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‘O mundo vai girando cada vez mais veloz’

Contexto atual acelera decisões, encurta processos e amplia expectativas
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‘O mundo vai girando cada vez mais veloz’
Foto: Reprodução Adobe Stock

A frase poderia estar apenas em uma canção, guardada na memória afetiva de muitos de nós. No entanto, ela também diz muito sobre o tempo em que vivemos. Um tempo que acelera decisões, encurta processos, amplia expectativas e nos coloca, quase todos os dias, diante da promessa de fazer mais, em menos tempo, com mais recursos e mais tecnologia.

Recentemente, essa ideia sequestrou meus pensamentos, novamente, durante uma visita a uma fábrica de joias. Entre processos, materiais e etapas de produção, conheci de perto o trabalho dos ourives. São oito pessoas dedicadas a um ofício que exige técnica, precisão, paciência e sensibilidade. Um trabalho profundamente manual, muitas vezes transmitido dentro das famílias, como um saber que permeia gerações não apenas pela palavra, e sim pelo gesto.

Há algo muito bonito nesse tipo de conhecimento, eu pelo menos vejo dessa forma. Se o mundo gira cada vez mais veloz, como poeticamente é cantado, observar alguém lapidar, ajustar, revisar, polir e cuidar de uma peça com as próprias mãos nos recoloca diante de outra forma de excelência. Uma excelência que nasce do olhar treinado, da repetição cuidadosa, da escuta do material e da decisão diária de fazer melhor.

Tenho acompanhado com grande interesse os avanços da inteligência artificial e os impactos que ela já produz na forma como empresas criam, decidem e operam. A IA amplia possibilidades, organiza informações, antecipa cenários e ajuda lideranças a enxergar conexões que antes talvez passassem despercebidas. Vejo esse movimento como parte inevitável e potente do nosso tempo. A reflexão, para mim, está em compreender o lugar de cada inteligência.

Existe uma inteligência que calcula. Existe uma inteligência que reconhece padrões, combina dados e acelera processos. Existe também uma inteligência que mora no corpo, na prática, no tato, na memória das mãos. Uma inteligência que nem sempre cabe nas planilhas, embora produza valor. Que talvez não apareça nos grandes discursos sobre inovação, embora seja decisiva para aquilo que chamamos de qualidade.

O trabalho manual não se opõe à inovação. Ele nos lembra que nem todo valor está na aceleração. Existe conhecimento acumulado no detalhe. Existe sofisticação no tempo dedicado a revisar mais uma vez. Existe cultura no modo como um ofício é transmitido. Existe reputação naquilo que uma marca decide preservar, mesmo quando poderia automatizar.

O que deve ganhar escala? O que deve ganhar eficiência? E o que precisa manter a presença humana para continuar tendo sentido?

Nem tudo que pode ser automatizado deve perder o toque humano. Nem tudo que pode ser acelerado deve abrir mão da pausa. Nem toda eficiência representa, sozinha, uma entrega melhor. Em alguns casos, a tecnologia eleva processos. Em outros, é o artesanal que eleva percepção, vínculo e valor.

O futuro não será construído apenas por máquinas, sistemas e algoritmos. Ele também será feito por pessoas capazes de interpretar contextos, preservar saberes, sustentar escolhas e transformar matéria em significado.

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