Economia

Crime custa ao menos R$ 107 bi à indústria brasileira, mostra CNI

O crime custa ao menos R$ 107 bilhões por ano para a indústria brasileira, entre prejuízos diretamente causados pelo mercado ilícito e gastos associados à prevenção e segurança
Crime custa ao menos R$ 107 bi à indústria brasileira, mostra CNI
Foto: Brenda Rocha Blossom/Getty Images/Canva

O crime custa ao menos R$ 107 bilhões por ano para a indústria brasileira, entre prejuízos diretamente causados pelo mercado ilícito e gastos associados à prevenção e segurança.

É o que mostra uma sondagem da CNI (Confederação Nacional da Indústria). O levantamento ouviu 1.398 empresas de 32 setores industriais de pequeno, médio e grande porte de todo o país, entre os dias 3 e 12 de novembro do ano passado.

Dos R$ 107 bilhões, R$ 68,8 bilhões são só em gastos com prevenção contra crimes. Nesse pacote, entram, por exemplo, despesas com vigilância patrimonial, monitoramento eletrônico, segurança cibernética e proteção pessoal. Os outros R$ 39,1 bilhões são resultado direto de atos criminosos na receita líquida das empresas. Aqui, entram desde roubo de carga e furto de matéria-prima até pirataria, contrabando e “gatos” de energia elétrica.

“São recursos que poderiam ser revertidos em novos investimentos, emprego e melhoria na produção”, afirma o superintendente de política industrial da CNI, Fabrício Silveira, responsável pela sondagem.

A CNI afirma que parte dos prejuízos pode estar associada à atuação do crime organizado, embora a sondagem não permita mensurar esse impacto. Segundo Silveira, setores como combustíveis e bebidas já registraram casos com indícios relevantes de participação de organizações criminosas.

“Tanto no caso do metanol [contaminação de bebidas no ano passado] quanto nas operações no setor de combustíveis havia vínculos bastante fortes com esse tipo de atuação criminosa”, afirma.

Silveira ressalta, contudo, que é difícil quantificar quanto do custo total estimado pela pesquisa está relacionado às facções. Segundo ele, as empresas consultadas não identificam quem está por trás dos crimes, mas apenas os prejuízos sofridos. “Elas conseguem mensurar as perdas, mas não necessariamente apontar quem está por trás delas”, diz.

Segundo o levantamento, as perdas pelo crime afetam mais de um terço das empresas industriais do país, e os efeitos são mais acentuados nas de pequeno e médio porte. Em números, o impacto negativo médio nas companhias menores é de 0,6% da receita líquida anual. Em médias e grandes, é de 0,8% e 0,4%, respectivamente.

Essa análise segmentada por porte das companhias é, segundo o estudo, especialmente relevante por considerar o papel que desempenham na economia.

As micro e pequenas empresas são quase a metade (44%) de toda a indústria brasileira, segundo dados de 2024 do Sebrae. “Quando pressionadas por ilícitos, elas reduzem investimentos, postergam projetos e tornam-se mais avessas ao risco, o que pode comprometer a renovação produtiva e o crescimento de longo prazo da economia”, diz Silveira.

Entre os tipos de crimes que mais afetam a indústria, a CNI aponta que o roubo de carga é líder em ocorrências (32%).

Para Silveira, o perfil dos crimes varia conforme o porte da empresa. “As menores, por exemplo, enfrentam mais problemas com crimes patrimoniais dentro das próprias instalações, como roubos e furtos. Já o roubo de cargas é mais comum entre médias e grandes empresas.”

Somente no estado do Rio de Janeiro, segundo a Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), essa categoria de ilícito impõe um ônus pesado à economia logística: em 2025, foram registrados mais de 3.000 casos — o equivalente médio a oito caminhões atacados por dia apenas no estado. Em valores, o prejuízo estimado ficou em cerca de R$ 314 milhões para as empresas da região.

A não conformidade de produtos com regulamentações técnicas ficou em segundo lugar entre os ilícitos mais reportados. Isto é, quando empresas são afetadas pelo comércio ilegal de produtos que não atendem normas técnicas, regulatórias ou de segurança exigidas pela lei. Como exemplo, o estudo cita a ausência de certificações obrigatórias, rótulos inadequados ou qualidade aquém dos padrões predeterminados.

Nesse ponto, a pirataria e a falsificação também são discriminadas pelas empresas, em quinto lugar entre os ilícitos mais citados.

Além de riscos à saúde do consumidor, diz a CNI, essas práticas geram concorrência desleal, já que custa menos produzir e o produto, em si, costuma ser mais barato do que o feito em total conformidade com as normas.

A perda de participação de mercado — decorrente tanto da concorrência desleal quanto do roubo de cargas — é apontada como um dos principais efeitos negativos do crime na indústria por 30% das empresas impactadas, atrás apenas de perda de receita bruta (50%).

“Enquanto o roubo de cargas compromete a receita ao impedir a entrega e venda dos produtos, a falta de conformidade na produção ou venda implica perda de receitas por meio desleal, que reduz o mercado das empresas que operam dentro da legalidade”, diz o levantamento.

O aumento de custos com segurança (28%) e custos jurídicos adicionais (10%) são os outros efeitos mais citados.

As empresas também foram questionadas sobre como enfrentam essas ilegalidades. Medidas de fiscalização e controle lideram com 77%, seguidas por ações de inteligência (46%). Um terço das companhias (36%) também citam o endurecimento da legislação como uma das formas de combater o crime na indústria.

Segundo a CNI, a ênfase à fiscalização e ao controle reflete a percepção de que, para reduzir a incidência desses crimes, o poder público deve atuar de forma mais contundente em pontos de comercialização e circulação de produtos irregulares.

Conteúdo distribuído por Folhapress

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