Política

Gabriel Azevedo defende reforma administrativa e fortalecimento do interior

Pré-candidato afirma que a descentralização da administração estadual será uma das principais marcas de um eventual governo do MDB em Minas
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Gabriel Azevedo defende reforma administrativa e fortalecimento do interior
Azevedo defende a digitalização de processos administrativos | Foto: Diário do Comércio / Giulia Simmons

O Diário do Comércio Eleições Minas 2026 recebeu o pré-candidato ao governo de Minas pelo MDB, Gabriel Azevedo. Ele é advogado, empresário, publicitário, jornalista e professor universitário e já foi vereador de Belo Horizonte por dois mandatos, de 2017 a 2024, vindo a presidir a Câmara Municipal da Capital durante o biênio 2023/2024. Também foi subsecretário de Estado de Juventude entre 2011 e 2014, na gestão do então governador tucano Antonio Anastasia.

Com 20 anos de trajetória política e experiência na gestão pública desde os 23 anos, Gabriel Azevedo aposta em um time técnico e na descentralização do poder como marcas da sua proposta. Ele cita nomes como o economista Marcos Lisboa para a área socioeconômica, o professor José Cláudio Junqueira para sustentabilidade e os ex-secretários de Saúde Marcos Pestana e Antônio Jorge para reorganizar a atenção primária. Além disso, desmente o pré-candidato ao governo, Alexandre Kalil, que afirmou que contava com a ex-secretária de Estado Renata Vilhena em equipe de construção do seu plano de governo. Segundo Gabriel, a professora da Fundação Dom Cabral negou veementemente que faria qualquer participação no projeto de Kalil.

A principal proposta de Gabriel Azevedo é a criação de dez governos regionais nos primeiros 100 dias, com redução de cargos comissionados na Capital para reforçar o interior, sem aumento de gastos. Também prevê o envio à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) projetos para instituir as regiões metropolitanas do Triângulo e da Zona da Mata, além de implementar o bilhete único metropolitano para enfrentar a perda de produtividade dos trabalhadores causada por longos deslocamentos.

Gabriel Azevedo também propõe a criação de um fundo público de manutenção de enfraestrutura atrelado à mineração, mudanças na lei de licitações para priorizar qualidade e não só menor preço, e a retomada de ferrovias para carga e passageiros, incluindo corredores na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e a ligação Belo Horizonte-Juiz de Fora.

No campo, Azevedo promete mapa digital colaborativo de estradas rurais, universalização da internet no agronegócio e conexão entre parques tecnológicos, UEMG e agricultura familiar. Sobre a dívida com a União, afirma que a saída passa por diálogo institucional, combate à sonegação e reindustrialização, rejeitando o confronto com o governo federal.

O pré-candidato é contrário à privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Ele alega que a Copasa só deveria ter sido vendida com regras claras sobre o uso do dinheiro da venda em tratamento de esgoto para todo o Estado e na garantir da qualidade da água. Além disso, para Gabriel Azevedo, a Cemig precisa priorizar o agronegócio e o agricultor familiar, com transparência na Cemig SIM e produção local de painéis fotovoltaicos em parceria com a UEMG.

Na segurança, Gabriel Azevedo, que é filho de policial civil, propõe fortalecer o trabalho de investigação da polícia civil, promover a integração entre as forças federais e estaduais. Também prevê acabar com os 322 lixões de Minas em 100 dias e tornar o Estado mais transparente e ágil para empresários, com rastreamento digital de processos.

Qual medida com impacto direto no ambiente de negócios de Minas Gerais seria tomada nos seus primeiros 100 dias de governo?

