A nova paternidade e a liderança
No Dia dos Pais, é comum celebrarmos histórias de afeto, dedicação e presença. Mas talvez esta seja também uma oportunidade para refletirmos sobre algo maior: a forma como a sociedade vem redefinindo o papel dos pais e, silenciosamente, transformando também as organizações.
Durante muito tempo, esperava-se que um bom pai fosse, sobretudo, um bom provedor. A participação cotidiana na criação dos filhos e o cuidado eram vistos, muitas vezes, como responsabilidades predominantemente femininas. Esse modelo não desapareceu, mas já não parece suficiente.
Cada vez mais homens desejam exercer uma paternidade construída pela presença, pelo diálogo e pelo compartilhamento das responsabilidades familiares. É verdade que ainda estamos longe de uma distribuição equilibrada: estudos da socióloga Arlie Hochschild mostram que as mulheres seguem assumindo a maior parte do trabalho invisível do cuidado da casa e da família. Mas também cresce o desejo de ocupar um lugar diferente daquele aprendido pelas gerações anteriores.
Talvez a mudança mais importante esteja na forma como compreendemos o próprio significado do cuidado. A cientista política Joan Tronto defende que cuidar não é uma característica feminina, mas uma responsabilidade humana e coletiva, o que ajuda a entender por que discussões da vida privada produzem efeitos muito além dela.
As organizações são um exemplo disso. Durante décadas, a liderança foi associada quase exclusivamente à capacidade de controlar, decidir rapidamente e demonstrar firmeza. Hoje, sem abrir mão da competência e dos resultados, esperamos também que ela seja capaz de desenvolver pessoas, construir confiança e criar ambientes de aprendizado e colaboração. Essa mudança não nasceu dentro das empresas: reflete uma sociedade que passou a valorizar mais a qualidade das relações humanas.
Edgar Schein, um dos mais influentes estudiosos da cultura organizacional, lembrava que a cultura das organizações se forma a partir das experiências e valores de quem faz parte delas. Na mesma direção, Herminia Ibarra mostra que a liderança evolui quando evoluem as identidades e expectativas sociais.
Em Minas Gerais, onde convivem empresas centenárias, indústria diversificada e um setor de mineração em transformação, compreender essas mudanças culturais deixou de ser sensibilidade social. Tornou-se questão estratégica: atrair, desenvolver e reter talentos depende da capacidade das organizações de responder a novas expectativas sobre trabalho, família e relações.
Neste Dia dos Pais, mais do que celebrar uma data, vale reconhecer que as famílias continuam sendo um dos espaços onde as grandes mudanças culturais começam. E que, mais cedo ou mais tarde, elas atravessam os portões das organizações.
Porque culturas organizacionais não se transformam apenas por decisão. Elas mudam quando as pessoas mudam. E as pessoas mudam quando novas formas de viver, trabalhar, cuidar e construir relações passam a fazer sentido.
Talvez essa seja a maior lição que a nova paternidade oferece às organizações: as mudanças mais profundas da liderança raramente começam nas empresas. Começam na sociedade, nas famílias, nas relações. As organizações apenas tornam visível o que o mundo já começou a transformar.
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