Editorial

O fim de uma era?

Pedido de recuperação judicial da Estrela expõe pressões como juros altos, crédito restrito, mudança no consumo e concorrência digital
O fim de uma era?
Foto: Reprodução YouTube Estrela

Há empresas cujas crises são apenas notícias de negócio. E há empresas cuja crise é também uma notícia de cultura. A Estrela é do segundo tipo.

Fundada em 1937 pelo imigrante alemão Siegfried Adler, que fugiu do nazismo em busca de uma nova vida no Brasil, a Manufatura de Brinquedos Estrela construiu quase nove décadas de história. Com o slogan “Toda criança tem uma Estrela dentro do coração”, a companhia conquistou gerações e transformou-se em referência no mercado de brinquedos. O pedido de recuperação judicial protocolado na quarta-feira (20), na Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais, encerra uma fase e, ao mesmo tempo, abre uma incerteza sobre o destino de uma das marcas mais afetivas do País.

A empresa cita, no fato relevante enviado à CVM, um conjunto de pressões que qualquer analista reconhece: custo de capital elevado, crédito restrito, mudança no comportamento de consumo e competição crescente de alternativas digitais. Nada disso é novo. O que é novo é que, dessa vez, o peso acumulado parece ter superado a capacidade de absorção da companhia.

A Estrela não é estreante em crises. A abertura do mercado nos anos 1990 trouxe concorrência intensa de fabricantes asiáticos. O rompimento da parceria de 30 anos com a Mattel, no final daquela mesma década, foi outro golpe. Em ambos os casos, a empresa sobreviveu, apostando no relançamento de clássicos e na memória afetiva como ativo estratégico. O Banco Imobiliário, o Autorama, o Genius e a Susi voltaram às prateleiras, e a marca se reinventou.

Dessa vez, o desafio é estrutural de uma forma mais profunda. O brinquedo físico perde espaço não apenas para concorrentes, mas para categorias inteiras de entretenimento que cabem num smartphone. A criança de hoje é disputada por plataformas de treamings, jogos digitais e redes sociais desde cedo. Nesse ambiente, vender caixas de papelão com peças de plástico exige um argumento que vai além do produto, e a Estrela tem esse argumento, a nostalgia, mas nostalgia não paga folha de pagamento.

O pedido de recuperação judicial, se bem conduzido, pode ser um caminho de reorganização real, não de rendição. A empresa afirma que mantém operações industriais, comerciais e administrativas, e que apresentará seu plano aos credores. A história da Estrela já passou por momentos em que o fim parecia certo e não veio. Se haverá mais um capítulo, ou se este é o último, só o processo dirá.

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