A política me deu muitas lições ao longo desses 20 anos em que participo dela, metade da minha vida. Completei 40 anos neste 2026. E uma das lições é que a gente não faz nada sozinho. Tem que ter time. E quando você anuncia alguém no seu time, essa pessoa tem que estar no seu time mesmo. Eu acompanhei, recentemente, a entrevista de um dos pré-candidatos que citou o nome da ex-secretária de Estado, Renata Vilhena, uma professora incrível da Fundação Dom Cabral, com quem eu tive a alegria de compartilhar um período trabalhando no governo. Eu servi no governo Antonio Anastasia de 2011 a 2014. Eu virei subsecretário de Estado de Juventude com 23 anos de idade e percorri Minas Gerais inteira fazendo conferências, criando indicadores, cuidando de projetos que diminuíam a evasão escolar, que diminuíam a criminalidade entre jovens periféricos e a Renata Vilhena foi uma professora. Por isso, quando fui presidente da Câmara Municipal, eu a contratei na Fundação Dom Cabral para criar o BH para Você, uma ferramenta que mostrava como o orçamento estava organizando em cada região de Belo Horizonte para que as pessoas soubessem quanto de recurso que ia para educação, para saúde. Eu sei fazer. Eu tenho experiência de gestão. E aí eu não faria como outros pré-candidatos e citaria Renata Vilhena aqui nessa cadeira de maneira leviana, para depois ela mesma desmentir o fato de estar sendo parte de uma equipe que não existe.

Na nossa equipe está o Marcos Lisboa, economista conhecidíssimo no Brasil, com muitos méritos, que já esteve no governo, que esteve à frente do Insper e que é responsável pela questão socioeconômica do governo. Porque a gente deve resolver a questão da dívida e ao mesmo tempo cuidar das pessoas. Marcos Lisboa estará comigo e, no dia 15 de julho, nós vamos oferecer à sociedade mineira um programa de governo. E mais, eu anuncio que ele será um dos integrantes do nosso primeiro escalão.

Segundo ponto: a minha equipe também tem o professor José Cláudio Junqueira, que é o meu orientador no doutorado em direito ambiental. Vamos tratar muito de sustentabilidade. Nos 100 primeiros dias, eu quero apresentar um plano para acabar com os mais de 322 lixões que existem em Minas Gerais. Compromisso dos 100 primeiros dias.

Ainda conto com Marcos Pestana e Antônio Jorge, ambos de Juiz de Fora, que foram secretários estaduais de Saúde porque a gente precisa reorganizar a atenção primária.

Ainda conto com o vereador do PV, Negro Bússola, também Juiz de Fora, na Zona da Mata, porque as favelas são uma potência econômica e nós precisamos integrar essas potências à economia mineira.

Nos 100 primeiros dias de governo, você vai me ver enviando para a Assembleia Legislativa projetos de lei importantes. Um deles, é o que vai criar os governos regionais. Eu quero diminuir muito os cargos comissionados na capital para expandir isso para o interior sem aumentar gastos. É diminuir na Capital para valorizar o interior. Por quê? Porque eu fui vereador. Eu conheço o problema no local. Não adianta alguém sentado no Palácio Tiradentes querer resolver o problema que está na ponta e não adianta essa pessoa ficar peregrinando, mudando as capitais de lugar. Quem sabe melhor o problema dali é quem é dali. Então, nós teremos dez governadores regionais para atender melhor aos prefeitos, vereadores, resolver problema rápido e melhorar o ambiente de negócio.

Também vou enviar para a Assembleia a proposta de criação de duas regiões metropolitanas, a do Triângulo e a da Zona da Mata.

Outra questão é a região metropolitana. A gente precisa organizar os tecidos metropolitanos, é fundamental para fazer a integração na mobilidade. Há 20 anos, São Paulo já tem bilhete único. A região metropolitana não tem. Nessa discussão de escala de trabalho, ninguém coloca uma coisa fundamental para o trabalhador e para a produtividade: gente que fica duas horas no trânsito para ir, duas horas no trânsito para voltar produz mal, descansa pouco, fica pouco tempo com a família, desenvolve Burnout e fica completamente esgotado. Eu preciso pensar no mineiro que está esgotado e garantir bilhete único que melhore a vida das pessoas na mobilidade.

Então, nos 100 primeiros dias, nós vamos tomar medidas concretas para melhorar a mobilidade, para garantir mais organização, valorizando o interior e também para a gente compreender, de fato, como é que nós saímos dessa situação de dívida e de uma infraestrutura precária no Estado.

Qual o seu posicionamento sobre a privatização da Copasa e da Cemig? Caso seja favorável, quais salvaguardas defenderia para garantir a universalização dos serviços e proteger o consumidor?

