Negócios

Dorothea Werneck revela bastidores do poder em livro

O Diário do Comércio conversou com exclusividade com a autora e economista, com relevante histórico político
Dorothea Werneck revela bastidores do poder em livro
Dorothea Werneck: “Tive uma vida louca. Tudo o que planejei não aconteceu, e tudo o que aconteceu não foi planejado” | Foto: Geraldo Magela / Agência Senado

Nascida em Ponte Nova (Zona da Mata), em 1949, Dorothea Werneck – dona de um bom humor excepcional – abre os bastidores do poder que percorreu desde o fim dos anos de 1980 em uma nova biografia. A economista foi ministra do Trabalho (1989-1990) e ministra da Indústria e Comércio (1995-1996). Em janeiro de 2011, assumiu o cargo de secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, no governo de Antônio Anastasia.

A obra amplia a atualiza a primeira biografia lançada em 1990. Quase 40 anos depois, a obra de 384 páginas foi escrita em menos de cinco meses por sugestão do amigo Ricardo Sastre. “Aprendendo e Vivendo: Uma Biografia Contada por Histórias e Versos” será lançada hoje, no Museu Histórico Abílio Barreto, no bairro Cidade Jardim (região Centro-Sul).

O livro traz bastidores de sua atuação como ministra e presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (Apex Brasil). Dividida em 50 capítulos, a obra vai além do relato institucional para focar nos desafios humanos da vida pública — incluindo o impacto na família — e no processo real de tomada de decisões do Estado.

O Diário do Comércio conversou com exclusividade com a autora que também foi candidata a vice-governadora de Minas, em 1990, na chapa de Pimenta da Veiga (PSDB).

Por que publicar uma nova versão agora, em 2026? O que o momento político e econômico pede dessa memória?

É uma versão estendida. As pessoas pediam para continuar. Resisti bravamente. Até que recebi uma mensagem do Ricardo Sastre, que estava fazendo um livro dos 20 anos da Associação Brasileira das Empresas de Design (Abedesign). Eu me envolvi muito com o setor quando estava no Ministério da Indústria e Comércio. Nessa conversa com o Ricardo, ele falou que eu deveria escrever as minhas memórias. A conversa foi tão boa que falei que só faria o livro com ele e ele topou. Foi em dezembro de 2025. A decisão foi reeditar a primeira versão como a primeira parte do livro novo e fazer a segunda parte. Fiz em ordem cronológica. São 50 capítulos e no final tem o que chamamos de questões temáticas, como ser pessoa pública, mulheres, polarização, entre outros. A surpresa, inclusive pra mim, aconteceu em determinado momento em que eu precisava achar um documento e encontrei um caderno de poesias que eu fiz entre 1979 e 1981. E entre elas, uma poesia que era um pouco da síntese do que queríamos com o livro. O Ricardo ficou entusiasmado. Para cada capítulo ele encontrou uma poesia. Queríamos falar do lado profissional e também do humano. O título do livro é “aprendendo e vivendo”. Tive uma vida louca, tudo que planejei não aconteceu e tudo que aconteceu não foi planejado. Todos os convites que eu recebi, eu aceitei. A pergunta que sempre me fiz foi “por que não?”

Como era ser mulher em posição de comando em ministérios como o do Trabalho naquele período? O que mudou?

Nunca foi uma questão de gênero para mim. Em todos os lugares em que eu trabalhei tinha técnicos e técnicas profissionais e profissionais não têm gênero. Eu sempre trabalhei em áreas em que eu tinha formação acadêmica. Eu entrei nas coisas que eu tinha a base técnica para poder atuar e que eu queria colocar em prática e adquirir a experiência, aprendendo com os outros. Esse é um ponto. Mas é claro que muita gente que me olhava atravessado. Era assédio, mas eu morro de dó dessas pessoas. Elas não são evoluídas. Uma vez, um homem chegou com aqueles falsos elogios, “nossa, você está tão bonita hoje… que roupa incrível…” Aí eu não tive dúvida, olhei bem nos olhos dele e soltei: “a sua gravata é linda!”. Nunca mais falou nada. Outra vez, outro homem veio com uma conversa atravessada dentro de um elevador, onde estava só ele e eu. Não tinha para onde escapar. Saí de lá e fui direto até o meu chefe e o meu subchefe. Falei com os dois. E a frase do meu chefe foi “se você precisar de alguma coisa, venha direto até mim que eu resolvo”. Respondi: “olha, quem vai responder pra ele é você”. A gente não pode ter medo de tomar atitude. Se alguém te constrange ou assedia, não grite, abaixe seu tom de voz e pergunte “por que você está falando isso? Você acha isso mesmo? Será que a gente não pode buscar uma alternativa?” Isso esvazia a agressividade do outro, esvazia o confronto. Essas coisas aconteceram ao longo da minha vida, mas aconteceram também coisas muito bonitas. Eu fui concursada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no curso de Economia. E veio um professor francês e me fez um elogio que me marcou pra vida toda. Um dia ele parou, olhou pra mim e falou assim: “Dorothea, você é a síntese do Brasil”. Aquilo me bateu na alma. Pelo meu jeito, minha aparência física, morena, jeito alegre, falante, que gosta de música, de dança… Essa é a minha interpretação. Se precisar fazer uma coisa, o brasileiro vai lá e faz, não fica fazendo teoria demais em torno das coisas. É a nossa criatividade. Somos reconhecidos mundialmente porque inventamos coisas, o jeito que resolvemos as coisas é completamente fora da caixa. Tem cabeças boas, tem gente legal. Então para de olhar pro lado, olha pro lado cheio do copo. Não se amargure. Quando eu comecei a escrever o livro, eu puxava um fio de uma coisa que tinha acontecido, vinha um novelo, coisas que eu não lembrava. E principalmente vinham emoções que eu não me permitia botar pra fora na hora em que eu estava lá na função. Então, naquele momento, eu não podia chorar, apesar de que, em alguns momentos, e eu relato, eu fui ao banheiro, chorei, vomitei e voltei pra acabar a reunião que estava brava. Você não tem ideia de como é recuperar isso. Então eu me completei, eu sempre tive um lado racional forte e um lado emocional forte. Mas colocar os dois juntos está sendo o resultado de escrever o livro. Nem Freud dá conta!

