Parceiros do Futuro

Estratégia transforma vocação em desenvolvimento regional

Especialistas defendem integração entre mercado, inovação e políticas públicas para transformar potencial em crescimento sustentável
Estratégia transforma vocação em desenvolvimento regional
O BH-Tec reúne universidades, centros de pesquisa, startups e empresas em um ambiente voltado ao desenvolvimento tecnológico, à geração de negócios e à produção de conhecimento. O ecossistema fortalece a conexão entre academia e setor produtivo, estimulando soluções inovadoras, formação de mão de obra qualificada e agregação de valor às cadeias produtivas do Estado | Foto: Divulgação BH-Tec

Promover o desenvolvimento dos territórios exige compreender vocações locais, dinâmicas de mercado e estimular a articulação entre poder público, iniciativa privada e academia em torno de objetivos comuns, entendendo gastos como investimento e não apenas custo.

Nos dicionários, “vocação” refere-se a uma inclinação ou aptidão natural para determinada atividade. Em Minas Gerais, a abundância mineral historicamente direcionou o Estado para a mineração. Já o Vale do Jequitinhonha, reconhecido pela produção artesanal, consolidou-se como referência cultural.

Para especialistas, porém, vocação sozinha não garante desenvolvimento. Intencionalidade, planejamento e senso de pertencimento são apontados como fatores essenciais para transformar potencial econômico em políticas públicas efetivas.

Esse debate se conecta diretamente aos eixos do projeto Parceiros do Futuro, liderado pelo Diário do Comércio, que discute diversificação econômica, agregação de valor às cadeias produtivas, tecnologia verde e integração entre academia, setor produtivo, governo e sociedade civil.

A proposta do projeto é discutir caminhos para transformar potencial econômico em ações concretas de desenvolvimento regional.

Para o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), Carlos Arruda, estudar o mercado é premissa para que um plano de desenvolvimento seja efetivo.

Um exemplo citado por Arruda é a exportação do própolis verde produzido em Bambuí, no Centro-Oeste mineiro, a partir do alecrim-do-campo, planta nativa da região.

“Para qualquer tipo de empreendedorismo é fundamental estudar o mercado. É preciso empreender naquilo que o território sabe fazer, ajustando-se às demandas, desenvolvendo parceiros e agregando valor. Na década de 1960, um padre introduziu a produção de mel na região de Bambuí, que antes era voltada principalmente para leite e queijo. Hoje são mais de 500 produtores. Pode parecer pouco, mas isso faz diferença para os pequenos produtores. O projeto ganhou força a partir de uma parceria com o Instituto Federal. Essa é uma combinação bem-sucedida entre vocação natural e demanda de mercado”, explica Arruda.

No mesmo sentido, o presidente do Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-Tec), Marco Crocco, afirma que o desenvolvimento dos territórios depende da capacidade de estruturar cadeias produtivas, agregar valor às matérias-primas e produzir conhecimento.

O Parque Tecnológico de Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas, conhecido como “Vale da Eletrônica”, é apontado como exemplo desse modelo. O ecossistema reúne mais de 160 empresas de base tecnológica, gera cerca de 17 mil empregos diretos e movimenta mais de R$ 3,2 bilhões por ano. Integrado à cidade, o modelo conecta instituições de ensino, centros de inovação e empresas que compartilham infraestrutura, conhecimento e projetos.

Tudo começou em 1959, quando Sinhá Moreira fundou a Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (ETE FMC). As atividades da instituição, primeira escola técnica de nível médio da América Latina, atraíram estudantes de todo o País e deram origem a um polo educacional que hoje reúne também o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) e o Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação.

“Construir uma estratégia de desenvolvimento a partir das vocações é coerente, mas ela não pode se limitar a isso. É preciso aumentar o nível de complexidade das cadeias produtivas. No caso do lítio no Vale do Jequitinhonha, por exemplo, talvez não seja o momento de produzir baterias, mas é necessário avançar no beneficiamento do minério. Santa Rita do Sapucaí começou pela educação e formou uma massa crítica de profissionais qualificados e capazes de pensar estrategicamente. O Sul de Minas soube aproveitar suas vantagens competitivas”, avalia Crocco.

O crescimento chinês também é citado como exemplo de política que utilizou a exportação de recursos naturais para fomentar industrialização, produção de conhecimento e avanço tecnológico.

Antes da Revolução Comunista de 1949, a economia chinesa era predominantemente agrária e marcada pela pobreza, concentração fundiária e décadas de guerras que comprometeram sua infraestrutura.

Até o fim da década de 1970, a China viveu sob uma economia planificada. A partir da chegada de Deng Xiaoping ao poder, o país iniciou o processo de “reforma e abertura”, retirando cerca de 740 milhões de pessoas da pobreza, segundo dados do governo chinês.

Sob o conceito de “socialismo com características chinesas”, Deng Xiaoping implementou reformas econômicas voltadas à agricultura, modernização industrial, abertura comercial e ampliação do espaço para o setor privado.

“Nenhum país se desenvolveu apenas a partir de vocações naturais. É preciso construir uma indústria forte. A China fez isso ao atrair empresas estrangeiras e internalizar conhecimento produtivo, aprendendo a produzir e aprimorar tecnologias”, afirma o presidente do BH-Tec.

Inovação impulsiona transformação da Lagoinha

Na região Noroeste, o bairro da Lagoinha faz parte da origem de Belo Horizonte, quando abrigava os operários responsáveis pela construção da capital mineira, no fim do século 19. Marcada por antigos sobrados e pela tradição boêmia da cidade, a região atravessou um longo período de esvaziamento urbano ao longo da segunda metade do século passado, recebendo projetos pontuais de revitalização.

Um novo ciclo de transformação do território, porém, começou a ganhar força a partir da inauguração do Órbi ICT, originalmente criado como Órbi Conecta, em 2017, por iniciativa do Inter, MRV&Co, Localiza&Co e lideranças do San Pedro Valley. Em 2025, o hub oficializou sua transformação jurídica em Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT), ampliando atuação em pesquisa aplicada, educação e aceleração de negócios.

Segundo a diretora de Operações do Órbi ICT, Francis Aquino, inspirado no Porto Digital, de Recife (PE), o plano Montanha Digital prevê desde a atração de startups e empresas de tecnologia até a criação de uma governança territorial estruturada, incluindo formações em inteligência artificial, laboratórios de inovação, articulação com universidades, editais públicos e parcerias com organizações comunitárias.

Francis Aquino
Francis Aquino: não se trata de abandonar vocações, mas de transformá-las | Foto: Divulgação Camila Rocha

“A palavra é pertencimento. Para que um plano de desenvolvimento territorial funcione, as pessoas precisam se sentir parte dele. Isso exige reconhecer tradições e conhecimentos locais sem se tornar refém deles. O nosso papel é estruturar projetos consistentes e olhar para as potencialidades naturais do território para desenvolver novas soluções por meio da tecnologia. Não se trata de abandonar vocações, mas de transformá-las”, afirma Francis Aquino.

Minas busca agregar valor à economia

O avanço de temas como transição energética, industrialização verde e economia do conhecimento pressiona Minas Gerais a repensar seu modelo de desenvolvimento. Historicamente associado à mineração e à exportação de commodities, o Estado busca ampliar a capacidade de transformar vocações naturais em cadeias produtivas mais sofisticadas, capazes de gerar inovação, empregos qualificados e retenção de riqueza nos territórios.

É nesse contexto que o projeto Parceiros do Futuro ganha relevância ao propor uma discussão sobre como conhecimento, tecnologia, planejamento e pertencimento podem reposicionar Minas em uma economia global cada vez mais orientada por valor agregado e capacidade de inovação.

Quando tradição deixa de ser suficiente

Especialistas apontam que o desenvolvimento regional depende cada vez menos apenas da exploração de recursos naturais e mais da capacidade de transformar vocações em cadeias produtivas sofisticadas, capazes de gerar conhecimento, inovação e valor agregado.

Exemplos citados na reportagem mostram caminhos diferentes para esse processo:

  • Bambuí transformou a produção de própolis verde em atividade de valor agregado;
  • Santa Rita do Sapucaí estruturou um ecossistema tecnológico a partir da educação;
  • A Lagoinha aposta em inovação e pertencimento para estimular a reocupação econômica do território.

Segundo especialistas, o desafio de Minas Gerais passa por reduzir a dependência de atividades extrativistas e ampliar setores ligados à tecnologia, industrialização e economia do conhecimento.

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