Pré-candidato não pode enrolar. Tem de ter resposta muito clara. Eu fui contra a privatização da Copasa. E eu sou contrário à privatização da Cemig. Não sou contrário à iniciativa privada. Basta organizar um histórico da minha vida para entender que eu sou um político social liberal moderado. Eu entendo a importância do Estado. Eu reconheço profundamente a importância do mercado, da liberdade de empreender, de criar o seu próprio negócio, inclusive da participação da iniciativa privada na gestão das questões públicas. Tudo isso para mim é muito claro.

Eu fui contra a privatização da Copasa porque o governo não explicou para onde iria o recurso da venda. E eu não estou vendo ele ir para o saneamento nem resolvendo a conta de água das pessoas que mais precisam. Ou seja, é menos a discussão do privatiza ou não privatiza e mais a discussão de que metade do esgoto de Minas Gerais não é tratado. No contrato da regulação da questão da Copasa nós vamos colocar o tratamento junto com o fornecimento d’água? Quais vão ser os medidores que vão oferecer a qualidade para quem tem a água? A qualidade vai ser medida duas vezes na semana ou todos os dias? Todo dia a gente vê anúncios de quebra de fornecimento. Prefeitos e vereadores, sobretudo de municípios menores, vão se integrar à Arsae-MG (Agência Reguladora de Saneamento e Energia de Minas Gerais)?

Todos esses assuntos são muito complexos no detalhe e eu quero ser um governador que vai no detalhe. Não quero chegar aqui e falar de uma maneira espetacular, pronta para fazer corte para a internet, isso não resolve a vida das pessoas.

Então, o assunto água é sério e tem que ser tratado com regulamentação, planejamento, conexão do tratamento do esgoto ao fornecimento de água, valorização de quem precisa mais para que essa pessoa não veja uma conta explodir.

Quando o assunto é Cemig, eu vou me concentrar no agronegócio, no agricultor familiar e em quem está no campo. Eu não posso deixar a Cemig na mão de pessoas que não vão pensar em quem está precisando desesperadamente de energia para produzir mais no campo mineiro. E isso é um problema que todo mundo que roda pelo interior escuta. A Cemig tem que se voltar para quem precisa mais e tem que acelerar o passo e muito no fornecimento de novas formas de obter energia.

Eu sou muito pioneiro aqui em Belo Horizonte e, em 2015, eu passei por uma saga para implementar painéis fotovoltaicos no topo do meu prédio. Então, eu forneço para o meu apartamento e o prédio é autossuficiente de energia pelos painéis fotovoltaicos. De lá para cá, muito mudou. E a Cemig SIM não pode ser um protetorado de indicações políticas que faz transações económicas que geram dúvida. Não pode. A gente tem que ter profunda transparência na aquisição e na valorização de recursos naturais, porque Minas Gerais tem um potencial de energia fotovoltaica absurdo. Você precisa motivar cada telhado de Minas Gerais a ter painéis fotovoltaicos. E para isso, nós precisamos usar a Cemig junto com a educação pública. Eu quero muito fazer uma conexão entre a Cemig e a UEMG, que é uma universidade estadual que deve ser muito valorizada e os para gente produzir painéis fotovoltaicos em escala aqui em Minas Gerais. Nós temos os componentes, nós temos a matéria-prima. Como compreender que isso é exportado como commodity para virar painel fotovoltaico e a gente adquirir? Então, a Cemig é uma joia desse estado. Eu quero uma Cemig com valorização do servidor, sem apadrinhamento político, sem uso político dessa empresa para que a gente consiga fazer com que o mineiro não pague uma conta cara e para que a gente consiga fazer com que Minas Gerais garanta o uso estratégico dos seus recursos e seu posicionamento no globo para beneficiar o povo mineiro.

Qual a sua proposta concreta para a mineração e a transição energética em Minas Gerais, um estado que concentra reservas estratégicas para a transição energética global, como lítio, nióbio, grafite, terras raras?

A gente tem que fazer uma reflexão de 306 anos de existência. Minas Gerais passou por ciclos econômicos. O primeiro, a gente existe por conta do ouro, em 1720. E Ouro Preto foi uma cidade que exportava cerca de 60% do ouro no mundo naquele período. E ao mesmo tempo tinha dezenas de igrejas e nenhuma escola. Nenhuma escola. Ou seja, toda aquela riqueza foi tirada do nosso território sem transformar-se em educação. Os filhos das pessoas mais ricas foram estudar na Europa, voltaram e quiseram fazer uma revolução liberal aqui. Não conseguiram, porque além do dedo-duro, havia as pessoas que não sabiam ler. O analfabetismo foi pior para os inconfidentes do que o Joaquim Silvério dos Reis. Esse foi um ciclo, o diamante foi outro ciclo, em Diamantina, que também não tinha o processo educacional e a valorização das matérias-primas. Na sequência, tivemos o café, com a mesma lógica mais ao sul do Estado, e depois o ferro, que basta andar e ver esse lugar todo esburacado para se perguntar: como é que nós não fabricamos em Minas Gerais 1 cm de trilho de trem? Vai tudo em natura para a China para depois voltar.

