

O papel das empresas nesse contexto também assume protagonismo. Através delas pode ser mais fácil engajar as pessoas. Muitas organizações têm trabalhado com conceitos como “liderança com propósito” e legado, avaliando profundamente o impacto das suas atividades sobre o meio ambiente e a sociedade, indo além dos resultados financeiros simplesmente.

Projetos – Para apoiar a formação de lideranças responsáveis o Iclei tem projetos como o “Líderes do Futuro”. O objetivo é fomentar o protagonismo jovem na agenda de sustentabilidade por meio de atividades especialmente desenhadas para a juventude. A ideia é valorizar e fortalecer o papel das novas gerações na implementação dos marcos globais de sustentabilidade.

O executivo aponta, ainda, outras iniciativas com propósitos parecidos como a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), que é uma organização suprapartidária que busca contribuir para a melhoria da democracia e do processo político brasileiro, por meio da formação, conexão, apoio e desenvolvimento de lideranças políticas comprometidas com a sustentabilidade.

“Engajarmos as entidades do setor privado é muito importante. Se for individual vai ser muito demorado. Também as entidades privadas devem incentivar o protagonismo jovem. Se cada entidade se abrisse, teríamos um efeito cascata”, completa.