Novas tarifas dos EUA: o alvo é a manufatura
Entrou em vigor, no último dia 22, a tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos (EUA) sobre cerca de 3 mil produtos brasileiros. A medida resulta de investigação do escritório comercial americano (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que apontou práticas brasileiras desleais em comércio digital, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
Trata-se de um instrumento mais sólido do que o tarifaço de 2025, que foi derrubado pela Suprema Corte americana no início do ano. A nova sobretaxa soma-se às alíquotas existentes e faz do Brasil o segundo país mais tarifado pelos EUA, atrás apenas da China, segundo a Global Trade Alert.
Quem paga e quem escapa
Após consultas públicas, a lista de exceções cresceu para 2.126 códigos tarifários, preservando carne bovina, café, suco de laranja, petróleo, gás natural, ferro-gusa e componentes aeroespaciais. Aço e alumínio seguem sob regime específico a 50%. Segundo análises, o desenho poupa os gigantes da pauta e concentra o ônus na manufatura: máquinas e equipamentos lideram os itens expostos. Papel, etanol, açúcar, granito, madeiras, equipamentos elétricos e industriais tiveram pedidos de isenção rejeitados.
Impacto: estimativas e riscos
O Ministério do Desenvolvimento estima que a medida alcança de 15% a 18% das exportações aos EUA, entre US$ 5,8 bilhões e US$ 7,4 bilhões. A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) aponta cerca de US$ 11 bilhões sujeitos à sobretaxa. O pano de fundo é adverso. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), as vendas ao mercado americano recuaram 13% no primeiro semestre de 2026, com queda de 8,7% nos bens industriais. Há ainda o risco adicional de uma segunda investigação sobre trabalho forçado, que poderá acrescentar 12,5%, elevando a taxação de parte dos produtos a 37,5%.
O que está ao alcance das empresas
O governo brasileiro recorrerá à Organização Mundial do Comércio (OMC) e iniciará trâmites da Lei de Reciprocidade. Mas a experiência de 2025 mostrou que as empresas não podem esperar. Em resumo, elas devem mapear a exposição real, produto a produto, aproveitando a regra de transição que isenta embarques anteriores a 22 de julho; diversificar mercados com método, aproveitando o acordo Mercosul-União Europeia; intensificar a agenda de custos e produtividade, pois parte da tarifa será disputada em margem; preparar cenários para as próximas decisões de Washington (EUA).
A lição que fica é conhecida. Choques externos encontram empresas em estágios muito diferentes de preparo. A tarifa é um problema de política comercial. Atravessá-la bem é, sobretudo, um problema de gestão.
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