Aeroporto Carlos Prates ainda aguarda novo bairro; desativação já provocou fechamento de empresas e desemprego
Com a promessa de virar um grande bairro com 4 mil moradias, complexo esportivo, centro de saúde e escola, o Aeroporto Carlos Prates, na região Noroeste de Belo Horizonte, desativado no dia 1º de abril de 2023, permanece sem uma destinação efetivamente implantada para toda a área. Enquanto as propostas anunciadas após o fechamento não avançaram, as empresas que operavam no local tiveram destinos diferentes.
Segundo o presidente da associação Voa Prates, Estevan Velásquez, o processo resultou no encerramento de mais de dez empresas e na perda de cerca de 500 postos de trabalho. “O que aconteceu foi exatamente o que alertamos. As empresas não aguentariam. A maioria acabou fechando e a gente perdeu quase 500 empregos”, afirmou.
O aeroporto reunia 15 empresas, entre cinco escolas de aviação e quatro oficinas de manutenção, além de outros negócios ligados ao setor e um restaurante. De acordo com Velásquez, apenas quatro delas continuam em atividade: as escolas VelAir e StarFlight, a empresa de manutenção Claro Aviação e a Wings Aviation, especializada no atendimento e armazenamento de aeronaves.
Dessas, a VelAir e Wings Aviation conseguiram se reinstalar na Pampulha, a Claro Aviação e a StarFlight foram para o Aeroporto de Pará de Minas, na região Central do Estado. “O aeroporto Carlos Prates não era um aeroporto igual à Pampulha, ou igual a Confins. Era um aeroporto de base, de formação, de fomento à aviação”, explicou.
Segundo ele, a estrutura e os custos dos demais aeroportos dificultaram a continuidade de atividades que dependiam do Aeroporto Carlos Prates. “Você comparar um avião que custa R$ 300 mil de uma escola com um avião que custa R$ 20 milhões de uma empresa da aviação executiva, entendeu? Você comparar o cara que pagava R$ 2 mil de hangar lá. Enquanto na Pampulha o hangar mais barato é R$ 10 mil. É insustentável”, afirmou.
Velásquez também relaciona o fechamento à redução na formação de profissionais da aviação. De acordo com ele, a formação teria caído de cerca de 1 mil pilotos por ano para aproximadamente 200. “Isso criou um caos sistêmico na aviação de Minas Gerais. Mecânico de avião é ouro”, disse.
Destino da área
Após a desativação, foram anunciadas propostas de ocupação da área, incluindo equipamentos públicos e um parque. Para Velásquez, porém, o parque apresentado como uma nova intervenção não representa uma nova implantação. Segundo ele, o espaço já existia e foi apenas revitalizado após um período de abandono.
“O parque sempre existiu. Pegaram esse parque que havia sido abandonado pela Prefeitura, foi devolvido para a responsabilidade da Prefeitura de novo e eles só revitalizaram o que já tinha”, afirmou.
Ele também sustenta que as propostas de ocupação imobiliária da área nunca chegaram a constituir um projeto estruturado. “Nunca existiu um projeto, nunca existiu nenhum estudozinho de viabilidade sequer. Então, você não pode chamar de projeto algo que não fez nem estudo”, disse.
Na avaliação dele, a falta de estudos sobre infraestrutura viária, transporte público e recursos para implantação comprometeu as propostas anunciadas para o terreno. “Não tem viabilidade de infraestrutura viária, de transporte público, enfim, de nada. E tem dinheiro para fazer isso? Ninguém tem, nunca teve”, afirmou.
Enquanto isso, segundo Velásquez, grande parte da área permanece sem utilização definida. Ele relata problemas como mato alto, presença de animais peçonhentos e utilização do espaço para armazenamento de entulhos. “A pista está preservada. Porém está cheio de entulho, agora”, afirmou.
Alternativa para a aviação
Antes do fechamento, a associação Voa Prates, em parceria com entidades do setor produtivo, defendia uma alternativa de utilização do aeroporto que mantivesse a atividade aeronáutica e agregasse equipamentos de formação e atendimento.
Segundo Velásquez, havia uma proposta para transformar o Carlos Prates em uma estrutura voltada à formação profissional, tecnologia e atendimento de emergência. Entre as iniciativas discutidas estavam a instalação de estruturas de formação técnica, um hospital de emergência com acesso à pista e um polo relacionado à utilização de drones. “Nós fizemos esse projeto para transformar o aeroporto em um objeto social mesmo, e que tudo nele seria revertido para ele mesmo”, afirmou.
Ele cita ainda que mais de 20 empresas haviam manifestado interesse em participar da proposta, além de parcerias para formação de profissionais de manutenção aeronáutica. Entre elas a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), que estudava levar atividades de formação técnica para o local, incluindo laboratórios e cursos relacionados à manutenção e à área aeronáutica.
Apesar da desativação, Velásquez afirma que a associação chegou a trabalhar pela continuidade da operação e que houve, inclusive, movimentações para que o aeroporto passasse à administração estadual. O processo, porém, não foi concluído.
Para ele, uma eventual reabertura dependeria de uma mudança no cenário político. “Eu diria para você que só se mudar o cenário político atual. Da forma que está hoje, acho difícil”, afirmou.
Antes da desativação, o Carlos Prates registrava, segundo dados apresentados por Velásquez, cerca de 70 mil movimentos por ano. Ele afirma que a estrutura tinha papel relevante na aviação estadual. “O Carlos Prates era o segundo aeroporto mais movimentado de Minas Gerais. Tínhamos o dobro do movimento da Pampulha e não funcionávamos 24 horas como lá”, disse.
Para o presidente da Voa Prates, o principal impacto do fechamento não se restringiu ao terreno. “A gente perdeu o portão de entrada de Belo Horizonte para nada, a troco de nada”, finalizou.
Procurada a Prefeitura de Belo Horizonte, informou em nota que os equipamentos instalados na área do antigo aeroporto Carlos Prates, a Escola Municipal de Educação Infantil (Emei), o centro de saúde e o parque, já estavam previstos nas tratativas entre a PBH e a União, antes do desenvolvimento do projeto completo para o novo bairro.
Segundo o documento, a continuidade das ações de urbanização depende da contratação de estudos para elaborar o plano de ocupação, definir os mecanismos de financiamento e o modelo jurídico para a contratação e manutenção das obras de urbanização Esses estudos, segundo a nota, serão realizados por meio do Fundo de Estruturação de Projetos da Caixa Econômica Federal, porém, “o edital ainda não foi publicado”, finalizou.
Recentemente, a Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) também pediu informações ao Executivo sobre a contratação de serviço técnico especializado para elaboração do projeto de execução das obras, sem sucesso. Conforme informações do gabinete do autor do requerimento, o vereador José Ferreira (Pode), eles não obtiveram respostas.
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