Quando o sol passa a fortalecer o agro
A produção agrovoltaica representa uma das fronteiras mais promissoras da agricultura moderna. Trata-se de um modelo em que painéis solares são instalados acima das lavouras, permitindo que o mesmo hectare produza alimento e energia. Até agora os exemplos que tinham eram experimentais, mas a Espanha lançou o primeiro exemplo em escala comercial e os resultados são tão expressivos quanto os obtidos nos experimentos.
O projeto espanhol, instalado na Extremadura, ocupa 800 hectares e combina 150 megawatts de energia com um olival totalmente operacional. Os painéis foram montados a 4,5 metros de altura, permitindo que o manejo agrícola não sofresse alterações. Você provavelmente está se perguntando como as plantas crescem sem sol e aqui é importante entendermos dois elementos.
O sombreamento é apenas parcial, os painéis são instalados de forma espaçada, ocupando entre 30% e 40% da área, com ângulo calculado e altura suficiente para aquela espécie plantada. Assim, a luz continua chegando às plantas.
Além disso, as plantas costumam produzir melhor com menos sol direto, isso ocorre porque o excesso de radiação solar faz com que a planta feche os estômatos para evitar perda de água e com isso ela reduz a fotossíntese.
Esses dois elementos combinados geram as vantagens do modelo, pois aumenta a produtividade em 12%, reduz o estresse térmico e diminui em 28% o consumo de água das oliveiras.
Do ponto de vista econômico, a instalação dos painéis elevados aumenta o custo total do projeto em cerca de 18%. Mas esse acréscimo pode ser rapidamente compensado pelo aumento de produtividade e pela receita de energia que o sistema gera. No caso da Espanha, cada hectare do complexo produz energia que gera receita de 14 mil euros por ano, que acrescido aos 420 euros adicionais por hectare provenientes do aumento de produtividade do azeite premium, totalizam quase 15 mil euros de receita extra por hectare por ano.
Esse caso espanhol abre uma janela de possibilidades para o Brasil. Somos um país com uma das maiores incidências solares do mundo, com vastas áreas agrícolas e com um agronegócio altamente profissionalizado. A agrovoltaica pode amplificar o que já funciona e se encaixa como uma luva em culturas sensíveis ao calor, como café, uva, frutas tropicais e hortaliças. Na pecuária, o conforto térmico ajuda o gado a engordar mais rápido.
O Brasil tem outra vantagem, já que aqui o custo de estruturas elevadas tende a ser proporcionalmente menor do que na Europa, graças ao preço mais competitivo de aço, mão de obra e logística. Isso significa que o payback do modelo poderia ser ainda mais rápido. Ao contrário do senso comum, os sistemas agrovoltaicos podem ser adaptados para pequenas propriedades, cooperativas e arranjos locais, gerando novas fontes de renda e fortalecendo a economia rural.
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