Economia

Minas Gerais tem o 3º maior déficit habitacional do País, com mais de 506 mil moradias em falta

Levantamento da Fundação João Pinheiro mostra que Estado responde por 8,77% do déficit habitacional brasileiro e ocupa a segunda posição nacional em ônus excessivo de aluguel
Minas Gerais tem o 3º maior déficit habitacional do País, com mais de 506 mil moradias em falta
Foto: Divulgação Marcelo Camargo

Minas Gerais registrou, em 2024, o terceiro maior déficit habitacional, com 506.419 moradias em falta. O Estado segue atrás do Rio de Janeiro (513.740) e de São Paulo (1.252.830) em um levantamento divulgado nesta quarta-feira (10) pela Fundação João Pinheiro (FJP). O estudo teve como base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico).

Em âmbito nacional, a falta de moradias em Minas Gerais representa 8,77% do total contabilizado em todo o País naquele ano (5.773.983). O déficit no Brasil, em 2024, registrou um recuo de 3,4% em relação ao aferido para o ano anterior.

O levantamento também mostra que Minas Gerais concentra 10,8% dos domicílios brasileiros com ônus excessivo de aluguel, ocupando a segunda posição no ranking nacional desse indicador, atrás de São Paulo, que responde por 26,9% do total.

De acordo com a Fundação João Pinheiro, o ônus excessivo com aluguel, caracterizado por domicílios urbanos com renda familiar de até três salários mínimos que comprometem mais de 30% dessa renda com o pagamento do aluguel, continua sendo o principal componente do déficit habitacional brasileiro.

Juros altos e aluguel pressionam déficit habitacional em Minas, segundo mercado imobiliário

Para o conselheiro da Câmara do Mercado Imobiliário e Sindicato da Habitação de Minas Gerais (CMI/Secovi-MG), Ariano Cavalcanti, os principais fatores que explicam o volume ainda elevado de déficit no Estado, se devem, basicamente, às despesas de produção e, sobretudo, ao custo do financiamento de imóveis.

“Isso inibe todo o setor porque compromete frontalmente a renda. Com isso, embora o setor produtivo tenha condições de produzir, não há pessoas com renda para alcançar o financiamento”, analisa.

Segundo Cavalcanti, as regiões do Estado que concentram os maiores desafios habitacionais são aquelas com renda menor, principalmente os municípios mais pobres.

O conselheiro do CMI/Secovi-MG explica ainda que o alto ônus excessivo do aluguel no Estado como um dos fatores pujantes para o déficit habitacional, está atrelado a uma equação lógica do mercado.

“Na medida em que se tem pouco acesso à aquisição do imóvel, você direciona mais pessoas para o aluguel, o que aumenta o déficit habitacional. A causa estrutural também aparece aqui: com juros altos, a conquista do imóvel fica mais cara, mesmo no Minha Casa, Minha Vida, com juros subsidiados”, explica.

O vice-presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis de Minas Gerais (Sindimóveis-MG), Leandro Chaves, reforça a análise de Cavalcanti, afirmando que este cenário de procura pelo aluguel, que contribui para o consequente encarecimento dos preços, não vai mudar a curto prazo.

“Os imóveis estão cada vez mais caros, seja por custos com mão de obra, valor do terreno, taxa de juros para os financiamentos. Então, de fato, ele [aluguel] vai continuar sobrecarregando as famílias mineiras. Não à toa alguns estudos recentes mostram que Minas Gerais tem a maior inadimplência [no aluguel] comparada a outros estados do Brasil”, diz.

Redução do déficit habitacional poderia ser acelerada se juros do financiamento fossem menores

Ariano Cavalcanti afirma que apesar de o déficit habitacional ter reduzido no País nas últimas duas décadas, a queda poderia ser maior se fosse acompanhada por uma redução da taxa de juros para aquisição de imóveis.

“Os juros inibem não só a poupança como o acesso ao financiamento imobiliário, seja em qual categoria for, sobretudo no Minha Casa, Minha Vida, que é o maior responsável pela redução desse déficit habitacional. Então, apesar da redução, o déficit continua alto e a redução vai ser mais lenta que provavelmente o crescimento da demanda”, reforça.

Cavalcanti pontua que uma taxa de juros mais baixa contribuiria para uma redução do déficit mais acelerada. “Cabe alertar aqui também uma preocupação com a poupança, porque ela vem reduzindo e o funding de financiamento do setor começa a acender um alerta amarelo ou quase vermelho”, conclui.

Minas Gerais tem imóveis vazios suficientes para reduzir o déficit, aponta especialista

Para o doutor em teoria e projeto de arquitetura urbana com ênfase em planejamento habitacional, André Prado, a redução acelerada do déficit habitacional em Minas Gerais exige uma agenda que combine ações em diferentes escalas e tempos.

“No curto prazo, maximizar a adesão ao Minha Casa, Minha Vida. Minas Gerais precisa se inserir de forma mais ativa no fluxo de investimentos do programa, combinando contrapartidas estaduais e municipais, especialmente terrenos, para viabilizar empreendimentos na Faixa 1, que é a mais diretamente vinculada ao perfil das famílias em déficit no Estado”, analisa.

A médio prazo, o especialista afirma que é preciso ativar o estoque ocioso por meio do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) progressivo e da regularização fundiária em larga escala.

“Há cerca de 1,2 milhão de imóveis desocupados em Minas Gerais, enquanto o déficit habitacional quantificado é de cerca de 506 mil imóveis. O Estado tem duas vezes mais imóveis desocupados do que residências necessárias para suprir a demanda. Isso indica que a solução no médio prazo não passa necessariamente pela construção de novas unidades, mas pela mobilização do estoque existente por meio de tributação progressiva, desapropriação e cessão de imóveis ociosos para habitação de interesse social”, destaca o professor, que também coordena o curso de arquitetura e urbanismo do Centro Universitário Ibmec, em Belo Horizonte.

Por fim, a longo prazo, o docente afirma ser necessário construir um sistema estadual de habitação com financiamento, capacidade técnica e governança que articula Estado, municípios, movimentos sociais e setor privado em torno de um diagnóstico preciso do cenário. “A própria Fundação João Pinheiro já produz, mas ainda pouco traduzido em políticas efetivas”, conclui.

Gráficos com dados sobre déficit habitacional no Brasil, em 2024

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