O risco das soluções simplistas para o emprego no Brasil
O fim da escala 6×1 é uma medida que ainda precisa de debate qualificado para considerar, de fato, a preocupação com a qualidade de vida do trabalhador. Readequar a jornada semanal pode parecer avanço, mas tem efeitos colaterais, especialmente nos setores que mais empregam no País. Transformar um problema complexo em solução simplista é um grande erro.
Comércio, bares, restaurantes, turismo, supermercados, farmácias, hospitais e serviços operam em dinâmica contínua. Para se manterem, essas atividades exigem atendimento nos fins de semana e feriados, independentemente do modelo de trabalho. O tema, que é de interesse da sociedade, tornou-se pauta de guerra ideológica, sendo tratado com celeridade incomum, em ano eleitoral, ignorando viabilidade operacional e custos.
Uma mudança abrupta na legislação, sem considerar peculiaridades de setores estratégicos para a economia, elevaria despesas com contratações, horas extras e reorganização de turnos. Se grandes empresas podem se reorganizar para absorver impactos, pequenos e médios negócios, que sustentam grande parte dos empregos formais, teriam imensa dificuldade de adaptação. O resultado previsível é o fechamento de vagas, o aumento da informalidade, a inflação de preços ao consumidor e a perda de competitividade.
É preciso reconhecer que o problema central não é a jornada semanal, mas a renda para o sustento familiar. Muitos trabalhadores aceitam jornadas extensas, mas o salário não basta, levando-os, muitas vezes, a buscar uma segunda ocupação. Discutir redução de jornada sem garantir produtividade e renda não traz solução de dignidade e melhor qualidade de vida.
Em vez de uma proibição generalizada, o País deveria buscar a modernização. Negociação coletiva por setor, escalas flexíveis, banco de horas transparente, previsibilidade de folgas e incentivos à contratação são caminhos eficientes. Em diversos países, modelos de remuneração por hora permitem ajustar a demanda sem destruir postos de trabalho.
O Brasil ainda sofre com a alta carga tributária sobre o emprego formal, burocracia e custos que penalizam quem contrata. Sem enfrentar esses gargalos, qualquer imposição recairá sobre empresas e consumidores. E o trabalhador fica entre a cruz e a espada.
Defender uma discussão técnica não significa ignorar a necessidade de melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas reconhecer que realidades econômicas distintas exigem soluções inteligentes. Há setores em que a jornada atual pode ser revista, mas, em outros, a capacidade operacional é indispensável.
O desafio não é proibir formatos, mas garantir que qualquer jornada seja digna, previsível e justamente remunerada. Restrições geram desemprego; políticas públicas eficazes conduzem ao equilíbrio. Se o objetivo é melhorar a vida do trabalhador, o caminho seguro não é a proibição, mas a criação de condições reais para o aumento da renda, da produtividade e da liberdade de escolha.
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