Benjamin Salles Duarte*

O ciclo hidrológico, ou das águas, domina há milhões de anos o planeta Terra e as forças naturais poderosas determinam os mecanismos complexos da dinâmica e gestão dos recursos hídricos, desde a formação das nuvens de chuvas, um fenômeno advindo da evaporação das águas dos mares, oceanos, rios, lagos, reservatórios, bem como as contribuições decorrentes da evapotranspiração das matas, florestas, culturas, pastagens, e agregando-se as frentes frias carregadas de umidade que fazem também chover. A incidência constante da luz solar sobre a Terra gera calor, luminosidade e fotossíntese, fontes de vida humana, animal e vegetal!

Afirmam os cientistas que o volume de água doce é constante, entretanto, as chuvas estão mal distribuídas nos continentes e nas regiões do globo terrestre. Assim posto, o semiárido mineiro comparado com o Sul de Minas é um dos exemplos dessa desigualdade hídrica. Entre 1986 e 2017, a precipitação média em Januária, Norte de Minas, foi de 883,1 milímetros anuais (Instituto Federal Norte de Minas) contra a preciptação média histórica de Bocaina de Minas, Sul de Minas, que é de 2.100 milímetros anuais (Climate-data). Um milímetro de chuva (1 litro de água/m2) corresponde a 10 mil litros de água por hectare, e uma cultura de grãos, por hipótese, que exigir minimamente 800 milímetros de chuva por hectare, significa uma demanda hídrica potencial de 8 milhões de litros.

Portanto, sem chuvas suficientes para usos múltiplos e reservação de água, não há também como funcionar com eficiência os sistemas agrícolas de irrigação, o abastecimento doméstico, industrial, agroindustrial, o comércio, os serviços, as usinas hidrelétricas, e muito menos a produção brasileira de grãos, cereais, oleaginosas, agroenergia, açúcar, que passa igualmente pela oferta de frutas e produtos da horticultura. As safras agrícolas brasileiras dependem em 90% da distribuição das chuvas nos seus ciclos produtivos e nas diferentes regiões produtoras desse vasto território nacional e suas vocações agrossilvipecuárias. Tudo exige água!

Em Minas Gerais, os dados preliminares do Censo Agropecuário 2017 mostram que os 607.800 estabelecimentos agropecuários mineiros ocupam uma área de 37,9 milhões de hectares de terras, sendo 4,6% com lavouras permanentes; 10,5% com temporárias; 14,7% com pastagens naturais; 36,3% com pastagens plantadas; 24,4% com matas naturais; 5,1% com matas plantadas; e outras, com 4,5%. Quanto ao uso da terra, 51% ou 19,3 milhões de hectares são pastagens naturais e plantadas, e o Estado também lidera a produção de leite e derivados.

Nas paisagens rurais mineiras, diversificadas, essas áreas coletoras de chuvas nos domínios dos estabelecimentos agropecuários são estratégicas à gestão correta dos recursos hídricos numa perspectiva de bacias hidrográficas. Além disso, em nível nacional, segundo o pesquisador e Chefe Geral da Embrapa Territorial, Evaristo Miranda, o “Patrimônio Imobiliário Imobilizado para atender às exigências e cumprimento das leis ambientais vigentes, dentro dos estabelecimentos agropecuários brasileiros, soma um valor de R$ 3,1 trilhões.” Nenhum outro ramo da economia nacional teve que abrir mão de patrimônios privados dessa envergadura!

Por outro ângulo, a adoção de boas práticas conservacionistas pelos agricultores familiares, médios e grandes empresários, no foco da sustentabilidade dos recursos naturais, se faz indispensável não apenas para obter ganhos de produção, produtividade e qualidade, como também estimular um balanço ambiental positivo nas artes de plantar, criar, abastecer, exportar, preservar e conservar a natureza.

Assim posto, os efeitos positivos das boas práticas transcendem a porteira da fazenda, beneficiam toda a sociedade definitivamente urbanizada, movimentam as economias regionais, e requerem o pagamento por serviços ambientais prestados pelos empreendedores rurais. Noutra paisagem, sinérgica, a floresta Amazônica reúne nove países, entre os quais o Brasil, abrange uma área de 5,5 milhões de km2, abriga estimativamente 400 bilhões de árvores, com mais de 5 centímetros de diâmetro, e emite diariamente 20 bilhões de toneladas de vapores na atmosfera, que formam as nuvens de chuvas e tidas como verdadeiros “rios voadores” (Ipam).

Pode-se aceitar que a oferta regular de água em quantidade e qualidade, e a demanda por alimentos saudáveis e nutricionais acessíveis, entre outras condicionantes estratégicas, serão dois dos maiores desafios no viger desse século XXI.

*Engenheiro agrônomo