Inadimplência de aluguel cai em Minas Gerais; veja o que está por trás da queda

Índice recuou para 2,77% em julho, segundo menor patamar do ano; emprego, renda e menor pressão dos reajustes ajudam a explicar o resultado
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Inadimplência de aluguel cai em Minas Gerais; veja o que está por trás da queda
Foto: Diário do Comércio/Ana Carolina Dias

O índice de inadimplência de aluguel em Minas Gerais ficou em 2,77% em julho. O resultado, segundo menor deste ano, representa uma queda de 0,32 ponto percentual (p.p.) em comparação com junho, quando estava em 3,09% (mais detalhes no infográfico abaixo). Na comparação com o mesmo mês de 2025 (4,45%), a redução foi ainda maior, de 1,68 p.p. Os dados são do Índice de Inadimplência Locatícia (IIL) da Superlógica, plataforma de soluções tecnológicas e financeiras para os mercados condominial e imobiliário.

Para o vice-presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis de Minas Gerais (Sindimóveis-MG), Leandro Chaves, dois fatores ajudam a explicar a queda do IIL no Estado. O primeiro é a redução da taxa de desemprego, que recuou 1,2 ponto percentual no segundo trimestre, de 5% para 3,8%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficando abaixo da taxa nacional, de 5,4%. Conforme o dirigente, mais pessoas empregadas significam mais inquilinos com condições de manter o pagamento do aluguel em dia.

“O segundo motivo é o reajuste. O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) acumula apenas 2,76% em 12 meses e vem registrando variações negativas nos últimos meses. Isso significa que o aluguel praticamente não subiu no último ano, enquanto a renda subiu; assim, o peso do aluguel no orçamento da família diminuiu”, explica.

Chaves também avalia que a profissionalização do setor, marcada por análises de crédito mais criteriosas na entrada, maior uso de seguro-fiança e título de capitalização, além da adoção de cobranças digitais, com Pix e boleto automático, reduz os atrasos por esquecimento.

Alívio nas despesas favorece pagamentos em dia

Complementando as análises de Leandro Chaves, a vice-presidente da Câmara do Mercado Imobiliário de Minas Gerais e do Sindicato de Habitação (CMI/Secovi-MG), Gabriela Lara, acrescenta um componente sazonal à análise do cenário.

“Estamos em um mês do ano em que as obrigações financeiras deram uma trégua na comparação com o acúmulo de pagamentos do início do ano. Isso pode ajudar na diminuição dos atrasos nos pagamentos de aluguel”, pontua.

Assim como Chaves, ela também atribui a queda da inadimplência locatícia ao aumento do emprego formal e às estruturas de cobrança adotadas pelas empresas imobiliárias.

Índice menor não significa fim do endividamento

O Índice de Inadimplência Locatícia revela ainda que, em julho, Minas Gerais permaneceu abaixo tanto da média nacional, de 3,05%, quanto da região Sudeste, de 2,78%. Esse desempenho, segundo o economista e professor do Centro Universitário UniBH Fernando Sette, sugere uma situação relativamente favorável dos inquilinos mineiros, mas não significa necessariamente uma redução do endividamento.

“A inadimplência locatícia mede especificamente a capacidade de pagamento do aluguel. É perfeitamente possível uma família priorizar moradia e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades com cartão de crédito, empréstimos ou outras obrigações”, esclarece.

Segundo Sette, o resultado também representa um sinal positivo para o próprio mercado imobiliário. Uma inadimplência menor reduz o risco percebido pelo proprietário, melhora o fluxo de caixa das imobiliárias e tende a tornar a locação mais previsível. Esse cenário, conforme o economista, pode favorecer a oferta de imóveis e reduzir a necessidade de incorporar um prêmio de risco elevado aos contratos.

“O resultado mineiro deve ser interpretado, portanto, como uma combinação de capacidade de pagamento relativamente melhor e funcionamento mais saudável do mercado locatício, e não simplesmente como ausência de dificuldades financeiras”, reforça.

