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A Anvisa e o sentimento nacional

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Sede da Anvisa em Brasília
Sede da Anvisa em Brasília. Crédito: REUTERS/Ueslei Marcelino

“Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há muita guerra pela frente.” (Antonio Barra Torres, presidente da Anvisa)

O vírus do negacionismo científico detectado em redutos palacianos, que parece haver contaminado o próprio titular da pasta da Saúde, médico renomado que até outro dia presidia uma importante instituição científica, está sendo enfrentado com destemor por um órgão da estrutura governamental. O órgão em questão, Anvisa, vinculado como já explicado ao presidente da República, tem como diretor-presidente o médico Antonio Barra Torres, nome de ilibada reputação, que pertence aos quadros da Marinha brasileira, ocupando posto da mais elevada graduação. Seu corpo de auxiliares na instituição é composto de figuras altamente conceituadas nos círculos científicos dentro e fora do País.

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Reportando-se a uma desairosa observação do Chefe do Governo, Jair Messias Bolsonaro, à conduta da Anvisa na recomendação expedida sobre a aplicação de vacinas contra Covid-19 em crianças, Barra Torres tornou público magistral pronunciamento. Exigiu, em tom incisivo, uma retratação das insinuações maldosas formuladas a respeito da atuação da Agência. Já anteriormente, gerando compreensíveis mal-estar e inconformismo generalizados Bolsonaro havia cometido outro destempero verbal. Confessou-se disposto a apontar e punir os membros da Anvisa que opinaram favoravelmente à extensão da vacinação contra o coronavírus à faixa etária dos menores de 5 a 11 anos. Assinale-se, de passagem, que a aplicação de vacinas nessa faixa etária está sendo adotada universalmente por determinação de categorizados organismos da saúde pública, que classificam a medida como essencial no combate pleno à pandemia do coronavirus.

Vale a pena conhecer na íntegra pela altivez com que foi concebido o pronunciamento do presidente da Anvisa. Aqui está. “Senhor Presidente, como Oficial General da Marinha do Brasil, servi ao meu país por 32 anos. Pautei minha vida pessoal em austeridade e honra. Honra à minha família que, com dificuldades de todo o tipo, permitiram que eu tivesse acesso à melhor educação possível, para o único filho de uma auxiliar de enfermagem e um ferroviário. Como médico, Senhor Presidente, procurei manter a razão à frente do sentimento. Mas sofri a cada perda, lamentei cada fracasso, e fiz questão de ser eu mesmo, o portador das piores notícias, quando a morte tomou de mim um paciente. Como cristão, Senhor Presidente, busquei cumprir os mandamentos, mesmo tendo eu abraçado a carreira das armas. Nunca levantei falso testemunho. Vou morrer sem conhecer riqueza Senhor Presidente. Mas vou morrer digno. Nunca me apropriei do que não fosse meu e nem pretendo fazer isso, à frente da Anvisa. Prezo muito os valores morais que meus pais praticaram e que pelo exemplo deles eu pude somar ao meu caráter. Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar. Agora, se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate. Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há muita guerra pela frente. Rever uma fala ou um ato errado não diminuirá o senhor em nada. Muito pelo contrário. Antonio Barra Torres, Diretor Presidente – Anvisa, Contra-Almirante RM1 Médico, Marinha do Brasil”.

A Anvisa tornou-se, com a postura assumida, baluarte na defesa de postulados importantes na vida pública brasileira. Age, de modo impecável, em consonância com o sentimento nacional.

*Jornalista
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