O elo invisível entre o campo e a indústria: aço inox e alimentos
Recentemente, fui convidado a palestrar em um encontro de empresários em Timóteo (MG), no coração do Vale do Aço — um dos principais polos metalúrgicos do País. Diante de uma plateia composta majoritariamente por especialistas da siderurgia, um questionamento era inevitável: o que o presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (Consea) de São Paulo e especialista em Food Law (o direito agroalimentar) teria a acrescentar àquele ecossistema?
A resposta desenhou-se em uma conversa com o secretário de Desenvolvimento Econômico do município, Itaércio Marinho. Ficou evidente que o cruzamento de perspectivas setoriais é, muitas vezes, o gatilho para a inovação. O mercado do aço e a cadeia de alimentos guardam uma simbiose profunda, embora pouco evidente ao consumidor final.
A indústria do aço é um termômetro da atividade econômica nacional. Dados do Instituto Aço Brasil apontam que o setor fatura cerca de R$ 169,3 bilhões anualmente, respondendo por aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse gigantismo industrial dá suporte direto à outra potência brasileira: o agronegócio.
A cadeia de alimentos, em sua totalidade, figura como uma das grandes consumidoras de aço inoxidável do País. O insumo está presente desde as porteiras dos campos — na fabricação de maquinário agrícola, silos de alta capacidade e estruturas complexas de armazenagem — até a infraestrutura logística de transporte, plantas de processamento industrial e balcões de varejo. O aço inox é a matéria-prima essencial para garantir o resfriamento adequado, a assepsia e a acomodação segura dos alimentos que abastecem o mercado interno e os portos de exportação.
Essa engenharia conjunta sustenta o protagonismo internacional do Brasil, consolidado no topo das exportações globais de soja, proteína animal, café e suco de laranja. Contudo, a manutenção dessa liderança depende de uma variável que hoje rege as políticas públicas e o comércio exterior: a sustentabilidade.
Não por acaso, o evento em Minas Gerais foi batizado de Encontro de Networking do Aço Inox Sustentável. O grande desafio contemporâneo dos exportadores brasileiros é comprovar a conformidade de seus meios de produção com as exigências ESG (ambientais, sociais e de governança). A segurança jurídica e o acesso a mercados altamente regulados, como o europeu, passam pela mitigação de perdas, uso racional da água e descarbonização dos processos.
Estar associado a uma cadeia de fornecimento industrial que busca ativamente a sustentabilidade não é mais um diferencial ecológico; é um imperativo de governança. O debate em Timóteo provou que a agenda sustentável deixou o campo das ideias e converteu-se em pauta prioritária de sobrevivência econômica e competitividade global.
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