Durante a escrita você teve medo de ferir alguma suscetibilidade?

Eu posso ter errado em algum momento, mas eu sempre tive a preocupação de não personalizar. Quem sou eu pra julgar? Se eu acho que posso incomodar, eu conto a história, não dou o nome, superficialmente falo o contexto, para não ser identificado, e eu espero ter feito certo. Se alguém se reconhecer, sem eu ter dito quem é e outra pessoa não reconhecer, eu atingi meu objetivo.

Muita coisa ou que você criou ou que ajudou a desenvolver, como a Apex, como o Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP) continuam aí. Claro que o Brasil mudou muito nesse tempo, mas qual caminho o Brasil precisa percorrer? Em outras palavras, qual conselho você daria para o próximo ministro da economia, independentemente de quem seja o candidato eleito?

Paciência. Por que isso? Processos de mudança de cultura – que é a cultura que está por trás das pessoas, das ações, das personalidades – são lentos. Eu aprendi isso em vários momentos da vida, um deles foi o movimento de qualidade no Brasil. Quando começamos a falar disso em 1992, teve gente que ligou pra mim e falou assim: “Ô, secretária, o que é qualidade e produtividade?” As pessoas não tinham ideia do que era. Em menos de um ano, nós tivemos ações espalhadas entre associações de classe, Confederação Nacional da Indústria… A coisa toda acontecendo, as lideranças setoriais, e o Brasil fez, em um ou dois anos, o que leva três a cinco num País “normal”. Porque nós não somos apegados ao passado. Todo mundo fala que brasileiro não se lembra do passado, não conhece a história e eu digo graças a Deus, porque nós estamos abertos para a mudança. Esse é um ponto um. O ponto dois, da paciência, é o seguinte: quando teremos gente assim na liderança política, administrativa, nas empresas, no meio ambiente? No dia que a gente for maioria. Agora, a maioria é cinquenta por cento mais um. Eu não tenho que sonhar que cem por cento das pessoas vão ser. Isso vai acontecer daqui a cinquenta anos. Mas se hoje cada pessoa dê a sua contribuição pro seu entorno, seja na empresa que trabalha, no condomínio, na família, com os amigos, com os colegas de qualquer atividade cultural, seja o que for, se a gente, hoje, ainda minoria colaborar, e ver as coisas mudando, nós vamos chegar lá. Agora, é um processo lento, gradual. Então, por trás disso, meu ponto três: amar. Amar a pessoa que está do meu lado. Como eu disse, o conflito dos antagonismos vai estar presente nessa campanha eleitoral. Tenha pena de quem ainda tem esse tipo de atitude. Converse, fale baixo. Porque o antagonismo, a polarização aconteceu dentro das famílias. Entre colegas de trabalho. É possível que continue acontecendo, mas não tome partido. Use a sua voz baixa, ponderada, chamando atenção para atitudes e para ideias que podem levar não ao convencimento de todos, de um lado e de outro, mas por esse ponto de tangência entre os círculos. Esse País é maravilhoso. O conceito está mudando. Tem um filme que mostra o Caramelo, que era um cão vira-lata, mas não no sentido pejorativo, que vive na rua, que come o lixo, nós não somos isso. Nós somos vira-lata que pensa diferente, que faz diferente. A gente gosta de solução. Por isso me deu orgulho, felicidade e satisfação um francês dizer que sou é a síntese do Brasil, porque eles estão até hoje relembrando e comemorando aquela matança que teve lá na Renascença. Nós, não! Nós estamos colocando comunicação via internet em grupos indígenas. Nós somos uma mistura que é um negócio de doido. Com todas as qualidades e defeitos. Quando eu estava no Ministério do Trabalho, eu liderei uma equipe para o Encontro Mundial da OIT (Organização Internacional do Trabalho). A nossa equipe tinha dois índios, tinha negro, tinha branco, tinha amarelo. Quando a gente passava, as pessoas paravam e perguntavam de que país vocês são. Quer dizer, chamou a atenção. Nós temos defeito também, mas são pequenas coisas que podemos corrigir sim. Agora, a índole, o jeito de ser, a crença no futuro, o amor ao País, à nossa cidade, isso é coisa nossa que temos que cultivar, até nós sermos a maioria.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas