Economia da Zona da Mata se recupera após chuvas, mas possível ‘Super El Niño’ liga alerta
Sete meses depois da tragédia que assolou Ubá, Juiz de Fora e outras cidades da Zona da Mata de Minas Gerais, as economias desses municípios mostram reação e estão se aproximando da normalidade.
Comércio, indústria e demais atividades econômicas voltaram a funcionar, gerando recursos e renda para as populações dos municípios, mas ainda há trabalho pela frente. Apesar da recuperação, ainda há a necessidade de ações afirmativas para socorrer quem precisa de suporte que mantenha os negócios abertos.
“Houve uma retomada importante, mas não podemos afirmar que a economia da Zona da Mata esteja plenamente recuperada”, disse a presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), regional Zona da Mata, Mariângela Miranda Marcon.
“Muitas empresas já voltaram a produzir, e isso demonstra a capacidade de reação e a resiliência do nosso setor produtivo. Entretanto, retomar a produção não significa necessariamente recuperar integralmente as perdas econômicas”, completa Mariângela Marcon.
Incentivos foram importantes
A retomada econômica de Ubá e região está sendo possível também graças a programas que injetam recursos para concessão de crédito e estruturas que auxiliam na reorganização dos negócios.
Em Ubá, micro e pequenas empresas (MPEs) e microempreendedores individuais (MEIs) tiveram acesso a uma linha de crédito emergencial de até R$ 10 mil, sem cobrança de juros, para ser paga em até 36 vezes.
Já Juiz de Fora contou com a ajuda da Fiemg para obter R$ 14 milhões em recursos para obras de infraestrutura no distrito industrial da cidade. Essas e outras iniciativas deram o passo inicial na retomada. Todavia, ainda há uma longa caminhada.

Agentes de diversos segmentos econômicos e públicos, como Sebrae, Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e os poderes municipais das cidades atingidas, além do Estado e do governo federal, também abriram linhas de crédito para facilitar a reconstrução. O volume chegou a R$ 2,5 bilhões destinados para empresas e cidades terem “fôlego” na hora de recomeçar.
“Existem empresas que precisam recompor patrimônio, recuperar investimentos, reorganizar seu fluxo financeiro e reconstruir sua capacidade de crescimento. Também permanecem gargalos históricos de infraestrutura, logística e segurança para a atividade industrial”, comenta Mariângela Marcon.
Super El Niño no radar
A possibilidade de um novo evento natural que possa gerar danos econômicos e sociais levou as cidades da Zona da Mata a entrar em “modo alerta”. E, com a possibilidade de mudanças climáticas extremas e menos previsíveis graças à ação do El Niño, que tem potencial para se tornar “Super El Niño”, a pauta da prevenção virou obrigatória.
“A possibilidade de um El Niño com intensidade muito forte nos próximos meses exige que a Zona da Mata trate a prevenção como prioridade. Depois dos eventos climáticos extremos que atingiram a região no início de 2026, não podemos esperar que uma nova emergência aconteça para então agir”, avalia a presidente da Fiemg, regional Zona da Mata.
Imprevisibilidade
O coordenador de Mercado de Energia da Fiemg, Sérgio Pataca, traz um alerta mais preocupante sobre o El Niño, pois a previsão de maior intensidade do fenômeno pode ocorrer de outubro a dezembro deste ano, o que o torna imprevisível quanto às suas consequências.
“O El Niño não é só um problema climático. O problema é a falta de previsibilidade. O El Niño gera uma incerteza climática, e não só climática, mas incerteza de tudo que depende do clima: a questão de chuvas, água, temperatura, etc. Logo, ele pode alterar o custo da energia para mais ou para menos, pode alterar a disponibilidade de água, pode mudar a questão logística também, com a quantidade de chuvas”, disse.
Chuvas em excesso podem causar situações como a que aconteceu no Rio Grande do Sul e em Ubá, com a interdição de grandes rodovias e tudo mais, afetando as matérias-primas que dependem desse regime de chuvas e da questão de temperatura, além de outros pontos, porque realmente é um fenômeno climático muito forte”, completa Pataca.
Olhar atento
Pataca destaca que há uma atenção com temas como logística, estradas e energia, mas pouco se fala da questão da água. E, entendendo que esse contexto da água precisa de atenção, a indústria se modernizou e investiu no reuso da água.
“Tem de ficar atento, pois ainda há indústrias que, se enfrentarem um regime hidrológico muito baixo, podem até parar sua produção. Muitas indústrias precisam da disponibilidade de água nos seus processos industriais, principalmente a indústria têxtil e a indústria de alimentos e bebidas, que são grandes consumidoras de água”, comenta o especialista.
Mariângela Marcon vai além e afirma que o monitoramento permanente das condições meteorológicas, dos níveis dos rios e dos sistemas de alerta e comunicação rápida, além da melhoria das estruturas urbanas, são vitais para proteger os parques industriais e garantir a continuidade das atividades econômicas.
“O aprendizado das chuvas de fevereiro deste ano precisa ser transformado em política permanente de prevenção. A região não pode simplesmente reconstruir o que foi perdido e permanecer vulnerável ao próximo evento”, finaliza Mariângela.
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