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ROGÉRIO FARIA TAVARES*

Nascida na capital do país, a cidade de Bissau, em 7 de novembro de 1959, ainda nos tempos da Guiné Portuguesa, Odete Semedo concluiu os estudos secundários em seu país, vindo a licenciar-se em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa, no ano letivo de 1989/1990. Voltando a Bissau em 90, foi a coordenadora nacional do Projeto de Língua Portuguesa do ensino secundário, financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Também dirigiu uma escola normal superior em sua cidade, nela exercendo, ao mesmo tempo, a função de professora. Em 95, foi diretora-geral do Ensino da Guiné, presidente da Comissão Nacional para a Unesco-Bissau, ministra da Educação de seu país entre 97 e 99 e Ministra da Saúde, entre 2004 e 2005.

Fundadora da Revista de Letras, Artes e Cultura, mudou-se para o Brasil em 2006, para fazer seu curso de doutorado em Letras na PUC Minas, sendo orientada pela professora doutora Nazareth Soares Fonseca. Sua tese de Doutorado se chamou “Cantigas de Mulher na Guiné Bissau – da tradição oral à Literatura”. Odete também foi fundadora e secretária Geral da Associação dos Escritores de Guiné Bissau. Em 2013, tornou-se reitora da Universidade Amilcar Cabral, de seu país.

A geração literária anterior à de Odete surgiu a partir de 1945 e se estendeu até os anos 70. Formada por um grupo de poetas que se engajou na luta pela independência da Guiné e cuja atuação resultou na chamada ‘poesia de combate’, sua temática principal era a exaltação do sentimento nacionalista e a denúncia da miséria e do sofrimento decorrente da colonização. O objetivo maior de tal grupo foi o de contribuir para a libertação do país e para a construção de uma Guiné livre e independente.

Odete Semedo é da nova geração. Seu primeiro livro, “Entre o Ser e o amar”, uma reunião de poemas, foi publicado em 1996. Nele, encontram-se dois grandes temas, comuns a esses novos autores: as desilusões vinculadas à pós-independência e todo o sofrimento vivido pelo país recentemente livre; e a busca de uma identidade nacional.

Para muitos críticos, os versos de Odete Semedo revelam não só a tensão que permeia o período de mudanças, mas também a inquietude própria do indivíduo diante da existência.

Outro tema também muito explorado pela poesia de Odete é o questionamento e a reflexão acerca da língua. Diz a autora: “no meu país, além das línguas utilizadas por cada um dos vinte e sete grupos étnicos que compõem a nacionalidade, há o crioulo, língua franca falada por cerca de setenta por cento da população do país, o crioulo de base portuguesa, e há a língua portuguesa, língua oficial utilizada na administração e no ensino, dominado por cerca de doze por cento da população”.

Em sua obra literária, Odete Semedo expõe tal situação e o quanto ela pode expressar um conflito de identidade. Em um de seus textos, a autora diz que a língua testemunha a nossa relação com a vida: “A língua nasceu virada para fora de si, irmanada com os lábios, os dentes e as cordas vocais que lhe deram a fala, a música, o grito e o silencio. A língua não se importa que a façam voar em vozes e falas, que a enrolem em pergaminhos, folhas simples ou papel reciclado. O certo é que em silencio ela grita e mesmo quando, inseguros, nela deitamos a mão, a língua é sempre testemunha”.

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras