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Marco Guimarães *

Em um palco improvisado em frente ao distrito do 5º arrondissement, o comissário de polícia se preparava para uma coletiva com a imprensa. A temperatura estava agradável e o sol, ainda que timidamente, se fazia presente. O único fato que causava um certo desconforto era o voo rasante de um corvo sobre as cabeças dos jornalistas.

Senhoras, senhores, estamos aqui hoje para comunicar, se esse corvo nos der licença, o resgate da menina Aline e a prisão de sua sequestradora. Devemos isso aos esforços da tenente Natalie, aqui ao meu lado, e, sobretudo, aos resultados das investigações do capitão Maurel, que, lamentavelmente, não pode estar aqui hoje porque passa por um checkup cardíaco. Agradeço a presença de todos. Se houver alguma pergunta, tentaremos respondê-la.

— Sr. comissário, minha pergunta seria com relação aos novos casos de pessoas desaparecidas. Parece que o número desses desaparecimentos está muito acima do normal. Vocês têm alguma explicação para o fato?
Antes de ouvir a resposta do comissário, Natalie deixa o palco para atender o telefone.
— Tenente Natalie, bom dia, aqui é do Hospital Val-de-Grâce. Durante os exames, o capitão Maurel teve problemas e seu estado é bastante crítico. A senhora poderia avisar a Sra. Virgínia? Não estamos conseguindo falar com ela.
— Farei isso a caminho daí.
Após se identificar na portaria do hospital, ela vai diretamente para o CTI, onde o médico de plantão a aguarda. Caminham em direção ao box onde está Maurel; ao chegar lá, o médico abre a cortina que separava o capitão dos outros pacientes e, antes de deixá-la entrar, diz:
— Não se preocupe, tenente, está tudo bem.
— Mas me ligaram dizendo…
— Que ele estava muito mal. E estava. Ele tinha sofrido uma parada cardíaca, tentamos reanimá-lo, mas sem sucesso. Já nos preparávamos para remover o corpo quando ocorreu o inexplicável. Ele voltou. Ele inexplicavelmente voltou.
— Ah, que boa notícia doutor. Ele ainda corre perigo?
— Os exames indicam que não, outro fato inexplicável. Tudo parece ter voltado ao normal. A tensão antes estampada no rosto de Natalie cede lugar a um ar de contentamento. Ela já se prepara para ir até Maurel quando pergunta ao médico: — Quem é aquela Sra. com vestido preto e a cabeça coberta por um véu? É parente?
— Sra. de preto? Com véu na cabeça? Desculpe-me, tenente, mas não há ninguém ao lado do capitão Maurel. (Fim)

*Escritor. Autor dos livros “Fantasmas de um escritor em Paris”, “Meu pseudônimo e eu”, “O estranho espelho do Quartier Latin”, “A bicha e a fila”, “O corvo”, “O portal” e “A escolha”