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O sistema financeiro ainda não acompanha a profissionalização da economia criativa

Os desafios na gestão de influenciadores e na proteção de ativos com o avanço creator economy
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Durante anos, citar economia criativa (creator economy) significava audiência: seguidores, alcance, engajamento, visualizações e, por fim, a monetização – o salto mais importante do setor que permitiu transformar influência em receita. Hoje, a saturação desse mercado pede outra coisa: a profissionalização. Já sabemos que dá para ganhar dinheiro sendo influenciador, mas como passar credibilidade e proteger seu patrimônio principal: a propriedade intelectual? O que começou como atividade individual passou a exigir gestão, estrutura societária, planejamento financeiro e acesso a capital.

Os números ajudam a dimensionar essa mudança. A indústria criativa brasileira movimentou R$ 393,3 bilhões em 2023, o equivalente a 3,59% do PIB nacional. No mesmo ano, o país tinha 1,262 milhão de profissionais criativos formalmente empregados, um crescimento de 6,1% sobre 2022, quase o dobro dos 3,6% do mercado de trabalho como um todo.

Essa expressiva capacidade de evolução do setor revela uma realidade que dificulta a saudabilidade do caixa de quem cria. Enquanto as entregas são rápidas, o pagamento nem sempre. Um criador pode ter contratos com grandes marcas, receita de licenciamento, publicidade, royalties e participação em outros negócios. Uma produtora pode entregar projetos para empresas de primeira linha com equipes de dezenas de profissionais. Uma agência pode carregar receita já contratada para os próximos meses. Mesmo assim, quando esses negócios batem na porta do sistema financeiro, costumam ser avaliados pelas mesmas métricas pensadas para empresas de receita linear e previsível de um sistema tradicional que dá conta de explicar como esses modelos de negócio funcionam.

Um negócio criativo não funciona como uma fábrica ou uma rede de varejo, com receita mensal e previsível. Funciona por projeto, como contratos e campanhas pontuais que podem levar de 60 a 180 dias para serem remunerados. Além disso, o que sustenta o valor deste trabalho entregue, muitas vezes, não é palpável: a propriedade intelectual – uma marca registrada, um formato de conteúdo, um catálogo, um personagem, a reputação construída com clientes ao longo dos anos e um histórico comprovado de entregar o que promete. O sistema financeiro tradicional tem dificuldade de enxergar isso como um entregável.

Isso fica evidente na análise de crédito. Para uma empresa tradicional, a avaliação costuma começar por quanto ela faturou, qual é seu patrimônio e qual seu histórico financeiro. Mas um negócio que vive de projetos pede outros parâmetros de avaliação: quem contratou, quem vai pagar, se existe um contrato validado, qual o prazo, qual o histórico entre as partes. Na prática, um pequeno negócio criativo pode ter R$ 200 mil a receber de uma grande companhia daqui a três meses e, mesmo assim, ter dificuldade para pagar a equipe hoje. O risco existe, mas ele está tanto em quem pede o dinheiro quanto em quem vai pagar e no contrato que sustenta esse recebimento.

Esse tipo de acesso é o que determina qual empresa poderá crescer. O acesso inadequado (ou inexistente) ao capital pode forçar um negócio saudável a recusar projetos, cortar equipe ou bancar grandes clientes com recursos próprios. Ou, pior, deixar de existir por falta de oportunidade.

A profissionalização da creator economy é sobre infraestrutura. Os contratos precisam acompanhar o tamanho das operações. A organização tributária deve ser adequada. A governança e a gestão de propriedade intelectual, assim como o controle de caixa e a diversificação de receitas necessitam de tratamento adequado.

A indústria já mostra sinais de escala: só São Paulo concentra cerca de 40,9% dos empregos criativos formais do Brasil, aproximadamente 517 mil profissionais, segundo a Firjan. O desafio vai além de tentar encaixar esses negócios em versões menores de empresas tradicionais e constituem-se em construir estruturas que entendam como eles de fato funcionam. Criadores já estão construindo empresas, agora é o mercado financeiro, jurídico e empresarial que vai aprender a lê-las.

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Luiz Octávio Gonçalves Neto
Sobre o autor

Luiz Octávio Gonçalves Neto

CEO do Grupo DUX, holding de soluções para a economia criativa. O grupo reúne o ANTI, operação financeira voltada à antecipação de recebíveis e outros serviços para negócios criativos, e a BASE, especializada na estruturação jurídica, financeira e estratégica de empresas do setor.

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