Economia para Todos

Trabalho sem prosperidade

Narrativa oficial de baixo desemprego e aumento da renda se choca com a frustração popular nas ruas

O desemprego segue em patamares muito baixos, acompanhado pelo aumento da população ocupada e da elevação na remuneração. É inegável que isso é excelente! Contudo, a narrativa oficial se choca com a frustração popular. Pergunte para pessoas à sua volta e você notará certa frustração com a economia. Mas, o que explica esse “descompasso”?

Primeiramente, é preciso pontuar que esse sentimento não é particular de um ou outro cidadão. O Índice de Confiança do Consumidor, estagnado na zona de insatisfação, evidencia que a percepção do bem-estar tomou rumo oposto ao próspero mercado de trabalho.

Estudos sugerem que a melhora nos indicadores de emprego e renda se deve a transformações demográficas e educacionais de longo prazo, com uma força de trabalho mais instruída e velha. Quando isolamos essa herança, mantendo a estrutura etária e educacional de 2012 constante, a miragem do pleno emprego se desfaz. Sem esse bônus, o desemprego real seria de 6,8% e o rendimento médio cairia de R$ 3.507 para R$ 2.737, situando-se abaixo do nível pré-pandemia de 2019. Nessa concepção, a economia atual estaria surfando em uma onda gerada no passado, falhando em criar novos motores de produtividade.

A natureza das vagas reforça essa visão. O mercado de trabalho segue bastante aquecido, mas com forte concentração da mão de obra em ocupações de baixa produtividade e renda. Sete funções básicas absorvem 30% dos trabalhadores, lideradas por comerciantes e trabalhadores domésticos ou de limpeza, que ganham abaixo da média nacional. Ademais, embora o emprego formal tenha crescido mais que o informal após 2021, os salários reais com carteira assinada avançaram pífios 0,6% ao ano, enquanto a renda informal subiu 2,8%. Portanto, o mercado formal absorve trabalhadores sob condições salariais estagnadas, concentrando a expansão em postos de baixa qualificação.

Outro ponto relevante nessa percepção difusa é a inflação, especialmente a de alimentos. Desde o final de 2019, o custo da alimentação no domicílio disparou quase 20 pontos percentuais acima do IPCA cheio. E esse ‘imposto invisível’ pune especialmente a base da pirâmide. Para famílias que ganham entre 1 e 1,5 salário-mínimo, a comida saltou para 22% do orçamento. O trabalhador percebe que o dinheiro já não enche o carrinho na feira como antes. Ao corrigir o rendimento pela inflação de alimentos e isolar o bônus educacional, o poder de compra real do trabalhador despencou 3% ao ano entre 2019 e 2025.

Para frente, sobre qual fundação estamos construindo a estrutura de nossa economia? Enquanto a engrenagem atual gerar majoritariamente vagas de baixa remuneração e o prato de comida continuar pesando tanto no bolso, os recordes oficiais vão continuar parecendo uma prosperidade distante, que só existe no papel.

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