Agora, a natureza está nos dando mais uma oportunidade, terras-raras. As terras são raras, gente, não porque elas são difíceis de encontrar, mas porque o processo para separar esses componentes da tabela periódica é muito difícil. Quem domina muito bem isso é a China. E qual é a importância das terras-raras que estão fazendo com que China e Estados Unidos praticamente vivam uma guerra fria estratégica por esses minerais? É porque eles fazem parte dos componentes dessa nova economia verde que a gente vê aí. Ou seja, para construir, para fabricar carros elétricos, turbinas eólicas, componentes militares, uma série de produtos que dependem desses minerais estratégicos dessas terras raras.

A pergunta é: Minas Gerais, mais uma vez, vai só extrair, colocar isso num pacote e enviar como commodity recebendo pouco dinheiro por isso ou vamos agregar valor ao produto e produzir aqui, o que significa a famosa verticalização.

Eu tenho conversado com todas as mineradoras por várias razões. Eu pergunto: como é que nós vamos fazer uma mineração sustentável? No meu governo não vai ter essa de criar um buraco sem saber o que vai acontecer com ele depois. Isso tem que estar no plano. O Parque das Mangabeiras, aqui na Capital, era uma cava e se transformou num ambiente sustentável na sequência. Depois da Serra do Curral, eu quero, enquanto governador, criar o segundo maior parque metropolitano do Brasil, o Parque das Águas Claras, que tem um ambiente perfeito para gente criar um bom cenário verde e sustentável para nossa Capital.

Empresários mineiros apontam sistematicamente a burocracia estadual e a insegurança jurídica como freios ao investimento nos negócios. Qual o seu diagnóstico sobre essa questão e quais medidas o senhor pretende adotar nos primeiros 12 meses de governo?

A população está um pouco cansada dessa história de empresário na política. Eu escuto isso das pessoas porque dá a entender que o empresário não cuida do povo. Eu sou dono de bar e, portanto, eu empreendo. Então, de um negócio como o meu, que é um bar, até um grande minerador, todo mundo tem que ter duas coisas de um governo: transparência total e celeridade. O que é transparência total? Vamos pensar no meu caso, dono de bar. Na hora em que você dá entrada na papelada para criar o seu pequeno negócio, você quer saber do momento um até o momento que você vai ter a licença para funcionar, tudo isso tem que estar digitalizado, ponto a ponto no sistema, porque isso é a nossa vida hoje. Eu chamo um veículo no aplicativo e espero e eu só estou tranquilo porque eu vejo o traçado dele ao longo do mapa chegando até mim. Esse traçado tem que acontecer no Estado com todos os processos, seja de um dono de bar, seja de uma mineradora.

Em 2033, quando acabar o ICMS depois desse processo de adaptação da reforma tributária, o governo não vai poder mais brincar de dar subsídio sem transparência, que agora é com transparência por decisão judicial. O que vai ser motivador para qualquer empresário vir para Minas Gerais é infraestrutura, segurança jurídica, celeridade burocrática e mão de obra qualificada com investimento em educação.

Quais são as prioridades concretas do seu projeto de governo para rodovias, ferrovias a fim de ampliar a competitividade logística do Estado?

As rodovias são um ativo patrimonial de Minas Gerais que está se deteriorando. É gravíssimo. Precisamos de três coisas. Primeiro, manutenção. Na hora que você vai fazer uma estrada em Minas Gerais, há camadas. E se a primeira camada de asfalto se deteriora porque a água se infiltra nas camadas inferiores, não adianta depois só reparar, você tem que refazer a estrada. É isso que está gravemente acontecendo conosco. Nós temos um patrimônio de infraestrutura que está se desintegrando. Então, com urgência, nós precisamos criar um fundo público de manutenção de infraestrutura que funcionaria atrelado à mineração. Esse fundo não seria um bolo de dinheiro do qual você vai pegando alguma coisa. O fundo renderia e, a partir desse rendimento, que ficaria cada vez maior, é possível ter uma sustentabilidade na manutenção.

