O resgate da verdade no ano eleitoral
A menos de cem dias do pleito de outubro, as redes sociais e o ecossistema digital operam em rotação máxima, funcionando como usinas de polarização e desinformação. Colabora para isso a postura passiva de parte da mídia tradicional. Ao abdicar do jornalismo de questionamento incansável e da confrontação de dados oficiais, a imprensa abre espaço para pseudocelebridades e para a replicação chapa-branca da publicidade governamental.
“Jornalismo é questionar, o resto é chapa-branca”, nos ensina a célebre máxima de Joseph Pulitzer. Diante das urnas eletrônicas, que em breve receberão seis votos de cada cidadão, nunca foi tão urgente exercer esse contraponto. Precisamos comparar os discursos com a realidade dura vivida por mais de 200 milhões de brasileiros.
Os discursos de campanha frequentemente se gabam de o Brasil estar entre as maiores economias do planeta, ostentando um PIB trilionário. No entanto, os candidatos silenciam o nosso vergonhoso posicionamento no ranking. Estagnado abaixo da média mundial, esse indicador escancara a discrepância entre a riqueza teórica do País, a brutal concentração de renda e a péssima qualidade de vida de sua população.
O fracasso das políticas públicas sociais ganha contornos dramáticos nos dados do mercado de trabalho. O crescimento do emprego formal é comemorado, mas a verdade é que quase metade do País vive na dependência crônica da transferência de renda do Estado. O sucesso deveria ser medido pelo número de famílias que conquistam a emancipação e deixam de depender dele, e não pela perpetuação de sua necessidade.
Oferecer mais do mesmo, maquiado por slogans eleitorais, compromete o futuro das próximas gerações, enquanto os indicadores de educação continuam patinando em patamares medíocres.
O Estado brasileiro não sofre por falta de arrecadação, mas por uma incapacidade de gestão, gerando serviços de saúde e segurança deploráveis enquanto financia uma estrutura perdulária.
A verdadeira transformação exige que o eleitor faça perguntas desconfortáveis aos candidatos, e que a imprensa as ecoe diariamente: Qual fatia da trilionária arrecadação será carimbada para investimentos reais em infraestrutura e saneamento básico? Qual é a meta objetiva para tirar milhões de famílias da dependência estatal rumo à ascensão social?
A reconfiguração do Estado passa por reformas institucionais profundas. A começar pela moralização e aperfeiçoamento técnico dos órgãos de controle.
A regeneração moral exige o fim do foro privilegiado para qualquer detentor de mandato eletivo, a proibição absoluta da reeleição para cargos do Executivo e a transformação dos crimes de corrupção e lesão à administração pública em delitos imprescritíveis.
O voto consciente em outubro não pode ser moldado por algoritmos de ódio nem por peças publicitárias criadas para pintar um país de fantasia. Rádios, televisões, jornais e portais de internet precisam resgatar com urgência o seu papel de farol crítico e isento. Somente municiado com informações verdadeiras e análises despidas de paixões partidárias, o eleitorado poderá romper o círculo vicioso de promessas estéreis e iniciar, de fato, a reconstrução do Brasil.
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