Bloqueio europeu preocupa cadeia de carnes em Minas; entidades questionam a medida

Minas exportou US$ 1,09 bilhão em carnes até julho; apesar da menor exposição ao mercado europeu, setor alerta para possíveis impactos sobre subprodutos e frigoríficos
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Bloqueio europeu preocupa cadeia de carnes em Minas; entidades questionam a medida
Foto: Reprodução/ Adobe Stock

Minas Gerais exportou US$ 1,09 bilhão em carnes até julho de 2026, segundo dados do governo federal. Agora, a suspensão da entrada de produtos de origem animal brasileiros na União Europeia (UE) coloca o setor em alerta. Embora os países do bloco europeu representem uma parcela menor das vendas externas mineiras de carne bovina, representantes dos frigoríficos apontam possíveis impactos sobre os subprodutos e defendem uma atuação técnica e diplomática para tentar reverter a medida.

A suspensão entrou em vigor nessa quinta-feira (3) e impede a entrada de novas cargas brasileiras de carne bovina, de frango e suína, além de mel, pescados e ovos, nos 27 países-membros da UE. A justificativa para o bloqueio é que os mecanismos brasileiros de controle do uso de antimicrobianos não ofereceriam garantias suficientes para comprovar o cumprimento das exigências europeias.

A decisão, no entanto, não decorre da identificação de contaminação ou de irregularidades sanitárias em lotes brasileiros. O governo brasileiro contesta a avaliação europeia e trabalha para demonstrar que os mecanismos de controle adotados pelo País atendem às exigências do bloco.

União Europeia tem participação menor nas exportações mineiras

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que Países Baixos e Itália, principais destinos da União Europeia para a carne bovina mineira, receberam juntos US$ 23,4 milhões do produto in natura até julho. Foram US$ 13,6 milhões e 1.216 toneladas para os Países Baixos e US$ 9,8 milhões e 1.219 toneladas para a Itália.

Os valores são inferiores aos registrados nos principais mercados da carne bovina mineira. A China recebeu US$ 407 milhões do produto, em 66,4 mil toneladas, enquanto os Estados Unidos importaram US$ 89,4 milhões, correspondentes a 13,8 mil toneladas.

Na avaliação do diretor executivo da Associação dos Frigoríficos de Minas Gerais, Espírito Santo e Distrito Federal (Afrig), Marcílio de Sousa Magalhães, a menor participação do mercado europeu reduz o impacto direto do bloqueio sobre as exportações mineiras de carne bovina. “Em relação à carne bovina, o impacto não é tão significativo”, avalia.

A menor exposição da carne bovina não elimina, porém, possíveis reflexos sobre os frigoríficos. Uma das preocupações está nos subprodutos obtidos durante o processamento dos animais, como couro, chifres, tendões e ossos.

Subprodutos ampliam preocupação dos frigoríficos

Embora tenham menor participação nas exportações, os subprodutos representam uma parcela relevante da rentabilidade dos estabelecimentos frigoríficos, segundo Magalhães. Na avaliação do dirigente, uma redução das possibilidades de comercialização desses itens no exterior pode pressionar os preços obtidos pelos frigoríficos. “Então isso vai acabar impactando diretamente no valor desse subproduto que fica no frigorífico brasileiro”, observa.

A dimensão dessa cadeia também aparece nos dados do MDIC. Até julho, Minas Gerais exportou US$ 33,5 milhões em couros, produtos de couro e peleteria, com volume informado de 18,1 mil toneladas. “É importante destacar que o subproduto, que são tendões, ossos, chifre, couro, é uma parte muito significativa da rentabilidade dos estabelecimentos frigoríficos”, ressalta o dirigente.

Assim, mesmo com a menor participação europeia nas exportações de carne bovina do Estado, os efeitos do bloqueio podem alcançar outras etapas da atividade frigorífica além da venda da carne ao bloco.

Frango mineiro também é vendido ao bloco europeu

A carne de frango também tem participação do mercado europeu nas exportações mineiras. Até julho, os Países Baixos receberam US$ 6,8 milhões do produto, correspondentes a 2,9 mil toneladas. Assim como ocorre com a carne bovina, porém, os principais destinos estão fora da União Europeia. A China recebeu US$ 33,7 milhões e 11,9 mil toneladas, enquanto os Emirados Árabes Unidos importaram US$ 32,1 milhões e 16,3 mil toneladas.