Segundo, nós temos que mudar a maneira de contratar as pessoas que vão fazer o serviço para Minas Gerais. E eu falo isso muito com a Renata Vilhena, sobre a lei de licitação do jeito que ela está, que é sempre pelo menor preço. Se você vai fazer uma obra na sua casa, você contrata só pelo menor preço? Não, porque senão você vai passar raiva. O serviço não é de qualidade, não entrega tempo. Belo Horizonte está sofrendo com isso. Basta andar pela cidade e ver obras paradas, mal feitas.

E o terceiro ponto que é fundamental. Você precisa fazer a mudança do modal. Mineiro chama tudo de trem. E o que está faltando aqui? Trem. Por quê? A partir dos anos 70, muito pela pressão rodoviária, o nosso modal foi substituído. É muito difícil encontrar uma cidade de Minas que não haja uma estação hoje abandonada, transformada em museu, espaço cultural. Eu quero aquilo de novo funcionando. Não só para carga, mas para pessoas. Em quatro anos não dá para encher o Estado de trem, mas eu vou começar porque, se um governador não começar, os seguintes vão ficar dando desculpa.

A questão ferroviária também pode ser muito utilizada para facilitar a vida das pessoas. A Região Metropolitana de Belo Horizonte tem um conjunto de trilhos abandonados que podem servir para que as pessoas de Santa Luzia, Contagem e Betim possam se locomover na direção da Capital sem ficarem agarradas no trânsito. E não custa sonhar que Belo Horizonte e Juiz de Fora voltem a ter uma conexão de trem para pessoas, afinal de contas, a gente faz isso na direção do Espírito Santo. Então, na campanha, você vai ter um mapa mostrando um plano de metas muito claro para a questão das ferrovias. Quais vão ser as primeiras? Quanto vai custar? De onde vem o dinheiro? Da compensação que existe em Brasília, de fundos internacionais que não estão sendo utilizados.

Minas não pode ficar de costas para o planeta. E dá para a gente avançar com ferrovia, com mineração sustentável, com geração de emprego, com agregação de valor. Tudo isso é possível a partir da conexão com quem quer fazer e sabe fazer e com quem dialoga e não grita. Aliás, dialogar é muito importante. Eu dialogo com todos os partidos, políticos, porque eu tenho a oportunidade que é cuidar do povo mineiro. E quem quer cuidar, não quer ficar brigando com o presidente, não quer ficar brigando com os prefeitos, não quer ficar brigando com os partidos, não quer usar as mídias sociais para ficar dando porrada nas pessoas, quer cuidar.

Minas Gerais convive há anos com o peso da dívida com a União, o que limita a capacidade de investimento do Estado. Como o senhor pretende equacionar esse passivo e ampliar a margem fiscal para projetos prioritários?

Quem briga com o presidente da República não vai resolver a dívida. A dívida é com a União. Deixa eu traduzir: a gente está devendo para o povo do Piauí, da Amazônia, do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sul, está devendo para o povo brasileiro. E para mim isso é uma vergonha. E como é que a gente resolve isso? Primeiro tem que entender a dívida pública mineira, que tem um histórico que remonta à construção de Belo Horizonte. Desde os governadores Afonso Pena, Augusto de Lima, da época da República Velha que pediam dinheiro, atrelando ao café até chegar ao ministro Kandir e da lei de mesmo nome, quando a gente vê a nossa principal commodity desonerada dos impostos para balancear o Plano Real, e isso custou muito caro a partir de 98 em matéria de juros. E o problema não é só fiscal, é também estrutural, porque dos anos 70 em diante, você tem uma desindustrialização de Minas Gerais. Há uma ausência de valor agregado no minério, por exemplo.

Para resolver a dívida, precisamos de um bom relacionamento institucional com o governo federal. Ninguém precisa amar o presidente da República. Mas você precisa dialogar com ele. E não usar as mídias sociais para ficar batendo no governo federal.

