Plano Geral

Luiz Carlos Barreto: morre o industrial que foi a espinha dorsal do cinema brasileiro.

Artista essencialmente brasileiro, ele foi o grande promotor do inventário cinematográfico da nossa terra
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Aos 98 anos, no Rio, calou-se o homem que manteve o cinema brasileiro de pé quando o país parecia decidido a esquecê-lo. Produtor, diretor, fotógrafo e empresário, Barretão, como era conhecido por pares e adversários, viu sua carreira estender-se dos tempos imemoriais do Cinema Novo à fase da Retomada. Foi tudo o que a pátria subdesenvolvida costuma recusar: ousado, industrial e indispensável. Seus filmes – de Vidas Secas (1963) ao fenômeno Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) – não só contaram o Brasil; inventaram a possibilidade de sermos contemporâneos de nós mesmos.

Cearense de Sobral, chegou ao Rio com a mira de quem fotografava para O Cruzeiro e a fome de enxergar o país de perto. Quando esbarrou em Glauber Rocha logo após Barravento, em 1962, o acaso deu lugar à história.

Glauber o intimou a fotografar Vidas Secas, em 63, adaptação de Graciliano Ramos. Barreto alegava incapacidade. Afinal, a lente de revista não era a de um set. Glauber, claro, insistiu. Sobrou para o risco: os laboratórios da época tremiam diante da possibilidade de perderem negativos calejados pela aridez sertaneja. Perdurou a indagação: os laboratórios aguentariam a brutalidade daquela luz? Aguentaram. E o mundo conheceu a obra-prima em Cannes.

Fundada em 1963, sua produtora, a L.C. Barreto, transformou-se no motor de arranque de uma cinematografia que teimava em nascer. Por ali passaram A Hora e Vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos, e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha, além de tantas outras obras que moldaram nossa identidade nas telas.

Veio então a Era Embrafilme e a cartada definitiva: Dona Flor e Seus Dois Maridos, dirigido pelo filho Bruno Barreto. Com uma adaptação lustrosa de Jorge Amado feita para arrebatar o grande público – e não a elite intelectual -, o filme pulverizou recordes com 11 milhões de espectadores, reinando por décadas como o campeão absoluto da bilheteria nacional.

Quando o vento mudou e o collorismo jogou o cinema brasileiro às traças, Barretão virou figurinha fácil em Brasília fazendo lobby para que o moribundo cinema brasileiro pós-Collor renascesse através de uma legislação no mínimo digna.

Barreto driblaria as dificuldades da Retomada, nos anos 1990, emplacando dois títulos como candidatos ao Oscar: O Quatrilho (1995) e O Que É Isso, Companheiro? (1997).

A sua morte simboliza também a morte de uma certa ideia de cinema brasileiro. No dia em que não houver mais cinema e todos os filmes já feitos tiverem se gaseificado, os admiradores de Barretão dormirão sossegados – pois uma cópia de O Beijo no Asfalto (1981), escondida num cofre ou arquivo, pronta pra ser relançada.

Barreto sobreviverá gloriosamente à desmemória brasileira. Afinal de contas, o essencial está feito. E permanecerá.

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Sobre o autor

Thiago Barcellos

Cineasta, crítico de cinema e mestre em artes. Pesquisa o cinema a partir das narrativas audiovisuais e de suas construções estéticas e afetivas, com foco na linguagem e na experiência do olhar.

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