Agronegócio

Inadimplência rural cresce em Minas e acende alerta para alta no preço dos alimentos

Levantamento da Serasa Experian aponta aumento da inadimplência entre produtores rurais em Minas Gerais. Setor alerta para impactos no acesso ao crédito, na produção agropecuária e nos preços dos alimentos
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Inadimplência rural cresce em Minas e acende alerta para alta no preço dos alimentos
Foto: Arquivo / Agência Brasil

A inadimplência rural segue em crescimento e pode impulsionar os preços dos alimentos. De acordo com levantamento da Serasa Experian, datatech brasileira, a inadimplência da população rural em Minas Gerais alcançou 7,3% entre janeiro e março deste ano, um avanço de 0,9% frente à igual período de 2025 e de 0,4% frente ao quarto trimestre do ano anterior. O aumento do endividamento no campo é preocupante e pode comprometer a capacidade dos produtores de seguir produzindo alimentos, o que impacta no volume disponibilizado no mercado e pode, até mesmo, contribuir para a alta do preço dos alimentos e da inflação. Mesmo com a leve alta, o Estado não detém os maiores índices de inadimplência do setor no País.

Assim como em Minas Gerais, no Brasil a taxa também cresceu e chegou a 8,8% da população rural inadimplente, alta de 1,2 ponto percentual frente a igual trimestre de 2025. Conforme o gerente de Ciências de Dados Agro da Serasa Experian, Frederico Poleto, o indicador considera dívidas com mais de 180 dias de atraso. O aumento da inadimplência em Minas Gerais é impulsionado por fatores financeiros e produtivos.

“A inadimplência na agropecuária em Minas Gerais reflete uma combinação de fatores financeiros e produtivos acumulados de ciclos anteriores, envolvendo custos elevados, oscilações de preços e maior restrição ao crédito, que pressionam o fluxo de caixa do produtor e reduzem sua capacidade de pagamento. No caso mineiro, esse efeito é potencializado pela relevância das cadeias como a de café e a de leite, que têm grande peso no Estado e são sensíveis ao clima, preço recebido e custo de produção”, apontou Poleto.

Conforme o levantamento, apesar do avanço no número de produtores inadimplentes, Minas Gerais tem o quinto menor índice de inadimplência entre os estados.

Quando considerado o porte, na comparação entre o primeiro trimestre de 2026 e o mesmo período do ano anterior, a inadimplência subiu em todas as categorias de produtores. A maior inadimplência aconteceu entre a população rural sem registro de informação rural (arrendatários, grupos econômicos ou familiares), com alta de 1,7 ponto percentual e o índice chegando a 11%.

Em seguida, vieram os grandes proprietários, com alta de um ponto percentual e a inadimplência atingindo 7,9% da população. Entre os pequenos proprietários, a insolvência chegou a 6,6%, alta de 0,8 ponto percentual, e, entre os médios, a 6,98%, com aumento de 0,9 p.p.

Crédito mais restrito preocupa o setor

O aumento da inadimplência no campo pode trazer consequências significativas. Poleto destaca que a situação afeta o planejamento e a operação das atividades agropecuárias, já que reduz o acesso do produtor a crédito, capital de giro e prazos comerciais.

“Com menor liquidez, o produtor rural pode adiar a compra de insumos, reduzir investimentos em tecnologia, postergar a manutenção de máquinas e ter mais dificuldade para custear a próxima safra ou manter a produtividade do rebanho. Além disso, o aumento do risco leva bancos, cooperativas e fornecedores a serem mais seletivos na concessão de crédito, criando um efeito em cadeia sobre todo o setor”, disse.

O presidente do Sistema Faemg Senar, Antônio de Salvo, vê o aumento da inadimplência na população rural com preocupação. Segundo ele, a situação é agravada pelos juros altos. Por isso, é preciso que o governo olhe para o setor.

“O nosso setor é capaz, competente, tecnológico para se endividar menos do que as outras parcelas da sociedade. Mas, o aumento da inadimplência não deixa de ser um alerta. Com os juros de dois dígitos para o setor produtivo e com o agro absolutamente não é diferente, não é possível continuarmos gerando segurança alimentar para brasileiros e estrangeiros. O governo precisa olhar para o agronegócio, setor que é responsável pelo crescimento de Minas e do Brasil e pela garantia de segurança alimentar de 220 milhões de brasileiros”, criticou Salvo.

Risco para a produção e os preços dos alimentos

Salvo explicou ainda que o crescimento da inadimplência também é preocupante por comprometer a capacidade do produtor de seguir ampliando a produção e ofertando alimentos. A consequência pode ser a queda da produção e a alta nos preços dos alimentos para o consumidor.

“Nós, da porteira para dentro, já estamos tendo dificuldades de acesso ao crédito, mas, muito pior do que isso, serão os alimentos mais caros nas gôndolas dos supermercados e na mesa de milhões de brasileiros. É preciso ter muita atenção. O setor está mostrando um sinal amarelo de alerta. Se continuarmos assim, vamos ter, cada vez mais, índices crescentes de inadimplência e diminuição da produção.

Safras recordes trazem comida mais barata. Safras menores trazem comida mais cara, inflação, menos acesso, menos alimentos. Isso não é bom para ninguém”, confirmou Salvo.

Para o gerente de Ciências de Dados Agro da Serasa Experian, Frederico Poleto, a tendência é que a inadimplência siga em alta. “O cenário atual sugere que a inadimplência deve permanecer em patamar elevado com viés de alta moderada no curto prazo. Uma melhora mais clara dependerá da combinação entre uma boa safra, preços mais favoráveis, acesso efetivo ao crédito e reorganização financeira dos produtores”, concluiu.

Sobre o autor

Michelle Valverde

Repórter do Diário do Comércio desde 2009. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva.

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