Segundo, você precisa valorizar e muito os fiscais de Minas Gerais. Existe sonegação. Nós estamos falando da casa de bilhões de reais e de alguns setores específicos.

Terceiro ponto que também é fundamental. Nós precisamos, para além de agregar valor e reindustrializar o nosso Estado, pensar numa parte infraestrutural estratégica que vai reverter essa fuga que pode acontecer em 2033. O empresário tem que ser ouvido. O governador mineiro precisa estar em contato com o setor produtivo permanentemente e ouvir deles qual a prioridade. Eu sinto que este governo atual acha que sabe muito. Tem resposta para tudo. Se diz muito conhecedor de todas as questões. E aí fica a pergunta: se sabe tanto, por que não fez?

Então, para gente sair dessa dívida, é preciso reestruturar Minas Gerais em matéria de indústria, dialogar bem com o governo, investir em educação, infraestrutura, segurança, que está ficando muito complexa com a chegada de facções. Isso tudo vai fazer um pacote que tira a gente desse atoleiro. Agora, a gente tem que olhar muito no olho do eleitor mineiro e ser sincero. Minas não está nos trilhos. Aqui o trem não prospera. A The Economist, revista que qualquer assinante do nosso glorioso Diário do Comércio conhece, diz que a nossa economia está aos frangalhos. A situação é gravíssima. Quem é pré-candidato a governador não pode ficar brincando não. Tem que falar sério sobre dados, tem que montar um time correto, tem que demonstrar experiência, capacidade de diálogo, porque senão lá vamos nós embarcar em outra aventura.

Minas Gerais não precisa descobrir vocação. Ela já tem uma vocação muito forte. O que a gente precisa é organizar essas vocações para um futuro que desenvolva socialmente o nosso Estado e garanta uma vida melhor para o nosso povo, que está trabalhando de segunda a segunda sem conseguir fechar o mês e precisa de valor agregado para ter uma vida melhor, sem brigas partidárias, com capacidade de dialogar, sem fanfarronices. Vamos fazer acontecer. Minas Gerais não pode ser um vazio no mapa. Para mim, Minas é a locomotiva que vai puxar esse trem chamado Brasil.

Quais políticas agrícolas o senhor defende e como pretende integrar tecnologia, crédito e assistência técnica para o produtor rural?

O agro tem números interessantes que sustentam a nossa economia. Em relação às demandas, ponto número um: estrada. A pessoa que está no agro não quer perder mercadoria, tempo, saúde, dinheiro em estradas ruins. Então, isso é um primeiro compromisso. A gente vai fazer um mapa muito transparente, conversando com todo o agro, digitaliza o mapa para todo mundo ver e fala: “onde está o ruim? Reclama aqui. Alô, agro, marca no mapa”. Nós vamos fazer esse trabalho de manutenção de estrada em conjunto com os diversos setores privados.

Segundo ponto: infraestrutura tecnológica e aí eu estou falando de internet. O agro não pode ficar desconectado. O agronegócio vai precisar muito de conexão para você ter o maquinário funcionando. E o pequeno o a agricultura familiar tem direito à conexão também.

Terceiro ponto. Eu tive em Viçosa e estou rodando muito. Esses dias foi café da manhã em Muriaé, almoço em Juiz de Fora, lanche em Barbacena e jantar em Montes Claros. E, em Viçosa, eu conheci o tecnoPARQ, na Universidade Federal de Viçosa. São sete parques tecnológicos em Minas que precisam estar conectados com o agro. A educação e o processo acadêmico são fundamentais para o agro para se preparar as pessoas que lidam com o campo, garantir que os jovens vejam perspectiva ali sem que eles tenham que sair do campo e para melhorar a qualidade do produto é algo fundamental para ampliar a nutrição do povo mineiro. A comida que se come aqui tem que ser boa, de qualidade, e é preciso garantir que esse produto chegue na mesa das pessoas.

Eu sento para conversar com qualquer pessoa que queira um agro produtivo, que valorize a cultura do campo, que coloque comida boa e barata na mesa, que sustente a nossa exportação, eu sento com todo mundo do agronegócio, passando pela agricultura familiar, pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, qualquer pessoa que queira produzir com respeito à legalidade, com respeito à propriedade, com respeito aos avanços tecnológicos, com respeito à nossa cultura do campo.

