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Prestes a completar 80 anos, Acaiaca se reinventa como circuito cultural no Hipercentro de BH

Edifício histórico investe em roteiro cultural para atrair visitantes e revitalizar o Hipercentro de BH
Prestes a completar 80 anos, Acaiaca se reinventa como circuito cultural no Hipercentro de BH
Edifício Acaiaca foi construído na década de 40 para ser um dos maiores e mais modernos da América Latina | Foto: Diário do Comércio Leonardo Morais

A ambição já estava clara desde o início. “Será a mais alta edificação do gênero em toda a América Latina”, projetava a publicação belo-horizontina “Grifo”, em 1944, ao antecipar o papel que o Edifício Acaiaca poderia ocupar no Centro da Capital. Inaugurado três anos depois, o prédio confirmou a expectativa: 30 pavimentos, um dos maiores cinemas da cidade, abrigo antiaéreo em pleno contexto de guerra e um dos elevadores mais rápidos do País, consolidando-se como símbolo de modernidade e efervescência cultural na época.

Décadas depois, o contexto urbano e econômico redesenhou o papel do Centro de Belo Horizonte. A migração dos bancos para São Paulo e a saída de órgãos públicos esvaziaram a região, e o Acaiaca, assim como o Hipercentro ao redor, perdeu parte do protagonismo que já teve. Agora, o edifício inicia um movimento de reposicionamento, ancorado na valorização da sua história e na criação do Circuito de Entretenimento, Arte e Cultura (Ceac).

O projeto estrutura uma experiência contínua, do subsolo ao mirante. A visita guiada percorre espaços preservados, como o abrigo antiaéreo da Segunda Guerra Mundial, o painel original da artista mineira Iara Tupinambá, instalado na sede do Sindicato de Tecelagem, além da biblioteca pública municipal e da Fundação Logosófica. No topo, o terraço opera como espaço multiuso para eventos, enquanto o mirante combina gastronomia, vista privilegiada e apresentações musicais ao vivo.

Antônio Miranda
Foto: Diário do Comércio / Giulia Simmons

Na próxima etapa, a proposta avança para intervenções de maior impacto. Estão no radar um mirante 360° com piso de vidro sobre a Afonso Pena, uma tirolesa conectando o edifício ao Parque Municipal e a possibilidade de rapel pela fachada externa.

À frente desse processo, o síndico Antônio Miranda recebeu o Diário do Comércio, com exclusividade, para detalhar os projetos que buscam recolocar o Acaiaca no circuito turístico e cultural da Capital.

Miranda, você administra o Acaiaca há 10 anos e tem uma longa trajetória no edifício. De que forma a sua história se conecta com a do Acaiaca?

Conheço o prédio desde criança. Meu pai me trouxe aqui, no Centro da cidade, quando a construção estava terminando. Ele tinha uma família grande, éramos 10 filhos, sete mulheres e três homens, viemos do interior e morávamos perto de Venda Nova. Eu olhava para cima e tinha que curvar o pescoço para ver o Acaiaca.

Fiz uma viagem no elevador que ficou gravada na minha mente até hoje, e tive a impressão de estar num foguete. Na adolescência, trabalhei no Cinema Acaiaca, marcando a entrada das pessoas, porque a distribuidora Colômbia cobrava o aluguel do filme de acordo com a presença física, e há 10 anos retornei como síndico do prédio.

Desde então, o Acaiaca vem se modernizando para se tornar um centro cultural. Qual é a proposta desse projeto?

Estamos trabalhando no Circuito de Entretenimento, Arte e Cultura, o CEAC. Neste andar onde estamos, o espaço é aberto ao público de quinta a domingo, das 16h30 às 20h, com música ao vivo, bebida e comida. Já no 25º andar, temos um espaço voltado para eventos por demanda, como aniversários e casamentos. Teve até um casamento cuja festa aconteceu aqui: o cortejo saiu da Igreja São José, atravessou a Afonso Pena e subiu para o 25º andar.

O Acaiaca nasceu em plena Segunda Guerra Mundial, e o abrigo antiaéreo é um dos destaques desse período. Como ele foi preservado e o que o visitante encontra hoje nesse espaço?

O abrigo antiaéreo foi construído em plena Segunda Guerra Mundial, por conta de um decreto do presidente Getúlio Vargas que determinava que todo prédio com mais de cinco andares devesse ter um abrigo, devido à preocupação com a guerra química. Como o Acaiaca começou a ser construído em 1943, o abrigo foi feito junto. Com o tempo, o espaço estava sendo ocupado como depósito por uma empresa.

Nós resgatamos o espaço para o prédio e o abrimos para visitação. Recebemos escolas, realizamos palestras e, lá, temos uma sirene e um exaustor originais da época. Temos também quadros de artistas mineiros que fazem um contraste entre a guerra e a paz. Também está em andamento um projeto de teatro que vai encenar cenas da época da guerra no espaço.

Como a gestão concilia a necessidade de modernização com a preservação do patrimônio?

Temos um bom relacionamento com o Patrimônio Histórico de Belo Horizonte, que nos apoia muito nessa empreitada de revitalizar o Acaiaca. Antes de qualquer intervenção, fizemos um levantamento detalhado e temos registrado o que era antes e o que foi feito depois.

Tudo busca preservar a história, ao mesmo tempo em que traz atrações para que a população possa desfrutar do espaço.

Consegue citar alguns elementos originais que estão presentes no prédio até hoje?

O hall de entrada é da época original, muito interessante. O cinema, que hoje é ocupado por uma igreja, é tombado, e todas as poltronas estão conservadas na forma original. Os elevadores também são da época.

A fachada é tombada pelo patrimônio histórico do município e não pode ser alterada, só conservada. O que fazemos é trazer o conforto dos dias de hoje sem perder a característica original do prédio.

Minas Gerais é reconhecida por preservar tradições. Além da articulação para a preservação do patrimônio, de que forma o “toque mineiro” de fazer negócios aparece na gestão do edifício?

O mineiro é legitimado pela credibilidade e confiabilidade em todo o Brasil. Minas Gerais foi reconhecida como um dos destinos imperdíveis de 2026. Tudo o que fazemos aqui visa trazer o conforto dos dias de hoje sem perder a identidade original.

Eu, inclusive, escrevi um livro sobre o Edifício Acaiaca, mostrando todo o desenvolvimento, como começou e como está sendo preservado. Temos, inclusive, como meta receber visitantes internacionais, com transações em dólar e euro no futuro.

Como a revitalização do Hipercentro de Belo Horizonte se conecta ao desenvolvimento do Acaiaca como centro cultural?

O Acaiaca tem um papel fundamental nessa revitalização do Hipercentro de Belo Horizonte. O ex-prefeito Fuad Noman esteve aqui, viu nossos planos e nos apoiou muito. A atual gestão também nos dá todo o apoio.

O que aconteceu foi o seguinte: antigamente, o centro tinha muitos bancos, e Minas era considerada o centro bancário do País. Esses bancos migraram para São Paulo, as repartições públicas migraram com o centro administrativo, e a população saiu do centro para os bairros.

O nosso objetivo é trazer essa população de volta. Um dos projetos apresentados ao antigo prefeito foi a tirolesa, e sentimos que o atual prefeito também nos apoia nesse projeto.

Ambev, Sympla, Decolar…como o Acaiaca conseguiu atrair marcas desse porte para um prédio histórico no Hipercentro?

Firmamos um contrato com uma empresa de eventos, e é ela que atrai os parceiros, como a Ambev, a Decolar e outras empresas. Como condomínio, temos uma participação de 50% sobre o movimento gerado no prédio.

Essa parceria é fundamental também para a divulgação do edifício, porque atrai a população para o centro, e o centro vai ganhando vida.

Além do circuito cultural, como está o movimento nos demais andares?

O Acaiaca tem muitas clínicas médicas, consultórios de advogados, dentistas e escritórios de contabilidade. É um prédio bem procurado e, com as modificações que estão sendo feitas, a ocupação tem sido muito boa.

Falando de futuro…qual é o seu sonho para o Acaiaca daqui a 10, 15, 20 anos?

Vejo o Acaiaca como um dos pontos mais importantes de Belo Horizonte. Sonho com a tirolesa em pleno funcionamento, e brinco que vou ser o primeiro a descer na tirolesa. Também projetamos um piso de vidro como os que existem na Ásia, onde as pessoas possam caminhar sobre a cidade, além do rapel e de um elevador panorâmico chegando ao 30º andar, onde pensamos em instalar um farol que possa unir toda a cidade.

Contamos que a Prefeitura de Belo Horizonte, com os esforços para revitalizar o Hipercentro, nos apoie nesses projetos. O objetivo é que o Acaiaca se torne o principal ponto turístico de Belo Horizonte e que o Hipercentro volte ao brilho que eu vi nos anos 1950 e no início de 1960.

E o cinema, é um sonho também?

O cinema é um sonho, mas hoje é um imóvel particular. Não sei se os proprietários têm intenção de passar o espaço para uma empresa que volte a explorá-lo na sua concepção original. Enquanto isso, vamos trabalhando nas outras partes do edifício.

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