O aparelho respirador está em fase de teste e depende do aval da Anvisa |

A Tacom, empresa de soluções tecnológicas voltada para o setor de transportes sediada em Belo Horizonte, resolveu usar sua expertise industrial para se engajar no combate à pandemia causada pelo novo coronavírus.

Para isso, desenvolveu o projeto social “Inspirar”, voltado para a construção de equipamentos respiradores em larga escala. O aparelho está em fase de testes e será submetido à aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sendo permitida a sua comercialização em larga escala a baixo custo.

Com o apoio de outras empresas, entre elas a rede de hospitais Mater Dei, o projeto foi implementado em tempo recorde. De acordo com o diretor de Marketing e Mercado da Tacom, Marco Antônio Tonussi, o resultado do projeto precisava ser prático e fácil de usar, com uma interface simples e que fosse escalável, possibilitando produção em alto volume. Segundo ele, no início estavam previstos 2 mil respiradores. Agora, a empresa pretende fabricar 10 mil equipamentos em 90 dias.

“Foi um projeto muito diferente do normal. Eu estava inquieto em casa querendo participar efetivamente do combate à doença e pensando como poderíamos aproveitar a tecnologia que desenvolvemos na empresa para isso. A questão da falta de respiradores é grave e fui estudar ventilação mecânica para entender o que poderíamos fazer. Fiz a proposta para os outros dois sócios de montarmos um projeto social – não é um projeto comercial – e saímos atrás de informação. Por um momento, pensamos em usar algum equipamento que já tínhamos para que ele comandasse um sistema de válvula para atender de forma emergencial, mas percebemos que precisávamos de mais que isso. Vimos que não era tão simples, teríamos restrições quanto a escala. Nossa premissa era que o equipamento chegasse a tempo e em quantidade para quem precisa”, relembra Tonussi.

O esforço deu origem a um equipamento de base tecnológica avançada que terá os componentes fabricados por diferentes parceiros em diversas cidades do Estado. A montagem final será realizada em Itajubá, no Sul de Minas, em uma fábrica que está sendo erguida especialmente para isso. A expectativa é antecipar a produção do primeiro lote de 400 respiradores, enquanto são liberadas as últimas autorizações da Anvisa.

Os primeiros 1.300 equipamentos já foram encomendados pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), que fará a distribuição para hospitais e prefeituras selecionadas. O governo do Estado também já sinalizou a compra de outros 1.500 respiradores.

“É um produto totalmente digital, com uma tecnologia embutida muito avançada. No futuro poderá receber outras funcionalidades, inclusive, inéditas. Estamos na fase de escalar industrialmente e receber a autorização da Anvisa. Estamos fazendo os testes no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Em paralelo a isso, estamos terminando uma fábrica no Sul de Minas, em Itajubá, onde temos um parceiro que monta equipamentos eletrônicos que vai nos ajudar. Estabelecemos uma política de custos bancados pelas empresas parceiras para que o primeiro lote da Fiemg chegue sem ônus para os hospitais e a preço de custo para o Estado. Nossa política também prevê que antes de atender qualquer pedido de empresas revendedoras, vamos atender primeiramente hospitais e órgãos públicos com preços subsidiados”, afirma o diretor de Marketing e Mercado da Tacom.

A rede Mater Dei cedeu profissionais para o desenvolvimento e estrutura para os testes do novo respirador. Foram utilizados vários equipamentos da rede como ventiladores, circuitos de ventiladores e equipamento de calibração e realizados testes no laboratório, com o apoio de técnicos e engenheiros clínicos que ajudaram no desenvolvimento do equipamento.

Segundo o presidente da rede Mater Dei, Henrique Salvador, a rede é vista por muitos empresários industriais como uma referência no campo da saúde e, por isso, foi procurada por eles para que participasse de uma série de projetos de controle do novo coronavírus. Integrar o projeto Inspirar, entre outros dos quais o hospital participa, é uma resposta à confiança depositada pela sociedade mineira.

“Tomamos uma decisão estratégica, em virtude de sermos essa referência, deveríamos ir além da nossa ação como uma rede de hospitais. Fornecemos uma área para o governo do Estado que vai permitir a criação de 180 leitos em Betim (Região Metropolitana de Belo Horizonte – RMBH), com parque de exames e estrutura de apartamentos com gases encanados para permitir a instalação desses respiradores. Também apoiamos tecnicamente a aquisição de equipamentos de proteção individual (EPIs) para Rede Fhemig (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais), Hospital das Clínicas e Santa Casa, entre outros projetos e programas”, enumera Salvador.

A participação no projeto também fomenta a inovação dentro da própria rede. O Mater Dei é a vertical do hub de inovação Orbi Conecta, sediado em Belo Horizonte, através da célula de inovação Inovater.

“Disponibilizamos médicos, engenheiros clínicos, técnicos de engenharia clínica e fisioterapeutas respiratórios para o projeto. O que nos foi solicitado foi expertise prática para que esse equipamento fosse efetivo no tratamento do Covid-19. É um apoio intenso e quase contínuo. Nos vimos na obrigação de apoiar. É difícil mensurar em valores. Em outro cenário seria tudo muito mais caro e demorado”, pontua o presidente da rede Mater Dei.

Finalizado em apenas 45 dias – a ponto de ser encaminhado para a Anvisa -, um projeto desse porte não seria desenvolvido em menos de dois anos, segundo os dois especialistas. Tudo isso se deve ao esforço de todos os parceiros e também a uma aceleração dos processos burocráticos por parte do governo.

“Quando começamos tínhamos em mente que seria um esforço só durante a pandemia. Mas a legislação nos impõe prestar suporte para esses equipamentos. Tivemos que montar uma outra empresa para isso e é ela que busca as autorizações. Montando a empresa, temos que dar viabilidade a ela. A pandemia vai além do que estamos passando agora. Já vimos que existe uma demanda. O conhecimento acumulado nos permite atuar em um novo campo que são as health techs. Temos muito conhecimento tecnológico que pode ser aplicado, especialmente na telemedicina. No Brasil, temos muita capacidade tecnológica, mas as empresas de tecnologia precisam de mais apoio, principalmente na hora do desenvolvimento”, completa Tonussi.