Fernando Bezerra foi ministro da Integração Nacional | Crédito: Roque de Sá/Agência Senado

Brasília – A Polícia Federal (PF) aponta que o líder do governo de Jair Bolsonaro no Senado, Fernando Bezerra Coelho (PMDB-PE), recebeu R$ 5,5 milhões em propinas de empreiteiras encarregadas das obras de transposição do rio São Francisco e de outros contratos do Executivo federal.

A negociação e o repasse dos valores teriam ocorrido de 2012 a 2014, época em que Bezerra Coelho era ministro da Integração Nacional no governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e integrava o PSB.

Além do senador, também teria sido destinatário de subornos o filho dele, Fernando Bezerra Coelho Filho (DEM-PE), deputado federal e ex-ministro de Minas Energia do ex-presidente Michel Temer. Ele teria recebido R$ 1,7 milhão.

Bezerra Coelho, o filho e outros investigados foram alvos, nessa quinta-feira (19), de ações de busca e apreensão da PF, determinadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Roberto Barroso.

As investigações da PF se deram a partir das delações premiadas de empreiteiros e dos empresários João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho, Eduardo Freire Bezerra Leite e Arthur Roberto Lapa Rosal.

As apurações sobre Mello Filho começaram após a PF descobrir, na Operação Turbulência, que ele era o dono do avião que caiu em 2014, matando o ex-governador pernambucano e então candidato à Presidência pelo PSB, Eduardo Campos. No decorrer do inquérito, a polícia diz ter identificado supostas operações financeiras ilícitas das empresas dele.

Mello Filho e os outros dois colaboradores contaram ter feito o “pagamento sistemático de vantagens indevidas” a Bezerra Coelho e ao filho dele por ordem das empreiteiras OAS, Barbosa Mello, Paulista e Constremac Construções, envolvidas nas obras da transposição e em outros projetos do governo federal.

A pasta da Integração, comandada por Bezerra Coelho, era a responsável pela construção dos canais que levam água do rio São Francisco para outras regiões do semiárido nordestino.

Para ocultar a origem ilícita dos recursos, pai e filho teriam se valido de um esquema de lavagem de dinheiro, envolvendo empresários, operadores e outros políticos e pessoas jurídicas.

O pedido de busca e apreensão em endereços de Bezerra Coelho e dos demais investigados partiu da PF, mas a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, discordou da ação contra o senador.

Raquel Dodge alegou que “não há indícios de que ele registrasse os atos praticados, pois, ao contrário, adotou todas as medidas para manter-se longe deles, de modo que a medida invasiva terá pouca utilidade prática”.

O ministro Barroso, no entanto, não considerou o argumento “convincente”. “Na criminalidade organizada econômica, o natural é que todos os envolvidos tentem ocultar provas e não evitar deixar registros de seus atos. A medida cautelar serve justamente para tentar encontrar documentos mantidos sigilosamente, longe dos olhos do público e das autoridades de investigação”, justificou, em sua decisão.

A ordem do ministro é do último dia 9, em meio à crise deflagrada após o presidente Jair Bolsonaro declarar que trocará postos de comando da PF.

Barroso não autorizou o bloqueio de bens de Bezerra Coelho e do filho, por considerar a medida prematura. Ele liberou a PF para intimar os alvos da operação a prestar depoimentos nessa quinta-feira (19), caso estejam dispostos.

Alvo de operação da Polícia Federal, Bezerra Coelho comandou o Ministério da Integração de 2011 a 2013, durante o governo de Dilma Rousseff, quando Eduardo Campos rompeu com o PT para começar sua campanha presidencial e obrigou o PSB a entregar todos os cargos.

Operador – Os investigadores sustentam que houve ao menos cinco operações para o pagamento de propinas. Numa delas, em 2012, Iran Padilha Modesto, apontado como operador do ex-ministro, teria pedido, em nome do senador, um empréstimo de R$ 1,5 milhão para Lyra Pessoa.

