Editorial

A arte de dizer ‘por que não?’

Mudanças profundas exigem tempo, escuta e disposição para fazer o questionamento exato
A arte de dizer ‘por que não?’
Foto: Divulgação

Há um fio condutor na trajetória de Dorothea Werneck que vai além dos cargos que ocupou ou das políticas que ajudou a construir. É uma postura diante da vida pública que parece cada vez mais rara: a disposição de entrar em uma sala sem saber exatamente o que vai encontrar, mas com a convicção de que algo útil pode sair dali.

A economista mineira, nascida em Ponte Nova em 1949, ministra do Trabalho e depois da Indústria e Comércio nos anos 1990, lança agora uma biografia que é, antes de qualquer coisa, um exercício de honestidade. “Tudo que planejei não aconteceu e tudo que aconteceu não foi planejado”, resumiu ela, com a precisão de quem passou décadas em salas de negociação e aprendeu a distinguir o essencial do acessório.

Esse tipo de franqueza é, em si, uma contribuição. Num tempo em que narrativas de carreira tendem ao heroísmo retrospectivo, em que cada escolha parece ter sido certeira e cada tropeço aparece recodificado como aprendizado estratégico, há algo refrescante em alguém que admite que a vida profissional foi, em grande parte, uma sequência de convites aceitos sem garantia de resultado.
Mas a leveza não deve enganar. Por trás do bom humor que a marca, Dorothea construiu instituições que resistiram ao tempo. O Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade e a estruturação do que viria a ser a Apex não foram projetos de um ciclo político, mas apostas de médio e longo prazos num país que, como ela mesma observa, tem dificuldade estrutural de pensar além do mandato seguinte.

Seu conselho ao próximo ministro da Economia, paciência, soa simples demais para quem espera receitas técnicas. Mas é, na verdade, um diagnóstico sofisticado. Mudanças de cultura não obedecem ao calendário eleitoral. Levam gerações. E o papel de quem está no poder não é forçar a chegada desse futuro, mas preparar o terreno para ele.

Há também, na entrevista que a economista concedeu à jornalista Daniela Maciel, do Diário do Comércio (página 9), uma lição sobre como lidar com ambientes hostis sem se deixar consumir por eles. Quando descreve as formas que encontrou de responder ao assédio, sem gritos, sem confronto aberto, com a voz baixa e a pergunta certeira, Dorothea não está apenas contando uma história pessoal. Está descrevendo uma forma de exercer autoridade que não depende de cargo nem de volume.

O Brasil que ela enxerga é generoso, e talvez até excessivamente otimista para os padrões do momento. Mas esse otimismo não é ingenuidade. É uma escolha. E escolhas, como a própria trajetória dela demonstra, têm consequências que se estendem muito além de quem as faz.

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