O crescimento da polarização e seus malefícios

Uma democracia sólida não sobrevive com dois países dentro de um
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O crescimento da polarização e seus malefícios
Foto: Reprodução Adobe Stock

A polarização no Brasil deixou de ser debate. Virou medo físico. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em maio mostra que 59,6% dos brasileiros têm medo de sofrer agressão por causa do posicionamento político-partidário. São 99,4 milhões de pessoas. Outros 2,2%, cerca de 3,6 milhões, dizem que já foram vítimas de violência no último ano.

O País que enterrou 26 pessoas assassinadas por intolerância política só em 2026 – mais que em quatro eleições presidenciais somadas desde a redemocratização – naturaliza que discutir Lula e Bolsonaro termine com mortes, agressões e rompimento de amizades e relações familiares porque a política virou gatilho de ódio.

Estudo do ConnectLab, novo centro da FGV com a Quaest, revela que petistas e bolsonaristas confiam no próprio grupo quase como na família – notas 7,8 e 7,3, respectivamente em escala de 0 a 10. A confiança no grupo oposto despenca para 0,8 entre bolsonaristas e 1,0 entre petistas. É a bolha perfeita.

Confortáveis na zona de pertencimento, os dois polos só consomem o que confirma o que já pensam. O algoritmo entrega, o grupo do WhatsApp valida e a checagem morre. É por isso que a fake news prospera. A Fiocruz comprovou que, na pandemia, o WhatsApp foi o principal canal de desinformação, seguido por Instagram e Facebook, e 24,6% das mentiras diziam que a Covid era estratégia política.

Estudo do Pacto pela Democracia analisou 716 mensagens falsas de 2022 a 2024 e achou que 45% atacavam as urnas – justamente porque o cidadão só tem contato com ela a cada dois anos e não tem como checar na hora. Resultado: segundo o TSE, a confiança nas urnas caiu de 82% em 2022 para 53% em 2025. Refém da bolha, o eleitor acredita em tudo que lê e troca a ciência por print sem fonte.

Em ano eleitoral, com acirramento da polarização, o risco não é só eleitoral. É civilizatório. Não há solução simples, mas há saída em três tempos.

Em curto prazo, é preciso fazer higiene digital. Tratar informação como alimento: checar rótulo. Antes de compartilhar, consultar fontes primárias como portais do IBGE, Ipea, TSE, Fiocruz e Butantan. Cada compartilhamento sem checagem é um voto a favor da própria manipulação. Ao mesmo tempo, plataformas e Justiça Eleitoral precisam acelerar a retirada de conteúdo gravemente descontextualizado, como prevê a Resolução 23.732/2024 do TSE.

A médio prazo, O Brasil precisa investir pesado e incluir letramento midiático e educação para a democracia no currículo básico, como defende a Unesco. Não basta dar celular, é preciso ensinar a ler o celular. Projetos com professores, idosos, indígenas e quilombolas, como o do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Fiocruz, precisam virar política pública.

A longo prazo, reconstruir pontes. A democracia não sobrevive com dois países dentro de um. É preciso financiar iniciativas que quebrem as bolhas territorialmente: festivais, ciência itinerante, universidades nas periferias, debates locais sem palco partidário. É preciso reaprender que divergir não é trair. A polarização não nos torna mais convictos, nos torna mais manipuláveis. E um povo manipulável é o sonho de todo autoritário e o pesadelo de qualquer democracia.

Sobre o autor

Ana Karenina Berutti

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo e mestre em Letras pela PUC Minas. Experiência de 30 anos em cobertura política e econômica.


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