Desse total, R$ 932 mil teriam sido pagos por meio de cheques e transferências bancárias para pessoas e partidos ligados a ambos. Outros R$ 568 mil teriam sido entregues em espécie para Modesto.

Em 2014, ano em que Bezerra Coelho concorreu ao Senado, mais R$ 670 mil teriam sido pagos pela OAS por meio de caixa dois. A investigação aponta ainda uma doação de R$ 350 mil ao PSB, em setembro de 2013, cujo beneficiário seria o congressista.

Defesa – Procurado, o advogado do senador, André Callegari, afirmou que “causa estranheza à defesa que medidas cautelares sejam decretadas em razão de fatos pretéritos que não guardam qualquer razão de contemporaneidade com o objeto da investigação”.
“A única justificativa do pedido seria em razão da atuação política e combativa do senador contra determinados interesses dos órgãos de persecução penal”, completou.

Em nota, a defesa afirmou ainda que a Procuradoria-Geral da República opinou contra a busca e que, mesmo assim, o ministro Barroso a deferiu, o que teria causado “ainda mais estranheza”. E conclui: “a defesa seguirá firme no propósito de demonstrar que as cautelares são extemporâneas e desnecessárias”. (Folhapress)

Cargo de articulador é colocado à disposição

Brasília – Principal articulador do presidente Jair Bolsonaro no Senado, o senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) colocou seu cargo de líder do governo à disposição depois que foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) nessa quinta-feira (19).

Bezerra disse que conversou sobre o tema com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. “Tomei a iniciativa de colocar à disposição o cargo de líder do governo para que o governo possa, ao longo dos próximos dias, fazer uma avaliação se não seria o momento de proceder uma nova escolha ou não”, afirmou.

“Quero deixar, desde pronto, o governo à vontade para que, fazendo o juízo da necessidade de um novo interlocutor, que não haverá, da minha parte, nenhuma dificuldade. Vou continuar ajudando na agenda que acredito, que é a agenda da área da economia”, disse o senador.

Bezerra disse estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e disse entender que houve excesso na decisão judicial que autorizou a operação. “Não havia nenhuma necessidade dessas diligências nas minhas residências e nos meus locais de trabalho”, disse o senador, que deixou seu apartamento para reunir-se com advogados em outro local.

Davi Alcolumbre soube por volta das 6 horas, pela Polícia Legislativa, que a Polícia Federal estava nas dependências do Congresso para cumprir mandados de busca e apreensão contra Bezerra. Sua primeira preocupação foi com a imagem do Senado.

O presidente do Senado orientou a Polícia Legislativa a autorizar e acompanhar a entrada da PF, mas explicitou que não queria espetacularização, com imagens de arrombamento de gabinetes, o que poderia acontecer, já que a Casa não funciona nas primeiras horas da manhã e as salas ficam fechadas.

Segundo pessoas próximas ao presidente do Senado, ele vê na operação o início de uma nova crise tanto para a Casa como para o Palácio do Planalto.

Ele e demais parlamentares da Casa consideram Bezerra um articulador respeitado por todos os senadores, capaz de estabelecer diálogo inclusive com a oposição. A cúpula do Congresso não vê um nome para substituí-lo, caso Bolsonaro resolva tirar o senador do cargo.

Nomes como Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e do líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP), são vistos por senadores como inviáveis. O primeiro por ser filho do presidente e protagonizar polêmicas que vão desde investigações a brigas com senadores de seu próprio partido.

Uma das brigas é justamente com Olímpio, com quem discutiu por causa do apoio do colega à CPI da Lava Toga, comissão parlamentar de inquérito que um grupo de senadores tenta instalar desde o início do ano para investigar integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF).

Olímpio desgastou-se por causa do entrevero e há grandes chances de que ele deixe o partido e migre para o Podemos, como aconteceu na última quarta-feira com a senadora Juíza Selma (MT), com quem Flávio também brigou. (Folhapress)