Agronegócio

Tradicional requeijão moreno do Vale do Mucuri ganha regulamentação e abre caminho para venda nacional

Produção artesanal típica do Nordeste mineiro poderá ser formalizada após criação de regras sanitárias e de padronização para o produto tradicional da região
Tradicional requeijão moreno do Vale do Mucuri ganha regulamentação e abre caminho para venda nacional
Crédito: Divulgação Queijaria 3irmãos

Por décadas, o requeijão moreno atravessou estradas de terra, feiras livres e cozinhas do Vale do Mucuri carregado em potes improvisados, vendido de mão em mão e produzido quase sempre dentro das próprias propriedades rurais. De coloração escura, sabor intenso e preparo demorado, a iguaria se consolidou como parte da identidade de cidades do interior do Nordeste mineiro, mas permaneceu restrito ao comércio regional por falta de regulamentação sanitária específica.

A partir desta semana, produtores da região poderão iniciar um novo movimento de expansão comercial. O Governo de Minas oficializou, nessa quinta-feira (21), em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade (RTIQ) do requeijão moreno, documento que estabelece parâmetros de produção, higiene e padronização do produto artesanal.

Na prática, a regulamentação abre caminho para que agroindústrias familiares consigam obter habilitação sanitária e comercializar o requeijão fora do Vale do Mucuri, inclusive em outros estados.“Com isso, nós vamos poder passar a vender requeijão moreno do Mucuri no Brasil inteiro, em supermercados até”, celebra o governador de Minas Gerais, Mateus Simões, durante a agenda.

A produção está concentrada em 13 municípios da região: Ataléia, Catuji, Franciscópolis, Frei Gaspar, Itaipé, Ladainha, Malacacheta, Novo Oriente de Minas, Ouro Verde de Minas, Pavão, Poté, Setubinha e Teófilo Otoni.

Segundo dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), 76 agroindústrias familiares produzem, juntas, cerca de 91,4 toneladas de requeijão moreno por ano. O setor reúne pequenos produtores rurais que mantêm um modo de preparo transmitido entre gerações.

O produto possui características diferentes dos outros queijos artesanais mineiros. O requeijão moreno apresenta textura firme, coloração entre amarelo e marrom e sabor levemente defumado. A fabricação utiliza leite cru coagulado naturalmente, combinado ao creme de leite cozido e à massa da coalhada lavada. O preparo inclui etapas de aquecimento, lavagem da massa e incorporação do creme cozido.

Em muitas propriedades, a produção ainda ocorre de forma manual e em pequena escala. Nesse sentido, a ausência de regulamentação específica, porém, limitava a circulação comercial do produto e dificultava a formalização das agroindústrias familiares.

A produtora Neusa Lopes acompanha essa transformação há quase três décadas. Ela começou a fabricar requeijão moreno ao lado do marido depois de aprender o modo de preparo ainda na infância. Nos últimos anos, ganhou projeção em concursos nacionais de queijo artesanal.

Neusa Lopes e o marido produzem o requeijão moreno há 27 anos
Foto: Diego Vargas / Seapa

Em 2024, o casal recebeu medalha Super Ouro no Mundial do Queijo do Brasil. No ano passado, conquistou medalha de prata na categoria Requeijão Moreno durante o Expoqueijo Brasil, realizado em Araxá.

Para ela, a regulamentação representa a possibilidade de ampliar mercados para um produto que, até então, permanecia concentrado nas feiras locais. “O regulamento é um sonho realizado, um marco na minha vida. Poderemos vender para todo o Brasil”, afirma.

Processo de regulamentação

A construção do regulamento começou em 2023, após solicitação apresentada pela Associação dos Produtores de Queijo da Microrregião da Serra Geral. O processo envolveu estudos técnicos, pesquisas científicas e análises sanitárias conduzidas por órgãos estaduais.

A Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) participou da validação científica do processo. Já o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) ficou responsável pela elaboração da minuta do regulamento e pela condução da consulta pública.

Segundo o gerente de inspeção de produtos de origem animal do IMA, Rômulo Lage, o objetivo da regulamentação é estabelecer parâmetros sanitários sem descaracterizar o modo tradicional de fabricação. “Eles poderão adquirir o produto com a certeza de que é elaborado da forma correta, respeitando todo o procedimento que as pesquisas mostraram ser adequado, com parâmetros físico-químicos e microbiológicos”, observa.

O anúncio foi realizado durante agenda do Governo de Minas em Teófilo Otoni, cidade que recebeu simbolicamente a transferência da capital mineira nesta semana dentro do projeto Governo Presente.

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