Educação em Movimento

Inteligência artificial e a arte de fazer perguntas

A IA ainda carece de boas perguntas para fazer a diferença

Que a inteligência artificial (IA) já faz parte das nossas vidas, parece inquestionável. Assim como parece inquestionável que a IA veio para ficar. Talvez você não se dê conta, mas o ChatGPT já foi lançado há mais de 3 anos e, passado o hype inicial, já tem diversos concorrentes e múltiplas aplicações. Fato é que, querendo ou não, muito do que fazemos no dia a dia já tem a impressão digital de uma IA.

Outro dia meu filho, de 11 anos, chegou em casa com uma demanda de pesquisa para a escola sobre os modelos de governo do Brasil, desde o Império até os dias atuais da República. Ele mesmo já sabe fazer o prompt, perguntou à IA e refinou o pedido esclarecendo que precisava de uma tabela resumida. Levou mais tempo transcrevendo a resposta no caderno do que efetivamente fazendo a pesquisa. E eu fiquei me perguntando o que ele realmente aprendeu (e compreendeu) nesse processo.

Independente da metodologia ou tecnologia envolvida, um aprendizado só deixa marcas em nós quando traz sentido para o nosso contexto. Saber perguntar, portanto, faz toda a diferença. Existe um princípio em computação – Gigo (Garbage in, Garbage out) que advoga que a qualidade do resultado depende diretamente da qualidade das informações, ou seja, não importa o quão sofisticado seja o sistema, método ou pessoa: informação ruim gera resultado ruim.

Mas como saber se estamos fazendo boas perguntas? Não dá pra confiar na inteligência artificial nesse caso, ela sempre nos diz que a pergunta é ótima. A teoria do Golden Circle, de Simon Sinek, traz uma possível resposta. A ideia central trabalha a hipótese de que as pessoas não se conectam primeiro com “o que” ou “o como”, mas sim com “o porquê”. São as perguntas de sentido que mais engajam as pessoas. No caso do trabalho do meu filho, talvez fosse mais interessante perguntar ao aluno por que mudamos da monarquia para a república ao invés de apenas empilhar datas e acontecimentos.

Ao longo da minha jornada, fiz muitos cursos e cada um contribui para a minha trajetória profissional. Entretanto, dois deles foram fundamentais para desenvolver a minha capacidade de perguntar: a Graduação e o Mestrado, que trazem a metodologia científica como um componente fundamental. Com esses cursos, entendi que uma coisa é ter opinião, outra é estudar com rigor científico e emitir pareceres embasados em dados.

Fazer boas perguntas é uma arte e precisamos desenvolver essa capacidade na nossa sociedade. Por mais maravilhosa que uma IA pareça ser, ela não deixa de ser uma ferramenta e ainda precisa de boas perguntas para fazer a diferença.

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