Crédito: Adão de Souza/PBH

Erguida sob o tripé responsabilidade social, responsabilidade ambiental e economia, a sustentabilidade ganha, a partir da epidemia do Covid-19, um novo significado.

A indicação de que o novo coronavírus tenha passado de um ambiente selvagem para o urbano, apontando um grave desequilíbrio ecológico, é o início de uma discussão que aponta para a urgente necessidade de um controle dos níveis de consumo e produção e, obviamente, o uso consciente dos recursos naturais.

Ao mesmo tempo que empresários, governos, academia e sociedade civil buscam pactuar uma retomada econômica mais responsável, a exemplo do Green Deal (Acordo Verde) proposto pela União Europeia, assistimos estarrecidos e impotentes ações que remontam ao século 19, quando, a mando da rainha da Inglaterra, corsários interceptavam e saqueavam navios de outros países.

Ao fim da segunda década do século 21, aviões carregados de insumos para o combate ao novo coronavírus foram impedidos de decolar em alguns dos mais importantes aeroportos internacionais do mundo rumo aos seus destinos, geralmente em países mais pobres.

Se aprenderemos enquanto indivíduos, sociedade e consumidores de um lado, e de outro, como empresas e governos, a respeitar o planeta e traçar estratégias e processos capazes de atender a demanda e promover o desenvolvimento econômico e social, ainda é uma pergunta sem resposta.

Sem romantismo, mas com esperança, ativistas, lideranças empresariais, governos e academia buscam modelos responsáveis de produzir e de viver. Sustentabilidade é palavra da moda e essa, talvez, seja a sua grande oportunidade de ocupar seu lugar de destaque no dicionário corporativo, indo muito além dos manuais de marketing.

Lucro não será mais o único objetivo

Em um mundo em que as expectativas da sociedade com relação às empresas são crescentes, a incorporação dos aspectos sociais e ambientais às estratégias e práticas de governança corporativa (Environmental, Social and Governance – ESG) ganham cada vez mais importância e oferecem vantagens competitivas às organizações.

O papel das empresas na sociedade passa a ser uma questão crítica à sua criação de valor de longo prazo e atrai cada vez mais a atenção de investidores e demais stakeholders.

A pandemia tem mostrado como as organizações estão diretamente conectadas com a sociedade e como os riscos ESG podem se propagar muito rapidamente em todo o sistema econômico mundial.

A perspectiva de um ambiente empresarial mais colaborativo, consciente, com propósitos de geração de valor para todos os envolvidos – acionistas, funcionários, fornecedores, parceiros, clientes e a comunidade – tendem a permanecer resilientes em meio a esse ambiente de crise e a desfrutarem de uma vantagem competitiva no mercado.

De acordo com o estudo da KPMG “ESG em tempos de Covid-19”, o novo coronavírus veio como um catalisador para a implementação das estratégias ESG. Ações e tendências que já vinham se desenvolvendo com relação a estes aspectos, agora passam a ser vistos com maior senso de urgência e as empresas estão sendo forçadas a gerenciar de perto seu capital social e humano e revisitar as suas estratégias.

Suporte – Segundo a sócia de consultoria em ESG da KPMG, Eliete Martins, muitas empresas, em resposta à crise, têm não apenas tomado ações para reestruturação interna e sobrevivência neste cenário, mas também buscado dar suporte aos seus funcionários, clientes, demais stakeholders e toda a sociedade, tais como: cuidado com funcionários e terceiros; flexibilização de trabalho e trabalho remoto; doações para suporte aos mais carentes; oferta gratuita de serviços e produtos; assistência financeira; atendimento a demandas de consumidores; suporte para prestação de serviços de emergência e saúde; suspensão voluntária de atividades; ajuda às comunidades vulneráveis; modificação de linhas de produção; informação/advocacy e cuidado com a segurança do cliente.

“Temos tido uma demanda expressiva não só dos investidores, mas também dos demais stakeholders. As empresas começaram a, de fato, se preocupar com as práticas responsáveis e a governança como estratégia de negócio. Isso deve fazer parte da estratégia da empresa, nos conselhos e na alta gestão. O Covid-19 veio para intensificar essas questões. Tem empresas que se posicionaram se forma dúbia e isso teve uma repercussão negativa. E outras que se sensibilizaram e intensificaram suas ações sociais, colhem uma boa avaliação da sociedade. Tudo isso aponta para um futuro em que não vai dar mais para fazer negócios pensando apenas no lucro. O perfil do consumidor mudou muito. Ele se preocupa com essas questões. Isso também vale para outros públicos, como os funcionários, que querem trabalhar em empresas responsáveis e, especialmente, os investidores, que escolhem criteriosamente onde por seu dinheiro”, explica Eliete Martins.

A iniciativa Science Based Targets (SBTi), que reúne um grupo de 155 empresas, que somam US$ 2,4 trilhões em valor de mercado e representam mais de 5 milhões de funcionários ao redor do mundo, apoia os esforços para manter o aumento da temperatura global até 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, em linha com o alcance de emissões líquidas zero antes de 2050.

Essas companhias assinaram um comunicado pleiteando junto aos governos o alinhamento de seus esforços na recuperação econômica frente à crise instaurada pelo Covid-19 aos estudos mais atuais em relação às ciências climáticas. Fazem parte do grupo as brasileiras Movida, Grupo Malwee, AES Tietê, Lojas Renner, Baluarte, Natura e Nogueira, Elias, Laskowski & Matias Advogados.

As participantes do grupo já estabeleceram ou se comprometeram a estabelecer metas de redução de emissões baseadas na ciência. Ao assinar a declaração, eles reafirmam que suas próprias decisões e ações permanecem fundamentadas na ciência, enquanto pedem aos governos que priorizem uma transição mais rápida e justa de uma “economia cinza” para uma “economia verde”.

Mudança de mentalidade – A iniciativa ilustra uma mudança de mentalidade que vem sendo construída, aos poucos, desde o início da segunda metade do século passado. Nas últimas décadas, o conceito de sustentabilidade ganhou forma e militância mais sólida e, em contrapartida, resistência mais poderosa e bem postada.

A batalha de mentalidades no pós-pandemia se anuncia épica. A crise atinge diretamente a saúde da população e a disponibilidade dos serviços, e já faz vítimas também com o aumento da pobreza e da desigualdade social, na cadeia alimentar, e na escassez de recursos investidos em aspectos socioambientais.

O Pacto Global publicou recentemente um estudo como a pandemia impacta a Agenda 2030 e o atendimento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Para o diretor-executivo da rede Brasil para o Pacto Global, Carlo Pereira, mais do que verde, a retomada no Brasil precisa ser “inclusiva e ética”.

“Tenho um otimismo pautado em dados. Quando falo da Europa, por exemplo, é que até por proteção do mercado interno, eles vão exigir de outros mercados a mesma postura responsável. Tem um pragmatismo econômico nisso. Ela não vai permitir que outros mercados tenham uma vantagem competitiva por não seguirem as regras. O Brasil tem uma grande oportunidade para fazer uma retomada que pode nos levar a um outro patamar, ajudando a superar dificuldades estruturais como a desigualdade”, afirma Pereira.

Um ponto determinante a favor da caminhada mundial rumo a padrões de sustentabilidade é a entrada, definitiva, dos fundos de investimentos como players que decidem onde investir também pautados pelas ações responsáveis de empresas e governos. Os famosos posicionamentos do CEO da BlackRock – maior fundo de investimentos do mundo -, Larry Fink, sobre o tema nos últimos anos são apontados com o maior símbolo dessa mudança de mentalidade e, consequentemente, no rumo das ações.

“Aqui não estamos falando de militantes. Estamos falando de investidores globais que têm no lucro o seu objetivo. Quando o maior deles diz que vai usar a sustentabilidade como critério de escolha de onde aplicar seus US$ 7 trilhões disponíveis, isso significa que alguma coisa muito séria mudou e que as empresas de todo o mundo terão que mudar também. O Covid-19 está apenas acelerando esse processo”, pontua o diretor-executivo da Rede Brasil para o Pacto Global.