E por fim, quem está no campo precisa de segurança. Não pode ter trator roubado, não pode ter gado roubado e, para isso, a Polícia Militar tem que sentir no governador comando e palavra. E atualmente isso não existe porque o atual governo é responsável por ter mandado um projeto para a Assembleia Legislativa de aumento salarial dos policiais e depois esse próprio governo vetou o projeto. E a polícia geralmente não tem equipamento ou estrutura para fazer essa segurança no campo. que precisa ser muito bem cuidada. Eu não vejo dicotomia entre campo e cidade. Isso é um só sistema, um ajuda muito o outro. E esse cuidado com o nosso agro vai partir dessas premissas que eu falei.

Como o senhor articula a agenda de segurança pública com a agenda econômica e quais são as prioridades do seu governo nessa área?

Bom, eu sou filho de policial civil. A minha mãe era de Araguari, veio para Belo Horizonte, se tornou professora da rede estadual. Meu pai era de Pirapora, no Norte mineiro, veio para a Capital e se tornou policial civil. Ambos se aposentaram e continuaram trabalhando. Minha mãe passou a costurar roupas e o papai se transformou num advogado. E ele sempre falava comigo: “filho, se a investigação não tem capacidade de seguir, o sistema de segurança foi pro ralo”. É o que acontece hoje. Eu valorizo demais a Polícia Militar, porque já tive arma na minha cabeça em pleno centro de Belo Horizonte depois de sair de um banco. E foi graças a um policial militar sacando a arma do outro lado do táxi onde eu estava e trocando tiros com esses dois bandidos que a minha vida foi salva. Eu devo estar aqui à Polícia Militar. E eu não tenho dúvida de que lado eu estou nessa história. É do lado do policial contra o bandido. Isso tem que ficar claro e a gente tem que deixar claro que existem bandidos e eles têm que ser punidos, presos e investigados.

O problema é que o crime está mudando. Hoje o crime está no celular. A minha mãe já recebeu mensagens de golpe pelo celular. Quando ela vai para a delegacia de crimes cibernéticos, ali na Andradas, ela vai ficar na fila umas duas horas. Vai fazer o boletim de ocorrência. A taxa de resolução de crime digitais, cibernéticos, até a dos crimes é baixa. Por quê? Porque o governo não investe na Polícia Civil.

Então, o primeiro ponto é que a Polícia Civil vai precisar recuperar sua capacidade de investigar. Segundo ponto, o governador não pode brigar com o governo federal e impedir a criação de um sistema único de segurança pública. Existe o sistema único de saúde, existe o sistema único de assistência social. Nós somos uma federação. A Polícia Militar e a Polícia Civil de Minas e São Paulo têm compartilhado dados com a do Rio. Porque o mineiro sabe muito bem que ele só não está totalmente insatisfeito com a segurança porque ele sente que nós ainda não somos o Rio de Janeiro. Mas as facções do Rio estão vindo para cá. Já chegaram aqui. Na região metropolitana, no Triângulo, em Araguari, a cidade da minha mãe, a cidade com o maior número de homicídios. Por quê? Tráfico.

O terceiro ponto, é preciso de uma força tarefa que reúna Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público. Essa integração é a minha prioridade e não a criação de um personagem. Você não vai me ver em operação policial. Eu não vou vestir roupa preta e fingir que eu sou policial subindo comunidades. Isso não é coisa de quem quer cuidar da segurança pública, isso é coisa de quem quer fazer um vídeo para internet e ainda atrapalha, porque mobiliza vários policiais para a própria proteção, porque não sabe atirar, não sabe se defender e ainda tem a equipe que está gravando. Brasileiro, mineiro está cansado disso. Não adianta fingir que está do lado da polícia.

Polícia quer investigação, diálogo e eu vou publicar uma carta de 20 pontos com a Polícia Militar, vou ter uma carta compromisso com a Polícia Civil, também com os corpos de bombeiros militares, com o sistema penal que está completamente abandonado e com o sistema socioeducativo. A gente tem que falar de força e segurança como um sistema que tem que estar completamente orquestrado para enfrentar o crime e não as próprias dificuldades que vive.

O desenvolvimento regional passa pela relação entre governo do Estado e, no caso de Minas, os 853 municípios com realidades muito distintas. Como o senhor pretende estruturar a relação do Estado com os municípios para reduzir desigualdades regionais e potencializar vocações econômicas locais?