No caso das miudezas de carne bovina, Alemanha e Espanha receberam US$ 1,3 milhão cada uma. Os embarques somaram 276 toneladas para o mercado alemão e 316 toneladas para o espanhol. Hong Kong, por outro lado, recebeu US$ 7,8 milhões e 2.763 toneladas, enquanto a Indonésia recebeu US$ 3,6 milhões e 2,1 mil toneladas.

No acumulado até julho, as exportações mineiras de carne bovina somaram US$ 778 milhões e 135,7 mil toneladas. A carne de frango respondeu por US$ 248 milhões e 119 mil toneladas, enquanto a suína alcançou US$ 53,6 milhões e 27,1 mil toneladas. Minas Gerais também exportou US$ 8,1 milhões em ovos e gemas, correspondentes a 4,9 mil toneladas.

Entidades avaliam aspectos técnicos e comerciais da medida

A natureza da decisão europeia também entrou no debate entre as entidades do setor. Para o presidente do Sistema Faemg Senar, Antônio Pitangui de Salvo, é necessário avaliar se a exigência apresentada pela União Europeia é exclusivamente técnica ou se há também uma questão comercial envolvida. “A questão precisa ser tratada com clareza: é uma exigência técnica ou existe também uma questão comercial envolvida?”, questiona.

A avaliação, segundo ele, é importante para definir a estratégia brasileira diante do bloqueio. Caso a questão seja estritamente técnica, o caminho seria demonstrar os mecanismos de controle adotados pelo País. Se houver também uma dimensão política ou comercial, a negociação deverá envolver os canais diplomáticos e o governo brasileiro. “A pecuária de Minas Gerais e do Brasil tem qualidade, escala e competitividade reconhecidas internacionalmente”, defende Salvo.

Magalhães também considera que os aspectos técnico e político precisam ser observados. Na avaliação do dirigente, barreiras sanitárias podem ser utilizadas em disputas entre países e, por isso, a dimensão política não deve ser desconsiderada. “A política muitas vezes se utiliza das questões técnicas para resolver os seus problemas”, afirma.

O diretor executivo da Afrig também relaciona a medida ao contexto do acordo entre Mercosul e União Europeia e à resistência de parte dos produtores rurais europeus. “Então, de fato, a gente percebe que essa questão do acordo com a União Europeia incomodou muito a classe pecuarista e a classe rural da União Europeia”, diz.

Diante desse cenário, as entidades defendem que a resposta brasileira ocorra simultaneamente nos campos técnico e diplomático.

Auditoria pode definir próximos passos

Paralelamente às discussões do setor, o Brasil busca responder às exigências apresentadas pela União Europeia. O Ministério da Agricultura, em conjunto com os órgãos estaduais de inspeção e sanidade, trabalha para demonstrar os controles relacionados ao uso de antimicrobianos. Em Minas Gerais, a atuação envolve o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA).

A União Europeia também realiza uma auditoria no Brasil sobre esses mecanismos de controle. Segundo Magalhães, o objetivo é avaliar se os procedimentos adotados pelo País atendem às exigências europeias. “Então, a gente acredita que essa questão é uma questão técnica, que vai ser demonstrada de forma rápida pelo Ministério que esses controles existem”, afirma.

Para o dirigente, o fato de a União Europeia não apontar contaminação da carne brasileira reforça a possibilidade de uma solução a partir da comprovação dos mecanismos de controle: “O que a União Europeia alega não é que há contaminação da nossa carne, não é que haja algum problema, o que ela alega é que os nossos controles são frágeis e não auditáveis.” A expectativa da Afrig é de que a demonstração técnica permita a reversão do bloqueio em curto prazo.

Salvo também defende que o setor esteja preparado para atuar nas frentes técnica e diplomática e destaca a competitividade da produção brasileira. “Tecnicamente está mais do que comprovado que temos a melhor e mais barata carne vermelha produzida no mundo”, afirma.

Sobre o autor

Ana Luisa Sales

Repórter do Diário do Comércio desde 2025, graduada em jornalismo pela UFMG e especialista em ESG e sustentabilidade corporativa pela FGV.

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