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Energia no mercado livre segue cara apesar da queda no curto prazo

Especialistas avaliam fatores que sustentam a alta nos contratos de médio e longo prazo, apesar da queda no curto prazo
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Energia no mercado livre segue cara apesar da queda no curto prazo
Foto: Reprodução Adobe Stock

Os preços da energia elétrica no mercado livre seguem em patamar elevado para contratos de médio e longo prazo, embora o mercado de curto prazo tenha registrado recuo nos últimos meses. A combinação entre a melhora das condições hidrológicas, maior geração de fontes renováveis e temperaturas mais amenas reduziu a pressão sobre o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). No entanto, especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio avaliam que alguns fatores continuam sustentando contratos acima dos níveis observados nos últimos anos.

Atualmente, conforme o conselheiro da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Felipe Sapucahy, os contratos de energia no mercado livre estão sendo negociados, em média, a R$ 320 por megawatt-hora (MWh). Um valor que é superior à média histórica, mas ainda considerado competitivo em relação ao mercado regulado, já que ainda proporciona economia para os consumidores. “É um patamar acima da média histórica, mas que ainda mantém o ambiente livre competitivo, oferecendo preços cerca de 12% inferiores aos praticados no mercado cativo”, afirma.

De acordo com Sapucahy, os preços permaneceram relativamente estáveis desde o início do ano, com oscilações próximas de R$ 10/MWh nos contratos futuros. Segundo ele, a ausência de mudanças regulatórias relevantes nos últimos meses e a melhora gradual dos reservatórios contribuíram para esse cenário. “O mercado tem acompanhado esse equilíbrio, mantendo uma expectativa mais estável para as contratações no curto e médio prazo”, destaca.

Contratos mais caros refletem mudanças

Há poucos anos era comum encontrar contratos com preços entre R$ 100 e R$ 150/MWh. Em 2026, porém, diversos contratos ultrapassaram R$ 300/MWh e, em alguns momentos, chegaram próximos de R$ 400/MWh. Para Sapucahy, esse movimento decorre da combinação entre um cenário hidrológico desfavorável ao longo do ano passado e alterações regulatórias implementadas na virada para 2026. “O cenário hidrológico mais desafiador ao longo de 2025 e as mudanças regulatórias que alteraram a dinâmica de formação de preços impulsionaram esse movimento”, afirma.

Nesse caso, o CEO da Lux Energia, Gustavo Sozzi, avalia que a alta também reflete uma transformação na metodologia de precificação da energia no Brasil. Segundo ele, os modelos oficiais passaram a incorporar maior aversão ao risco, atribuindo maior peso a cenários adversos, como hidrologias desfavoráveis, baixos níveis dos reservatórios e necessidade de maior despacho de usinas térmicas. “Não é apenas uma alta pontual de mercado. Parte relevante dessa diferença reflete uma mudança estrutural na forma de precificar energia no País. Os modelos passaram a valorizar mais a segurança energética e a proteção contra cenários adversos”, afirma.

O executivo acrescenta que fatores como maior incerteza climática, crescimento da demanda, necessidade de expansão da capacidade do sistema e o aumento de grandes consumidores, como data centers, também passaram a influenciar a curva futura dos preços.

Preços a curto prazo registram queda

No mercado de curto prazo, entretanto, o comportamento é diferente. O CEO da Lux Energia afirma que as referências para entregas imediatas vêm recuando. Segundo ele, a energia convencional para entrega em julho de 2026 está precificada em aproximadamente R$ 135/MWh, reflexo da melhora das chuvas, da maior disponibilidade hídrica, da redução das temperaturas e da expansão da geração solar e eólica.

Dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) mostram que os preços na região Sudeste, na qual Minas Gerais está inserida, chegaram a uma média de R$ 162, com picos de R$ 234/MWh. “É um mercado que vem apresentando movimento de queda. O preço de julho de 2026 está hoje próximo de R$ 135/MWh, refletindo a melhora das chuvas, temperaturas mais amenas, carga mais comportada e maior oferta renovável”, explica.

Felipe Sapucahy
Felipe Sapucahy, da Absolar: contratos de energia no mercado livre estão, em média, a R$ 320 MWh | Foto: Divulgação Absolar

Ainda conforme Sozzi, a expansão das fontes renováveis tem aumentado a sobra de energia em determinados períodos do dia, especialmente nas horas de maior geração fotovoltaica, pressionando o PLD para valores próximos ao piso em alguns horários. “Na prática, o curto prazo está caindo porque o mercado passou a enxergar menor necessidade de despacho térmico e menor risco operativo imediato. Ainda assim, essa queda é conjuntural e depende da continuidade das chuvas, da evolução da carga e da manutenção da oferta renovável.”

Volatilidade do PLD exige gestão de risco

Outro ponto de atenção para consumidores do mercado livre é a volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), utilizado para contabilizar a energia comprada ou vendida fora dos contratos.

Segundo Sapucahy, o indicador é altamente sensível às condições de oferta e demanda, especialmente às condições hidrológicas. “O PLD reflete as condições de oferta e demanda de energia no curto prazo e é fortemente influenciado pelas condições hidrológicas e pela modelagem matemática utilizada para preservar a segurança do sistema. Neste ano houve períodos em que o indicador superou R$ 350/MWh”, ressalta.

Para ele, embora essa volatilidade afete principalmente as operações de curto prazo, ela também influencia a formação dos contratos, que levam em consideração expectativas de consumo, oferta futura e condições de mercado.

Assim, na avaliação de Sozzi, oscilações do PLD acabam elevando o prêmio de risco embutido nos contratos. “Quando esse preço oscila muito, cresce o risco de quem fica exposto e, com ele, o prêmio de risco que os vendedores embutem nos contratos. Na prática, a volatilidade do curto prazo se transmite para a curva futura e encarece a proteção de longo prazo”, diz.

Estratégia pesa mais que o preço

Apesar das oscilações, os especialistas convergem ao afirmar que a decisão de contratação deve ir além da comparação entre preços. Para Sapucahy, uma estratégia adequada ao perfil de consumo é mais importante do que buscar apenas o menor valor. “Mais importante do que o menor preço é construir uma estratégia de contratação alinhada ao perfil de consumo e à exposição ao risco”, afirma.

Na mesma linha, Sozzi defende que a evolução do mercado depende de maior previsibilidade regulatória, aperfeiçoamento dos sinais de preço e expansão de soluções como armazenamento em baterias e resposta da demanda. “Para quem consome, o passo mais concreto é adotar contratação de longo prazo e gestão profissional de risco, em vez de decidir apenas pelo preço do momento”.

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