Riscos invisíveis da reforma tributária nas companhias
A reforma tributária representa a mais profunda transformação regulatória do ambiente de negócios brasileiro das últimas décadas. A substituição gradual de tributos por IBS e CBS promete simplificação e maior racionalidade ao sistema no longo prazo. No entanto, durante esse período de transição, as empresas enfrentarão um cenário de elevada complexidade operacional, exigindo investimentos relevantes em processos, tecnologia, pessoas e controles internos.
Embora o debate ainda esteja concentrado em alíquotas, créditos e impactos econômicos, o maior desafio talvez esteja longe dos holofotes: a adequação dos processos corporativos e dos ambientes tecnológicos que sustentam a operação das empresas.
Para multinacionais industriais de grande porte, especialmente aquelas listadas em bolsa e sujeitas aos requisitos da Lei Sarbanes-Oxley (SOX), a reforma extrapola o campo tributário e passa a representar um importante tema de governança corporativa.
evisões relevantes serão necessárias em processos fiscais, parametrizações de ERPs, cadastro de materiais, classificação fiscal de produtos, modelos comerciais, contratos com clientes e fornecedores, formação de preço, logística e reportes financeiros.
Nesse contexto, a qualidade dos controles internos será determinante para o sucesso da transição. Entre os principais pontos de atenção estão a governança do programa de implementação, a segregação de funções em alterações sistêmicas, os controles de mudança em ambientes de tecnologia, os testes independentes das parametrizações tributárias, a rastreabilidade das aprovações e a qualidade dos dados mestres utilizados nas transações.
Os riscos relacionados à tecnologia merecem atenção especial. Muitas organizações ainda operam com ERPs altamente customizados e integrados a centenas de sistemas satélites de automação. Alterações tributárias implementadas sem testes adequados podem gerar erros em documentos fiscais, cálculo incorreto de tributos, apropriação inadequada de créditos, falhas de integração entre sistemas e inconsistências nos dados utilizados para fechamento contábil e divulgação de resultados ao mercado.
Outro aspecto frequentemente negligenciado é o risco de divergências entre unidades de negócio, filiais e controladas. Interpretações distintas da nova legislação, combinadas com diferentes níveis de maturidade operacional, podem criar um ambiente propício para inconsistências, contingências fiscais e fragilidades de controle interno.
Grandes problemas raramente surgem da estratégia; nascem, quase sempre, da execução. A reforma tributária não deve ser tratada como um projeto exclusivo da área fiscal ou de tecnologia. Trata-se de uma agenda corporativa que envolve conselho de administração e fiscal, comitês de auditoria e finanças, diretoria executiva, auditoria interna, controles internos, compliance, finanças, riscos e operações.
Os executivos que compreenderem essa dimensão, e ainda há tempo, estarão protegendo não apenas a conformidade tributária de suas organizações, mas também a confiabilidade das informações financeiras, a credibilidade perante investidores e reguladores e, sobretudo, a capacidade da empresa de atravessar uma das maiores mudanças regulatórias da história recente sem criar riscos desnecessários para seus negócios. A reforma promete simplificação no futuro. Até lá, porém, o maior tributo poderá ser pago por aquelas organizações que subestimarem os riscos da transição.
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