Carta ao presidente eleito
Nenhuma sociedade alcança bem-estar elevado e duradouro sem enfrentar suas desigualdades. Reduzir a distância entre ricos e pobres amplia oportunidades, fortalece a coesão social e favorece o desenvolvimento humano e econômico. A esquerda nasceu sobre esses alicerces, com foco nos vulneráveis.
Um sistema tributário proporcional, em que cada um contribua conforme sua capacidade, é parte desse caminho. Isso não anula a meritocracia: o mérito só floresce quando oportunidades não são privilégio de poucos.
O País se dividiu como torcidas rivais. Venceu o candidato do governo, com expressiva vantagem, o que não é aprovação irrestrita nem cheque em branco. Há pontos a preservar e muitos a corrigir. As promessas precisam ser cumpridas; havendo obstáculos, cabe ao vencedor explicá-los e assumir a responsabilidade. A ética eleitoral não termina na apuração.
As críticas e propostas do adversário expressam parcela significativa do País, que não pode ser silenciada; o presidente governa para todos. Mesmo para a centro-esquerda, responsabilidade fiscal diante da dívida crescente, confiança dos mercados e diálogo com a oposição majoritária no Congresso são condições de governabilidade. Tamanho e finalidade dos ministérios devem atender ao interesse público, não à acomodação de aliados.
Assistencialismo sem autonomia perpetua a dependência do Estado, centralismo impõe soluções distantes da realidade local e clientelismo converte direitos em moeda eleitoral. Essas práticas reproduzem desigualdades.
Os dois partidos pediram o adiamento da votação, por razões logísticas e climáticas, mas a condução do processo levantou dúvidas graves sobre os limites do STF e a autonomia do TSE. A meu ver, houve decisão arbitrária, com sinais de abuso de poder, que o TSE não teve firmeza para rejeitar, e a postura passiva da presidência do STF merece exame. Isso não desfaz a lisura do processo eleitoral, ainda referência, mas exige discutir o equilíbrio entre os Poderes. Decisões excepcionais que viram precedentes pedem controle, sobretudo com futuras escolhas para a Corte, que já acolheu várias indicações do presidente. Chamar toda decisão controversa de fascismo esvazia a palavra, mas nenhuma corrente está imune a práticas autoritárias, nem as que se dizem defensoras da democracia. Transparência, limites e prestação de contas valem para todos.
Investigações de todos os espectros, inclusive sobre familiares e aliados do presidente, precisam ir até o fim. Problemas fiscais, desequilíbrio econômico e desigualdades exigem respostas consistentes, sem desperdiçar a experiência de profissionais e representantes públicos. O Brasil tem potencial para subir degraus entre as economias do mundo, mas potencial não é destino. O que decide é governar com competência, humildade, imparcialidade e respeito aos limites democráticos. Se nada mudar na orquestra política, em quatro anos o País entoará, com amarga ironia, um velho sucesso do Led Zeppelin: The Song Remains the Same.
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