Olha, eu estou caminhando muito por Minas Gerais. Sem jato do Banco Master, sem me corromper durante a pré-campanha e sem, porque um candidato limpo se transforma num governador limpo. E um governador limpo precisa não deve só dizer que não é corrupto, ele precisa governar para todos os mineiros.

E aí, nós que somos de Belo Horizonte, como eu sou, precisamos de ter a humildade de perceber o tamanho das Minas Gerais e perceber que Belo Horizonte chegou depois dessa história. Isso é importante para gente entender qual é a alma desse governo que se pretende. Minas Gerais surge de dois movimentos: os sertanejos das Gerais, que acompanharam o São Francisco e foram se estabelecendo e aqueles que vieram de São Paulo e do Rio na direção da região central em busca de ouro e diamante. Essas Minas Gerais que são muito diversas, elas precisam não de um governo central dizendo o que elas precisam ou o que elas farão. Elas precisam das localidades coordenando o governo central.

E por isso, federalista que sou, apresentei a proposta dos dez governos regionais sem aumentar o custo. A ideia é diminuir a estrutura e o custo na Capital e aumentar no interior. Sem criar cargo para político. Um governador regional não poderá ser candidato na eleição seguinte. E vai ser escolhido ouvindo as regiões. E vão perguntar: “mas como é que você pode fazer algo assim?” Porque eu já fiz. Quando eu era vereador, criei um aplicativo e tinha os co-vereadores que eram eleitos nas regiões da cidade, para me ajudar a ver onde estava o buraco na rua, a árvore a ser podada, os problemas de educação. Tudo isso ajuda você a cuidar de uma cidade que tem 2.300.000 habitantes, 10% do que é o povo mineiro.

Portanto, é fundamental que esses governos regionais olhem muito para suas localidades, sejam feitos por pessoas da localidade e em conjunto com o governador escolham o que é prioridade e que tem que ser feito, nunca com a imposição. Eu insisto, eu prometo porque eu já fiz. Eu falo que vou fazer, porque já foi feito.

Você vai a Uberlândia e a segunda maior cidade do Estado não tem uma conexão duplicada para Capital. Você vai a Divinópolis e percebe que tem um trilho de trem margeando a rodovia e não tem conexão férrea. Você vai para Montes Claros e sente tanto abandono no Norte. Você vai ao Sul do Estado que é tão robusto em matéria de produção e de riqueza e sente que a burocracia da Capital atrapalha a ponto de querer fazer os seus negócios pulando a fronteira para São Paulo. A pessoa vem de carro de São Paulo para Minas e vê o impacto perfeito na rodovia passando de um estado para o outro.

Então, governar Minas Gerais é ter a humildade de compreender que Minas são de fato muitas e não dá para fazer isso sozinho. É só com time, com escuta, com valorização da opinião das pessoas e com muita transparência dizendo: “penso em fazer isso, o prazo é esse, o resultado que eu espero é aquele dali, vamos juntos”. Em conjunto com a Assembleia Legislativa, que é muito importante, com o Tribunal de Justiça, com o Tribunal de Contas, a gente vai trabalhando para que cada regionalidade seja respeitada.

E é preciso levar em conta o turismo. Cada um desses lugares tem uma capacidade turística incrível com os mais diversos artesanatos, experiências, gastronômicas é a lógica da gente ter a regionalidade por sensações, por experiências, vai também agregar valor no nosso turismo e trazer muita gente para cá.

A política é diálogo, a política é ouvir as pessoas e cargo público não é planejamento, é se colocar à disposição do povo. E se ele assim quiser, você vai governar com apoio dele, das outras instituições, sempre pensando que a vida das pessoas pode melhorar. Recentemente eu fiz um teste genético e que vi que nas minhas veias corre sangue que vem da Europa, da África, de indígenas que já viviam aqui, do Oriente Médio. Eu sou completamente misturado, como Minas é misturado. Então, é aqui que eu nasci. É aqui que eu quero morrer. É aqui que eu quero que meus restos estejam. E essa genética vira ética a partir do momento em que eu entendo que eu preciso entregar para aqueles que vêm depois de mim uma Minas Gerais melhor do que a que eu recebi. E estou muito sereno e tranquilo e feliz nessa tarefa.

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