Caminhos sustentáveis

Quando o lixo diz mais sobre nós do que gostaríamos

Sem a devida destinação de todo o montante produzido, o Brasil ainda adota a perspectiva de que o lixo desaparece quando some da nossa vista

O Brasil produz tanto lixo que, se os números tivessem cheiro, já teríamos sido obrigados a encarar o problema há muito tempo. Mas como eles vêm em relatórios frios e pouco incômodos, seguimos empurrando com a barriga uma crise silenciosa que cresce a cada ano.

O Brasil gera anualmente mais de 85 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, segundo o Panorama da Abrelpe. Desse total, quase 40% ainda têm como destino lixões ou aterros controlados (estruturas poluentes e proibidas por lei), e a reciclagem representa apenas 4% do todo. Essa situação demonstra que o Brasil ainda adota a perspectiva de que o lixo desaparece quando some da nossa vista. Só que isso não acontece, ele se acumula, contamina, desperdiça recursos e está diretamente relacionado à perda de eficiência econômica, à crise climática, e pesados problemas sociais.

O mais irônico é que, enquanto desperdiçamos recursos que poderiam aumentar a riqueza do país, países ricos os tratam como oportunidade de energia, de riqueza, de regeneração ambiental. É aqui que entram soluções simples, inteligentes e totalmente possíveis de serem adotadas no Brasil.

Uma única tonelada de resíduos orgânicos, quando tratada corretamente, pode gerar biogás suficiente para abastecer de 8 a 12 casas por um dia. Em vez de metano escapando para a atmosfera, temos energia limpa substituindo combustíveis fósseis.

A mesma tonelada pode também virar 400 quilos de adubo natural, devolvendo nutrientes ao solo e reduzindo a dependência de fertilizantes químicos, o que ajuda na produtividade e reduz os custos dos alimentos.

Ou seja, aquilo que descartamos poderia estar nutrindo plantações, gerando energia, aumentando a segurança alimentar e reduzindo emissões, uma vez que a simples transformação de metano em CO2 (queima) já reduz bastante as emissões.

O investimento necessário para fazer isso acontecer depende do volume e da tecnologia utilizada: centros de compostagem tratam até 20 toneladas/dia e custam cerca de R$ 5 milhões, já as usinas de biodigestão anaeróbia processam até 50 toneladas/dia e custam cerca de R$ 30 milhões; as termelétricas de lixo processam 1.000 toneladas/dia, mas custam R$ 1,5 bilhão. Apenas para efeito de comparação, o Brasil gasta mais de R$ 13 bilhões por ano apenas para enterrar lixo, portanto, se utilizássemos apenas uma pequena parcela do que já gastamos, poderíamos estar financiando uma solução efetivamente duradoura.

Como se vê, o problema não é financeiro nem de tecnologia, mas de visão de futuro, de capacidade decisória, de gestão e da compreensão de que sustentabilidade não é discurso, é gestão inteligente de recursos.

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