Índice de inadimplência de aluguel em Minas Gerais tem queda em julho

Menor risco pode estimular oferta de imóveis para locação

Leandro Chaves afirma que o principal efeito da queda da inadimplência de aluguel é a ampliação do espaço para negociação entre proprietários e inquilinos. Com um risco menor, o proprietário tende a flexibilizar as exigências de garantia e a aceitar contratos mais longos. “E, com o IGP-M em 2,76%, os reajustes deste ano chegam bem comportados, o que reduz o atrito na renovação e ajuda a manter o bom inquilino no imóvel, o que é o melhor negócio para o proprietário”, diz.

Ainda segundo o vice-presidente do Sindimóveis-MG, o cenário também favorece o investidor que compra imóveis para obter renda com locação.

Economista vê cenário positivo, mas evita falar em mudança estrutural

Apesar dos resultados positivos da pesquisa, especialmente na comparação interanual, que reduz parte dos efeitos sazonais, Fernando Sette é cauteloso ao classificar o cenário como uma mudança estrutural, principalmente porque o índice nacional vinha apresentando pequenas oscilações nos meses anteriores.

Para os próximos meses, o economista avalia que emprego, renda, inflação e juros serão as principais variáveis a serem acompanhadas. Segundo ele, se Minas Gerais continuar criando empregos e preservando a renda real, é possível que a inadimplência permaneça em patamar historicamente baixo.

“Por outro lado, juros elevados, aumento do comprometimento da renda ou desaceleração da atividade podem interromper essa trajetória”, destaca.

Nesse sentido, o economista avalia que, mais importante do que uma nova queda pontual, será verificar se o índice mineiro consegue permanecer próximo ou abaixo de 3% durante vários meses. “Aí teremos evidência mais consistente de uma mudança estrutural na capacidade de pagamento dos inquilinos”, conclui.

Imóveis de até R$ 1 mil têm maior inadimplência no País

Em Minas Gerais, o índice médio do primeiro semestre deste ano ficou em 2,97%, acima dos 2,91% registrados nos primeiros seis meses de 2025, mas abaixo dos 3,72% verificados no segundo semestre do ano passado.

No Sudeste, os imóveis comerciais continuam apresentando a maior taxa de inadimplência de aluguel, mas registraram queda em julho, passando de 3,9% em junho para 3,82%, uma redução de 0,08 ponto percentual. Em seguida, aparecem as casas, com índice de 3,11%, queda de 0,17 p.p. ante os 3,28% registrados no mês anterior. Já os apartamentos ficaram praticamente estáveis, passando de 2,02% em junho para 2,01% em julho, recuo de 0,01 p.p.

Em âmbito nacional, a análise por faixa de valor apontou que os imóveis comerciais de até R$ 1 mil apresentaram queda de 0,13 p.p. Ainda assim, concentram a maior taxa de inadimplência, de 7,27%, bem acima da média nacional. Entre os imóveis residenciais, a faixa de até R$ 1 mil também apresenta o maior índice de inadimplência, de 5,99%.

Como o índice de inadimplência é calculado?

O Índice de Inadimplência Locatícia da Superlógica é um levantamento mensal elaborado com dados internos da plataforma e apresenta o cenário da inadimplência no mercado brasileiro de locação imobiliária. O indicador considera o valor do boleto, o tipo de imóvel (apartamento, casa ou comercial), a localização e as datas de vencimento e pagamento para identificar a ocorrência ou não de inadimplência.

Esta edição do estudo contou com dados de mais de 800 mil clientes locatários em todo o Brasil. São considerados inadimplentes aqueles que possuem boletos em aberto há mais de 60 dias ou que realizaram o pagamento com atraso superior a 60 dias. Segundo a Superlógica, todos os dados são anonimizados e não podem ser associados, direta ou indiretamente, a um indivíduo.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas